
Por Moisaniel Filho (*)
Alô, alô, meus amigos, minhas amigas!
Sejam muito bem-vindos a mais um episódio de “Fragmentos de Memórias em AM e FM”, série em que compartilho lembranças de uma vida dedicada ao rádio e às pessoas extraordinárias que encontrei pelo caminho.
Hoje volto à inesquecível São Gabriel da Cachoeira para recordar dois personagens que transformavam qualquer roda de conversa em um verdadeiro espetáculo: Dantas e José Diniz. Quando esses dois se encontravam, começava um autêntico duelo de contadores de histórias. Cada um tentava superar o outro com um “causo” ainda mais criativo, arrancando gargalhadas de quem tivesse a sorte de estar por perto.
Naqueles tempos, era costume deixarmos os estúdios da Rádio Nacional de São Gabriel da Cachoeira por volta das onze ou onze e meia da noite. Depois de horas no ar, a fome apertava e quase sempre seguíamos para um lugar muito especial: o cantinho do Chico e da dona Graça que ficava localizado ao lado do Bazar Fortaleza, na rua da paróquia do padre Nilton.

Durante o dia, dona Graça trabalhava conosco na rádio. Preparava um café inesquecível, cuidava da limpeza e fazia tudo com muito carinho. À noite, ajudava o marido vendendo uma sopa de tempero inconfundível, que reunia amigos, colegas e muitos moradores da cidade.
Ali havia alguns tamboretes, pequenas mesas e acima de tudo, boa conversa.
Era comum encontrarmos o Dantas sentado com o Chico. De vez em quando apareciam também o Cizinho, o Bira, senhor Moisés e outras figuras conhecidas de São Gabriel. O caldo era apenas uma desculpa. O verdadeiro banquete eram as histórias.
Numa dessas noites, Dantas resolveu contar uma de suas aventuras. Disse que, quando morava no sertão, criava uma grande quantidade de galinhas. Eram bem alimentadas, produziam muitos ovos e garantiam um bom sustento para a família.
Até que veio uma seca daquelas.
A ração começou a desaparecer das vendas. Quando encontrava, era pouca e muito cara. Chegou um momento em que simplesmente não havia mais ração para comprar.
Sem saber o que fazer, caminhava pela cidade quando passou em frente a uma serraria. Olhou para aquela montanha de serragem e teve uma ideia. Comprou o restinho de ração que encontrou e levou também alguns sacos de serragem.
Ao chegar em casa, anunciou à esposa:
— Mulher, tive uma ideia. Vou misturar a ração com essa serragem. É tudo da mesma cor. As galinhas nem vão perceber.
Ela respondeu na hora:
— Homem, tu és doido! Isso não vai dar certo!
Mas não havia alternativa.
Nos primeiros dias, misturou um pouco de ração com serragem. Depois, quando a ração acabou completamente, sobraram apenas os montes de pó de madeira. As galinhas, com fome, comiam a serragem e depois bebiam bastante água.
Quando Dantas terminou essa parte da história, alguém perguntou:
— Mas, Dantas… e as galinhas? Ainda botavam ovos?
— Botavam!
— E chocavam?
— Chocavam!
— E nasciam pintinhos?
Ele fez uma pausa, olhou para todos e respondeu com a maior naturalidade:
— Iam nascendo… O único problema era que cada pintinho vinha com uma perna de carne e a outra de pau!

Foi uma gargalhada geral.
José Diniz, meu companheiro da Rádio Nacional, ouviu tudo calado e resolveu entrar na disputa.
— Dantas, tua história é boa, mas vou contar uma que aconteceu comigo.
Disse que, quando menino, sonhava em ter um cachorro, mas a mãe nunca permitia. Já adulto, ganhou dois filhotes da mesma ninhada.
Perguntaram como eles se chamavam.
Ele respondeu:
— O mais comportado se chamava “Pra Dentro” e o outro, por ser muito peralta, era o “Pra Fora”.

