
A Operação Erga Omnis, deflagrada pela Polícia Civil do Amazonas, revelou um esquema criminoso atribuído ao Comando Vermelho com ramificações dentro dos três poderes no Estado. À frente das investigações está o delegado Marcelo Martins, titular do 24º Distrito Integrado de Polícia, localizado na zona central de Manaus.
Em entrevista à Rede Tiradentes, na manhã desta sexta-feira (20), o delegado detalhou o alcance da organização criminosa, que, segundo ele, movimentou mais de R$ 70 milhões em quatro anos.
“Essa organização criminosa que é voltada para o tráfico de drogas movimentou 70 milhões de reais dentre ações de tráfico de drogas e também valores que eram destinados a servidores públicos para dar suporte ao crime organizado”, afirmou Marcelo.
De acordo com as investigações, o grupo mantinha um “núcleo político” com acesso ao Executivo, Legislativo e Judiciário no Amazonas. O delegado confirmou que houve prisões de pessoas ligadas às três esferas:
“Prendemos pessoas ligadas que eram agentes efetivos ou que já foram, em momento recente, agentes tanto do Executivo quanto do Legislativo quanto do Judiciário”.
Entre os alvos no Amazonas estão:
- Izaldir Moreno Barros, servidor do Tribunal de Justiça do Amazonas;
- Adriana Almeida Lima, ex-secretária de gabinete de liderança na Assembleia Legislativa;
- Anabela Cardoso Freitas, investigadora da Polícia Civil e integrante da Comissão de Licitação da Prefeitura de Manaus;
- Alcir Queiroga Teixeira Júnior;
- Josafá de Figueiredo Silva, ex-assessor parlamentar;
- Osimar Vieira Nascimento, policial militar;
- Bruno Renato Gatinho Araújo;
- Ronilson Xisto Jordão, preso em Itacoatiara.
Entre os casos que chamaram atenção está o de Anabela Cardoso Freitas, que já foi chefe de gabinete do prefeito de Manaus, David Almeida. Segundo a investigação, o prefeito não é alvo nem investigado.
Questionado sobre o envolvimento de Anabela, o delegado disse:
“Ela foi identificada em dois relatórios do COAF, transacionando valores com pessoas ligadas ao crime organizado. Ela aparece no relatório do COAF como a principal pessoa a transacionar valores com o chefe da organização criminosa e também transacionando com o proprietário de uma falsa agência de viagem que estaria lavando dinheiro para o crime organizado”.
Judiciário e vazamento de informações
Outro ponto grave revelado pela operação envolve um servidor do Tribunal de Justiça do Amazonas, apontado como responsável por vazar informações sigilosas.
“O servidor do Judiciário foi identificado como uma pessoa que vazava informações sigilosas de processos para advogados ligados ao crime organizado. E esses advogados pagavam propina a ele para liberar essas informações”.
Duas advogadas foram presas. Segundo o delegado, relatórios do COAF indicaram pagamentos de propina para obtenção antecipada de dados sobre investigações criminais. Durante a cobertura da operação, foi informado ainda que um dos servidores presos seria motorista da desembargadora Nélia Caminha.
Alan Kleber usava igrejas
O líder da organização criminosa foi identificado como Alan Kleber, apontado como o responsável por cooptar agentes públicos e estruturar o braço financeiro da facção. “É um criminoso chamado Alan Kleber. Ele foi localizado no estado de São Paulo. A Polícia Civil de São Paulo empreendeu diligências para prendê-lo, mas ele conseguiu se evadir”.
Conforme Marcelo Martins, o suspeito utilizava igrejas evangélicas como estratégia de camuflagem social.
“Esse chefe da organização criminosa usava igrejas evangélicas como uma espécie de camuflagem social para que ele pudesse se esconder atrás daquela imagem de pessoa evangélica, quando na verdade ele era um mega traficante de drogas”.
O delegado também confirmou que toda a movimentação financeira com agentes públicos ocorria por meio de empresas fantasmas vinculadas ao líder.
Movimentação milionária
As investigações começaram após a apreensão de 500 tabletes de maconha do tipo skunk, sete fuzis de uso restrito, duas embarcações utilizadas no transporte da droga, um veículo utilitário e aparelhos celulares.
A partir desse flagrante, foi instaurado inquérito que identificou uma estrutura organizada, com divisão entre núcleo operacional, financeiro e logístico.
Relatórios de inteligência financeira apontaram incompatibilidade entre a movimentação bancária e a capacidade econômica declarada pelos investigados. Segundo a polícia, empresas formalmente registradas nos setores de transporte e locação funcionavam apenas no papel, servindo para lavagem de dinheiro e compra de drogas na Colômbia, posteriormente enviadas a Manaus e redistribuídas para outros estados.
As ordens judiciais — 23 mandados de prisão preventiva e 24 de busca e apreensão — foram cumpridas em Manaus e também em cidades como Belém, Ananindeua, Belo Horizonte, Fortaleza, Teresina e Estreito.
“Sintoma muito ruim da nossa sociedade”
O delegado Marcelo Martins fez um alerta contundente sobre a infiltração do tráfico na administração pública: “Isso é um sintoma muito ruim da nossa sociedade, porque a partir do momento que o crime organizado consegue adentrar na administração pública, isso tem um significado muito importante. A partir desse momento, nós estamos sendo administrados pelo tráfico de drogas e nós não podemos permitir isso”.
O delegado ressaltou que a investigação revelou um traço ainda mais perigoso: “Nós detectamos nessa investigação um traço mais perigoso ainda com o crime organizado dentro de três esferas de poder dentro do estado do Amazonas. Isso é muito perigoso. Se nós permitimos que isso possa seguir em frente, a gente vai ser dominado pelo tráfico de drogas por completo”.
De acordo com o titular do 24º DIP, a operação entra agora em uma nova fase:
“Agora nós vamos analisar as provas que foram coletadas para robustecer ainda mais as provas que nós já temos nessa investigação e eventualmente identificar outros crimes e participação de outras pessoas”.
Os investigados poderão responder por organização criminosa, associação para o tráfico de drogas, corrupção ativa e passiva, violação de sigilo funcional, lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio.
A Operação Erga Omnis evidencia, segundo a Polícia Civil, um dos mais amplos esquemas de infiltração do crime organizado na estrutura estatal do Amazonas, colocando sob escrutínio agentes públicos, operadores políticos e integrantes do sistema de Justiça no estado.
Na Operação deflagrada nesta manhã pela PC também foi detido um servidor do Tribunal de Justiça do Amazonas (TJAM), motorista da desembargadora Nélia Caminha, suspeito de envolvimento com o esquema, conforme divulgou o repórter Charles Fernandes, da Rede Tiradentes.










