
Os senadores Rogério Marinho, do Partido Liberal (PL), e Tereza Cristina, do Progressistas (PP), estabeleceram uma aliança estratégica para os próximos meses com um propósito central em comum, derrotar o senador Davi Alcolumbre, do União Brasil (União), na eleição para a presidência do Senado Federal marcada para fevereiro de 2027. O plano traçado prevê um período de campanhas paralelas em que cada parlamentar atuará em nichos distintos de influência, captando votos que dificilmente migrariam de forma imediata para o colega de oposição.
Ao longo das próximas semanas, os dois aliados pretendem medir o alcance de suas investidas e testar a temperatura das bancadas partidárias, com foco principal entre as senadoras e os partidos de centro. Em um momento posterior, Marinho e Tereza Cristina definirão o instante exato em que um abrirá mão da candidatura em favor do outro, consolidando um bloco oposicionista coeso e competitivo.
A tática é conhecida nos bastidores políticos como pinça eleitoral, mecanismo em que dois ou mais aliados atuam por frentes aparentemente diferentes para encurralar um adversário comum e, no instante decisivo, somam forças.
A oficialização de Rogério Marinho na quarta-feira, 4 de novembro de 2026, como candidato do PL deu o pontapé inicial formal para a disputa da Mesa Diretora.
A senadora Tereza Cristina também confirmou publicamente à imprensa que vai concorrer ao comando da Casa Alta.
“A senadora Tereza é nossa parceira, está do mesmo lado, comungamos das mesmas bandeiras, dos mesmos propósitos e juntos faremos o possível para derrotarmos o atual presidente, o senador Davi Alcolumbre”, declarou o senador Rogério Marinho ao lançar a sua candidatura.
O especialista em Teoria Geral do Estado e professor da Universidade de São Paulo (USP), Rubens Beçak, avalia que tanto a candidatura de Marinho quanto a de Tereza possuem força e representatividade no Parlamento.
“A candidatura do senador Rogério Marinho é natural porque ele é o líder do PL, a maior bancada em 2027. A candidatura da senadora Tereza Cristina já vinha sendo anunciada e ela se apresenta com a perspectiva de ser a primeira presidente mulher do Senado. Então, me parece que são duas pretensões escudadas em maiorias, com possibilidade de costuras políticas que as tornem não só legítimas, mas viáveis”, analisou o especialista Rubens Beçak.
Perfis e propostas distintas
A busca por apoios contra Alcolumbre divide os dois pré-candidatos em frentes bem delimitadas. Rogério Marinho fincou sua atuação no núcleo da oposição conservadora, dialogando diretamente com a bancada do PL e com setores independentes.
A plataforma do líder do PL centraliza temas prioritários para o eleitorado conservador:
- Compromisso firme com o avanço do projeto de anistia aos condenados pelos atos de 8 de janeiro de 2023.
- Limitações a decisões monocráticas para conter o ativismo judicial.
- Reestruturação das competências do Supremo Tribunal Federal (STF).
- Postura assertiva e papel moderador da presidência do Senado frente à agenda do Palácio do Planalto.
Rogério Marinho declarou-se favorável ao impeachment de ministros da Corte como resposta às tensões institucionais, mas ressaltou o caráter constitucional de sua chapa.
“Evidente que não seremos candidatos com o tema de impeachment de quem quer que seja, somos candidatos defendendo a Constituição. Se algum ministro do STF cometer crime de responsabilidade, não seremos omissos, mas não vamos antecipar ou fazer juízo de valor”, afirmou o senador Rogério Marinho durante o anúncio de sua candidatura.
Por outro lado, Tereza Cristina atua na frequência da diplomacia legislativa. Líder da bancada do agronegócio, a parlamentar é reconhecida pela capacidade de diálogo com partidos do Centrão, como Republicanos, Partido Social Democrático (PSD) e Movimento Democrático Brasileiro (MDB).
Além disso, a senadora busca o voto feminino articulando junto à Bancada Feminina o apelo histórico de eleger a primeira mulher a presidir o Senado em mais de duzentos anos de história parlamentar.
No tocante às relações com os demais poderes, Tereza adota uma linha mais cautelosa, evitando a retórica de confronto direto e priorizando reformas no processo legal. Em relação ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva, embora mantenha oposição em matérias fiscais e regulatórias, a senadora preserva canais de negociação.
“Tereza Cristina pode buscar parlamentares de centro e de centro-direita que resistam tanto à recondução de Davi Alcolumbre quanto ao perfil mais combativo de Marinho. Sua experiência e suas relações políticas, somadas à possibilidade de ser a primeira mulher a presidir o Senado, podem ampliar esse diálogo”, avaliou o especialista em política Elias Tavares.
Vale destacar que Tereza Cristina enfrenta uma situação particular no PP, legenda integrante da federação União Progressista ao lado do União Brasil, cuja direção declarou apoio a Alcolumbre. Contudo, em 27 de outubro, a senadora defendeu publicamente o voto livre, soberano e secreto dos 81 senadores.
A matemática do plenário
A eleição para a Mesa Diretora exige a conquista de 41 votos no plenário do Senado em votação secreta. O atual presidente, Davi Alcolumbre, controla a máquina administrativa da Casa e possui forte influência na distribuição de relatorias e comissões, transitando entre legendas governistas como o Partido dos Trabalhadores (PT) e o Partido Socialista Brasileiro (PSB), além de contar com o apoio do presidente Lula.
O levantamento de intenções mostra a contagem preliminar de forças.
- Rogério Marinho contabiliza 32 votos seguros, somando 29 senadores do PL e 3 do Partido Novo (Novo) para 2027.
- Necessidade de atrair 9 votos de dissidências em siglas como Republicanos, PP, MDB, Podemos e PSD.
- Tereza Cristina possui entre 12 e 15 votos iniciais entre o PP, a bancada do agronegócio e a bancada feminina.
- Soma conjunta dos dois blocos ultrapassa a margem necessária de 41 votos para derrotar a candidatura de Alcolumbre.
Transição e acordos políticos
Apesar de a união ser vista como indispensável para alcançar a vitória, os especialistas alertam para a complexidade da transferência de votos, que não ocorre de forma mecânica sob o voto secreto.
Para evitar perdas no anúncio da chapa única, a estratégia prevê um acordo de poder compartilhado, no qual quem abrir mão da cabeça de chapa assumirá postos de destaque como a 1ª Vice-Presidência ou a presidência da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ).
O momento da unificação também precisa ser bem calculado para evitar que a máquina de cargos e emendas do governo coopte parlamentares indecisos.
“Na medida em que a transferência de votos, no caso de uma desistência em favor do outro, não é automática, porque não são questões fechadas partidárias, se dá muito na vontade de cada senador, de um partido, de outro, das bancadas. Pode ser que isso acabe, em última análise, beneficiando o senador Davi Alcolumbre”, analisou o especialista Rubens Beçak.
O sucesso da empreitada dependerá da capacidade da oposição em demonstrar coesão e viabilidade até o dia da votação.
“O sucesso depende de coordenação, avaliação realista dos apoios e disposição para apoiar quem demonstrar maior capacidade de chegar aos 41 votos. A candidatura mais competitiva será aquela que conseguir transformar a força do próprio campo em uma maioria dentro da Casa”, afirmou o especialista Elias Tavares.










