
Uma entrevista do promotor Lincoln Gakiya ao Estadão joga luz sobre um dado alarmante: o PCC deixou de ser uma facção prisional para se tornar uma verdadeira multinacional do crime.
Com faturamento anual estimado em R$ 10 bilhões, a organização já se infiltrou na economia formal, no mercado financeiro e em setores estratégicos, como combustíveis e transportes. Para Gakiya, o crime organizado hoje opera com lógica empresarial, articulação internacional e proteção política indireta.
Amazônia no mapa do crime
Sob a coordenação da Polícia Federal, a Operação Carbono Oculto mostrou que os tentáculos do PCC alcançam até a Faria Lima, coração financeiro do País. Mas não para por aí.
Na verdade, o avanço da facção na Amazônia, especialmente em rotas fluviais e fronteiriças, consolida o tráfico internacional como eixo central do negócio. Cocaína sai da região Norte para a Europa enquanto o dinheiro retorna “lavado” em empresas legais. Crime e economia formal cada vez mais misturados.
Politização ajuda a tragédia
Segundo Lincoln Gakiya, a politização da segurança pública trava operações estruturantes como a Carbono Oculto.
Disputas institucionais e eleitorais impedem uma resposta nacional integrada. Daí a defesa da criação de uma autoridade nacional antimáfia, nos moldes da Itália. Sem coordenação federal, o crime avança onde o Estado hesita, inclusive na floresta amazônica.
Lancha, skunk e sobrenome político

A apreensão de 193 tabletes de skunk em uma lancha no Rio Negro, no último fim de semana, reforça a preocupação com o uso das hidrovias amazônicas pelo narcotráfico.
O detalhe que chama atenção: a embarcação pertence a Fredson Frederico Araújo Paes, filho do ex-prefeito de Novo Airão. Cinco pessoas foram presas. O proprietário nega envolvimento e diz que a lancha estava alugada.
Ainda assim, o caso expõe como o tráfico se aproveita de estruturas legais e da geografia amazônica para escoar drogas rumo a Manaus.
Wilson Lima e o “freio” político

Em entrevista à Rede Tiradentes, o governador Wilson Lima tratou de esfriar as especulações sobre renúncia para disputar o Senado em 2026.
Ele disse, com todas as letras, que política eleitoral fica “mais lá na frente”. O discurso é de foco total nas entregas do governo até o fim do mandato, em janeiro de 2027.
Gestão versus palanque
Wilson Lima mandou recado também aos adversários: enquanto alguns já montam palanque, ele diz escolher “o caminho da rua pavimentada, da saúde e da segurança”.
A ordem interna, conforme revelou Lima, é blindar o governo de articulações eleitorais neste momento. Se vai cumprir até o fim ou não, o tempo dirá, mas o governador, por ora, tenta separar gestão e eleição.
Direita vira guerra de egos

A direita amazonense resolveu transformar o discurso de “união contra a esquerda” numa animada guerra de egos, vaidades e vídeos no Instagram. Coronel Menezes, Delegado Péricles e Costa e Silva disputam não projeto político, mas o troféu simbólico de quem é mais Bolsonaro que o outro. O detalhe incômodo: Bolsonaro mesmo já saiu da conversa faz tempo.
O roteiro é conhecido. Menezes aparece em manifestação com Nikolas Ferreira e se declara alinhado ao bolsonarismo. Do outro lado, surgem acusações de oportunismo, traição, isolamento político e até de “coronel melancia” — verde por fora, vermelho por dentro.
O bolsonarismo local virou um reality show: quem não vai ao ato é “traidor”; quem vai, mas não foi antes, é “oportunista”.
Bolsonarismo bisonho
De um lado, o deputado Delegado Péricles, ex-aliado de Menezes e agora apoiador do governo estadual, tenta convencer que continua sendo a alma da direita, mesmo depois de trocar de partido, de grupo e de palanque. Já os adversários fazem questão de lembrar: para o bolsonarismo raiz, Menezes “acabou”.
O curioso é que todos juram falar em nome da direita, mas ninguém consegue explicar quem lidera, quem decide e — principalmente — para onde esse grupo pretende ir além das redes sociais.
No fim, a direita amazonense mostra que seu maior inimigo não é a esquerda, nem Lula, nem o sistema. É ela mesma. E, pelo visto, a disputa não é por votos, mas por curtidas, vídeos virais e o direito de dizer: “Bolsonaro gosta mais de mim”.










