
A política brasileira vive ciclos que desafiam a lógica da renovação e a corrida eleitoral de 2026 se desenha como o palco de um fenômeno interessante e controverso. Figuras que protagonizaram os capítulos mais intensos da nossa história recente estão se movimentando para sair dos bastidores e voltar a ocupar cargos eletivos. Seja por meio de anulações de sentenças judiciais ou por articulações partidárias estratégicas, o eleitor verá nas urnas nomes que pareciam cartas fora do baralho.
Talvez o movimento mais emblemático seja o do ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha. Conhecido por sua habilidade de articulação e por ter aceitado o processo de impeachment de Dilma Rousseff, Cunha tenta agora uma vaga na Câmara Federal por Minas Gerais.
A escolha do estado não é aleatória. Após não obter sucesso em São Paulo no pleito de 2022, Cunha enxerga em Minas a síntese do eleitorado brasileiro. Sua estratégia ignora as polêmicas passadas e foca no pragmatismo político que sempre foi sua marca registrada. Para o eleitor, resta a análise se a experiência legislativa do ex-deputado supera o peso de seu histórico judicial e prisional.
Do lado petista, o retorno de José Dirceu à disputa eleitoral simboliza uma vitória jurídica e política do grupo ligado ao presidente Lula. Beneficiado pela anulação de processos da Lava Jato pelo Supremo Tribunal Federal, o ex-ministro da Casa Civil nunca deixou de operar nos bastidores, mas agora busca a legitimidade do voto popular para voltar a ser deputado federal.
A candidatura de Dirceu testa a memória do eleitorado sobre o escândalo do Mensalão e a capacidade do PT de reintegrar seus quadros históricos. Para seus aliados, ele é um estrategista indispensável. Para a oposição, é a personificação da velha política que deveria ter sido superada.
Outra mudança significativa no tabuleiro é a de Ciro Gomes. Após quatro tentativas de chegar à presidência, o ex-governador recalculou a rota e agora mira o governo do Ceará pelo PSDB. A filiação ao ninho tucano marca um rompimento definitivo com sua antiga base e uma tentativa de se reinventar longe do PDT, que se aliou ao PT local.
Ciro busca reafirmar sua liderança regional contra o grupo político que ele mesmo ajudou a criar e que hoje é liderado pelo senador Cid Gomes e pelo governador Elmano de Freitas. Essa disputa promete ser uma das mais acirradas do Nordeste e coloca à prova a força do “cirismo” sem a máquina estadual na mão.
A lista de retornos inclui ainda José Roberto Arruda, que tenta voltar ao governo do Distrito Federal mesmo enfrentando inseguranças jurídicas sobre sua elegibilidade. Arruda aposta no recall de suas obras passadas para superar os escândalos que o afastaram da vida pública por mais de uma década.
No campo legislativo, figuras como João Paulo Cunha e Delúbio Soares também se preparam para testar suas popularidades. O cenário de 2026 mostra que, na política nacional, o ostracismo raramente é uma sentença perpétua. O sistema político brasileiro, com suas complexas regras de prescrição e anistia, permite que o passado esteja sempre presente nas opções de voto.
Cabe agora ao cidadão avaliar se esse resgate de lideranças veteranas representa uma volta à experiência necessária para governar ou apenas a reciclagem de velhos problemas que o país tenta superar.










