
A atenção pública voltada para pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) historicamente se concentra na primeira infância, deixando uma lacuna assistencial preocupante quando esses pacientes atingem a adolescência.
A transição para a segunda década de vida traz novos desafios comportamentais, sociais e de autonomia que exigem acompanhamento terapêutico moldado para essa faixa etária. Em Manaus, a consolidação de políticas integradas tenta mudar esse cenário de desamparo crônico.
Nesta terça-feira, 19 de maio, o governador do Amazonas, Roberto Cidade, realizou uma visita técnica ao Centro de Atenção Integral Juventude TEA para monitorar os resultados obtidos em pouco mais de um mês de funcionamento da estrutura.
Inaugurado no dia 10 de abril de 2026, o espaço voltado para jovens de 12 a 18 anos registrou mais de 900 atendimentos entre consultas médicas e sessões terapêuticas contínuas, sinalizando a alta demanda reprimida existente na capital.
A criação de uma unidade dedicada exclusivamente aos adolescentes representa um avanço na consolidação de uma linha de cuidado permanente na rede pública estadual, permitindo que o desenvolvimento alcançado nos anos iniciais não seja perdido por falta de estímulo adequado na puberdade.
“Fiz questão de vir aqui acompanhar esse um mês e, desde o início do funcionamento, já atendemos mais de 900 adolescentes de 12 a 18 anos, que recebem um tratamento adequado. Tive uma reunião com as mães, visitei as nossas crianças e a evolução já é visível. O nosso Juventude TEA veio pra ficar. É um projeto muito bonito que ajuda a vida dessas crianças. A pauta do autismo, a pauta da inclusão é uma bandeira do meu trabalho independente de qualquer cargo e vou abraçar isso. Cuidar das pessoas e das nossas crianças é prioridade”, afirmou o governador Roberto Cidade.
Desafio da transição
A manutenção de tratamentos especializados vinculados à Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (SES-AM) busca preparar o jovem autista para os desafios da vida adulta e a inserção no mercado de trabalho. Quando o suporte cessa na adolescência, as chances de isolamento social aumentam, sobrecarregando os núcleos familiares.
O foco em habilidades práticas diárias diferencia o espaço das clínicas convencionais que atendem crianças menores, mudando a perspectiva de futuro tanto para os pacientes quanto para os responsáveis.
“Hoje nós comemoramos um perfil de atendimento para os jovens e adolescentes. Esses adolescentes têm oportunidade de desenvolver competências diferenciadas daquelas que são trabalhadas na primeira infância, o que oportuniza esse desenvolvimento e empregabilidade no futuro. Aqui nós trabalhamos muito forte a independência e as atividades de vida diárias”, destacou a secretária executiva de Atenção Especializada e Políticas de Saúde da SES-AM, Laís Moraes.
Estrutura e inovação
O prédio localizado na avenida João Valério, no bairro São Geraldo, funciona de segunda a sexta-feira, das 8h às 18h. O planejamento arquitetônico e clínico da estrutura foi desenhado para simular vivências cotidianas, diminuindo as crises decorrentes de quebras de rotina ou estímulos sensoriais urbanos.
As principais ferramentas de suporte instaladas no complexo envolvem os seguintes ambientes especializados:
- Salas terapêuticas diversificadas e sala de regulação sensorial para acolhimento de crises.
- Arena esportiva integrada e parque molhado terapêutico para estímulo motor e físico
- Casa Funcional projetada para o treinamento de tarefas domésticas e independência residencial.
- Laboratório LAB TEA equipado com realidade virtual para simulação de compras em supermercados e uso de transporte público.
O uso de tecnologias de imersão virtual atua diretamente na dessensibilização dos jovens, permitindo que eles treinem interações sociais complexas em um ambiente controlado e seguro antes de enfrentarem as ruas da capital.
Visão das famílias
A resposta prática das famílias atendidas serve como o principal indicador de eficiência da nova política pública.
O acolhimento centralizado reduz a peregrinação por diferentes clínicas particulares ou filantrópicas, centralizando o prontuário do jovem em um único polo de atendimento multidisciplinar.
A evolução comportamental em curto espaço de tempo renova as expectativas de inclusão e bem-estar dentro de casa.
“Ele está há um mês e já notamos a diferença. Quando a criança é acompanhada e tem profissionais de excelência, espaço terapeutico, a evolução chega. Além do mais, eu também tenho uma criança de seis anos que está no Caic TEA, na zona norte, que é um Caic de excelência. Só tenho a agradecer o Governo do Estado, ao governador que é um pai atípico que se importa com a causa”, afirmou a dona de casa Cristiane Maia, mãe do adolescente Guilherme, de 12 anos.
A comitiva que acompanhou a inspeção contou com a presença dos deputados estaduais Mário César Filho, Professora Jacqueline e João Luiz, além do vereador Allan Campelo. O fortalecimento dessa rede de apoio, que já conta com três unidades do projeto “Caic TEA” voltadas ao público infantil desde 2025, estabelece uma base sólida no estado.
Contudo, o desafio contínuo do poder público será descentralizar esses serviços de alta complexidade para as periferias e municípios do interior do Amazonas, garantindo que o direito à saúde e à inclusão social não fique restrito às zonas centrais da capital.










