Jorge Serrão Quem reclama da insegurança eleitoral não pode ser enquadrado como criminoso que...

Quem reclama da insegurança eleitoral não pode ser enquadrado como criminoso que espalha ‘fake news’

Judiciário não tem o direito de interditar o livre debate sobre a contagem pública de votos; críticas ao sistema eletrônico de votação não podem render condenações a eleitores e candidatos

Por Jorge Serrão (*)

Embora pareça, a campanha eleitoral ainda não começou oficialmente. O calendário é claro! De 20 de julho até 15 de agosto, partidos e coligações fazem convenções para definir quem será candidato na eleição de 2022. O PT marcou a sua para quinta-feira, dia 21, em São Paulo. Será meramente protocolar. Nada de festa… Celebrado como “favorito pelas pesquisas”, o candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não deve comparecer. Cumprirá agenda no Nordeste, mais precisamente em Pernambuco, acompanhado do vice Geraldo Alckmin (PSB). Por sua vez, o “segundo colocado nas pesquisas”, Jair Bolsonaro (PL) promete festança, com seu candidato a vice, general Walter Braga Netto. Pretende reunir 12 mil pessoas no Maracanazinho, no domingo, 24, no Rio de Janeiro, na convenção do PL.

Na frieza da legislação, ainda é proibido pedir voto explicitamente. Oficialmente, a campanha só começa depois de 15 de agosto. Na prática, se antecipou, polarizou e tende a se radicalizar ainda mais até o momento derradeiro da dedada (fatal?) que 156 milhões de cidadãos poderão dar na urna eletrônica, em 2 de outubro. Por enquanto, tudo é possível, mas quase nada é permitido legalmente. O problema (de sempre) é fazer a lei ser obedecida e valer, de verdade, para todos. Pelo menos em tese, conforme o Código Eleitoral, é proibido divulgar notícias falsas com finalidade eleitoral. O Tribunal Superior Eleitoral promete pegar pesado com quem divulgar “fake news”. Detalhe importante: a “Justiça Eleitoral” é quem decide o que é ou não “notícia falsa”. A repressão é certa! Todos – candidatos e eleitores – devem tomar cuidado! É recomendável não dar mole!

Diante da ameaça de punição, vale perguntar: nossa liberdade parece ameaçada pela “Justiça” eleitoral? O imortal Nelson Rodrigues costumava reclamar que “a liberdade é a mais prostituída das palavras”. O livre pensador – xingado de “reacionário” pelos críticos progressistas” – tinha inteira razão. Certamente, o “anjo pornográfico” (apelido que lhe deram, inclusive na biografia escrita por Ruy Castro) ficaria envergonhado com a prostituição institucional brasileira. Membros do TSE exageram nos pré-julgamentos públicos. No entanto, fingem que não cometem tal pecado. Interditam o livre debate sobre a segurança do sistema eleitoral. Quem critica é acusado, previamente, de “espalhador de fake news”. Ou seja: “criminoso”. Se for candidato, tem grande chance de ser punido: cassado agora ou depois – de eleito, ou não…

Jair Messias Bolsonaro precisa ficar esperto em relação a esse risco. O presidente, candidato à reeleição, tem reclamado da insegurança do sistema eletrônico de votação. Bolsonaro se arrisca a falar em indícios de fraude, mesmo que não as comprove. O fato concreto é que o modelo brasileiro não tem transparência. A contagem “secreta” de votos é uma fraude da democracia (outra palavra que Nelson diria ser prostituída). O fato de o povo que vota não participar do escrutínio do voto já representa uma fraude do processo de sufrágio universal. Não deveríamos aceitar nada diferente da contagem pública de votos. A votação tem de ser direta e secreta. Mas sua apuração, jamais! Nosso problema não é de informática. É jurídico. Não é justo violar o princípio constitucional da publicidade que se impõe sobre todo ato de qualquer agente público. Os administradores do sistema eleitoral não podem se esquecer desse princípio – ainda mais porque são “operadores jurídicos do Direito”.

Resumindo: Temos direito à eleição com apuração pública dos votos. Não dá para aceitar que a “Justiça” Eleitoral interdite o livre debate sobre um assunto fundamental para um regime democrático. Novamente, corremos o risco de participar de mais uma eleição em que somos forçados a acreditar no dogma do resultado proclamado por uma votação que passa por um “trâmite sigiloso eleitoral” (perdão pelo trocadilho com a sigla TSE). Os culpados por tal falha? Os membros da Justiça Eleitoral e os membros do Congresso Nacional. Os parlamentares cometem um pecado maior. Cabe a eles definir a legislação. Os juízes só deveriam julgar, e não fazer politicagem contra o aprimoramento eleitoral. Senadores e deputados precisam ligar o desconfiômetro, enquanto ainda é tempo. Falta pouco para a hora de votar…

(*) Jornalista, professor e flamenguista. É editor-chefe do blog Alerta Total e comentarista do programa 3 em 1 da Jovem Pan.

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