
Transformar a forma como jovens ribeirinhos e indígenas enxergam a própria realidade é a missão central do projeto Ribeirinhos Cientistas. A iniciativa atua na Comunidade São João do Tupé, localizada na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Tupé, situada a 30 quilômetros de Manaus com acesso exclusivo por via fluvial. Entre os meses de abril e maio, estudantes de 11 a 14 anos participam de uma jornada que une tecnologia digital e iniciação científica para mostrar ao mundo os desafios de quem vive no coração da floresta.
A atividade faz parte do Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e Matemática (PPGECIM) da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). O projeto conta com o financiamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) do Ministério da Educação e recebe o suporte da Secretaria Municipal de Educação de Manaus (SEMED). Ao todo, 18 alunos das etnias Tatuyo, Tuyuka e Dessana mergulham em um universo onde as redes sociais deixam de ser apenas entretenimento e passam a ser ferramentas de engajamento social.
Ciência no rio
A coordenadora da iniciativa, professora doutora Thais Castro, explica que o projeto envolve a Escola Municipal São João, a única unidade de ensino da reserva. Os pesquisadores trabalham a partir do conhecimento que as famílias já possuem sobre as cheias e as secas dos rios. Com formação em biologia, física, matemática e computação, a equipe orienta os jovens para que saiam do papel de espectadores no Instagram ou TikTok e assumam o protagonismo. Segundo a doutora Thais Castro, o objetivo é que os alunos percebam que também podem ser autores e cientistas ao registrar o cotidiano e questionar as pautas que afetam o território.
Voz indígena
Entre as participantes está Luna Blankenhorn, de 14 anos, estudante do 9º ano e pertencente à etnia Dessana. Ela utiliza o espaço para denunciar problemas estruturais que afetam o aprendizado na zona rural. Luna ressalta que o acesso à educação depende diretamente da lancha escola, o transporte escolar fluvial que muitas vezes apresenta falhas e atrapalha a rotina dos alunos. Para a jovem, o projeto é uma janela para mostrar elementos da cultura local, como os grafismos indígenas, e reivindicar maior cuidado com as necessidades básicas da comunidade.
Desafios locais
A secretária da escola, Ila Oliveira, reforça que a visibilidade trazida pela ciência ajuda a enfrentar as carências da RDS do Tupé, que possui 11.930 hectares protegidos. Além do transporte precário, os moradores das comunidades de Livramento, Julião, Agrovila, Colônia Central, São João do Tupé e Tatu convivem com a falta de energia elétrica e limitações no acesso à saúde. Iniciativas educacionais desse porte fortalecem o vínculo entre a escola e os moradores, criando uma rede de apoio que busca melhorias concretas para a região.
Saberes ancestrais
A valorização do conhecimento tradicional é um dos pilares defendidos pela professora Stephane Ladislau. Ela argumenta que a ciência é um conjunto de saberes e que entender sobre as plantas, o rio ou o comportamento dos pássaros é uma forma legítima de conhecimento científico. Os alunos compartilham vivências únicas, como a observação do céu estrelado do Tupé, que consideram muito superior ao da zona urbana de Manaus. Essa troca de experiências ajuda a construir uma ciência que respeita e integra a realidade ribeirinha.
Inovação digital
A integração entre o ensino científico e a tecnologia é conduzida pela professora Letícia Gabriela. As atividades incluem a criação de quizzes digitais que conectam a cultura local ao aprendizado formal. Os alunos realizam registros fotográficos do ambiente e explicam os significados por trás dos grafismos Tuyuka, como o desenho que representa a folha do tucumã. Essas produções serão apresentadas em uma mostra cultural e enviadas para o público externo em Manaus, transformando o saber tradicional em conteúdo educativo digital e divertido.
Agenda futura
O planejamento do projeto segue etapas bem definidas para os próximos dias:
- No dia 16 de abril os alunos discutiram a contextualização para barcos de propulsão.
- Em 6 de maio o foco será a proposição de soluções e sugestões para os problemas locais.
- Para o dia 29 de maio está previsto o lançamento dos barcos construídos pelos próprios estudantes.
- O acervo final contará com um livro digital reunindo fotos e relatos das experiências vividas.
- A exibição das imagens será feita em um site dedicado e vídeos apresentados pelos próprios alunos.
Com essa estrutura, o projeto Ribeirinhos Cientistas cumpre o papel de dar voz a quem vive nas margens do Rio Negro. A iniciativa prova que a tecnologia e a ciência podem ser aliadas poderosas na preservação cultural e na luta por direitos básicos na Amazônia.
ASCOM: Jonathan Ferreira | LUHEN MÍDIA