Só esse detalhe já provocou risos.
Então Diniz continuou:
— Depois de um tempo, os dois começaram a ficar esquisitos. Tremiam, corriam de um lado para outro e pareciam meio doidos.
Alguém perguntou:
— Vocês levaram ao veterinário?
— Que veterinário? Lá no sertão não tinha veterinário. Eu não sabia mais o que fazer.
Então veio a explicação.
— Um dia chegou uma visita lá em casa. Eu estava conversando na sala quando entrou um dos cachorros. Aí gritei:
— Pra Fora, Pra Dentro!
Só que quem tinha entrado era justamente o cachorro chamado Pra Dentro.
Logo depois apareceu o outro, e eu gritei:
— Pra Dentro, Pra Fora!
Daquele dia em diante, um não sabia mais se entrava, o outro não sabia mais se saía. Eu mandava o Pra Dentro ir para fora e o Pra Fora entrar para dentro. Os dois viviam correndo de um lado para outro, completamente desnorteados.
Resultado: os dois acabaram ficando doidos!
Outra explosão de gargalhadas tomou conta do cantinho do Chico. Era exatamente assim. Sempre aparecia alguém disposto a contar uma história ainda mais extraordinária do que a anterior.
Para não ficar por baixo na roda de conversa, Dantas resolveu contar uma outra história que, segundo ele, havia acontecido em sua própria casa.
Disse que teve um cachorro extraordinário. Era valente na caça, excelente guarda da propriedade e, acima de tudo, um companheiro inseparável da família. Daqueles animais pelos quais a gente cria um verdadeiro afeto.
Até que, certo dia, o cachorro começou a babar sem parar. Latia de forma diferente, andava agitado e logo surgiram os comentários de que foi acometido de raiva canina. No sertão, onde não havia veterinário, vacina nem qualquer recurso, o medo tomou conta de todos, pois se o animal morder alguém, pode levar a pessoa à morte.
A família decidiu prendê-lo.
Primeiro, amarraram o animal a uma árvore menor. Mas o cachorro possuía uma força impressionante. Arrancou a árvore com raiz e tudo, avançando na direção das pessoas, que correram apavoradas.
Depois de muito esforço, conseguiram capturá-lo novamente.
— Agora vamos prendê-lo naquele abacateiro. Aquele ninguém arranca! — decidiu um dos homens da casa.
E assim foi feito.
Preso ao grande abacateiro do quintal, o cachorro permanecia enfurecido. Ameaçava morder quem tentasse chegar perto e, quando não conseguia alcançar ninguém, voltava sua fúria contra a própria árvore.
Mordia o tronco com tanta violência que arrancava pedaços da casca.
Dias depois, sem qualquer possibilidade de tratamento, o velho companheiro morreu. A família o enterrou com tristeza.
O tempo passou.
Na época da florada, algo inacreditável aconteceu.
O abacateiro deixou de produzir abacates. Em seus galhos começaram a nascer laranjas, tangerinas, abacaxis… até batata-doce, segundo garantiam os moradores.

A notícia correu o vilarejo. Vieram curiosos de todos os lados. Diziam que até professores e pesquisadores de uma universidade do Rio Grande do Norte apareceram para estudar aquele fenômeno extraordinário.
Depois de muitos exames, os especialistas anunciaram a conclusão científica:
— Descobrimos o motivo. O cachorro estava com raiva… e, de tanto morder o abacateiro, acabou transmitindo a doença para a árvore. Foi por isso que ela enlouqueceu e nunca mais soube que fruta deveria produzir.
Quando Dantas terminou a história, ninguém conseguiu se conter. A galera inteira caiu na gargalhada.
Era impossível inventar um desfecho mais absurdo — e justamente por isso, mais engraçado.
No rádio também é assim.
Ao longo da vida, ouvi histórias de todos os tipos. Algumas certamente aconteceram; outras ganharam um tempero generoso da imaginação. Mas isso nunca diminuiu seu valor. Muito pelo contrário.
O rádio sempre alimentou essa maravilhosa capacidade humana de imaginar. O ouvinte constrói mentalmente os cenários, dá rosto aos personagens e completa, com a própria fantasia, aquilo que apenas a voz sugere.
Quando tentamos explicar racionalmente cada detalhe, boa parte desse encantamento desaparece.
É justamente essa dimensão lúdica que faz do rádio um veículo tão fascinante e tão próximo da alma das pessoas.
Espero que você tenha gostado de mais este fragmento das minhas memórias.
Se esta história despertou boas lembranças ou lhe arrancou um sorriso, compartilhe este episódio, deixe seu comentário e ajude a preservar essas pequenas joias da tradição oral da nossa Amazônia.
No próximo sábado estaremos juntos novamente, aqui no “Portal do Povo Amazonense”, com mais um episódio de “Fragmentos de Memórias em AM e FM”.
“Eu sou Moisaniel Barbosa Filho e agradeço, de coração, pela sua companhia.”
Um forte abraço e até a próxima!
(*) é jornalista, radialista, publicitário, professor universitário, palestrante e especialista em Marketing Estratégico e Gestão Ambiental. Atua há mais de quatro décadas nos setores de rádio, televisão, jornal, gestão pública, educação e desenvolvimento socioambiental na Amazônia.
Criador do Projeto Socioambiental Consciência Limpa, da Rede Amazônica, dedicou-se à promoção da educação ambiental e da cidadania. É também formador de profissionais de rádio, ministrando cursos e palestras nas áreas de comunicação, radiodifusão e oratória.
Ao longo da carreira, exerceu funções de direção, gestão e comunicação em veículos de imprensa, instituições públicas e organizações da sociedade civil, sempre pautado pelo compromisso com a ética, a informação de qualidade e o desenvolvimento sustentável.
É autor de projetos, artigos e obras voltadas à comunicação, à memória do rádio e às questões socioambientais da Amazônia e atualmente articulista do Portal O Povo Amazonense.





