
O que assistimos nesta quinta-feira (14/5) na avenida Constantino Nery não é um simples incidente de percurso ou uma nota de rodapé na crônica policial da capital.
O furto das peças do elevador na Estação de Transferência 2, apenas sete dias após uma manutenção completa, é o sintoma terminal de uma sociedade que perdeu a noção de patrimônio e, por consequência, de civilidade.
Quando o Estado repara um equipamento essencial para o direito de ir e vir dos mais vulneráveis e, em uma semana, o objeto é canibalizado, não estamos diante de uma falha administrativa, mas de uma patologia moral que corrói a estrutura da cidade.
A acessibilidade para Pessoas com Deficiência (PcDs) e idosos tornou-se refém de uma criminalidade miúda, mas devastadora. O Instituto Municipal de Mobilidade Urbana (IMMU) havia concluído os ajustes elétricos e mecânicos no último dia 7 de maio, devolvendo a dignidade a quem depende daquela estrutura na zona Oeste.
O que se vê agora é a paralisia forçada pela barbárie.
- Vandalismo sistemático: a recorrência de atos contra o patrimônio público demonstra que a vigilância atual é incapaz de conter o ímpeto da depredação.
- Impacto social: o prejuízo financeiro da reposição de peças é secundário diante do isolamento imposto àqueles com mobilidade reduzida.
- Ciclo de degradação: a manutenção constante sem a devida punição aos infratores cria um ralo de dinheiro público que nunca soluciona o problema de forma definitiva.
O discurso oficial do vice-presidente de transporte do IMMU, Uaroldi Guedes, ao pedir colaboração da comunidade, esbarra em um abismo lógico.
Ora, esperar que o vândalo ou o receptador de peças públicas se sensibilize pelo “bem comum” é ignorar a realidade brutal das ruas.
“Furtos e atos de vandalismo prejudicam toda a comunidade e impedem que pessoas com mobilidade reduzida usem o transporte com segurança”, afirmou Uaroldi Guedes.
A preservação dos equipamentos não pode depender exclusivamente da boa vontade de uma sociedade que já se mostrou alheia ao valor do que é público.
A orientação para que a população denuncie atividades suspeitas pelos números 118 e 153 é válida, mas soa como um paliativo diante da audácia de quem furta um elevador em uma das avenidas mais movimentadas da cidade.
O problema não se restringe à estação do bairro São Jorge. O cronograma de revitalização de outras unidades, como as da arena e do Parque das Nações, segue sob a sombra constante da insegurança.
Enquanto as equipes técnicas fazem o levantamento dos danos materiais para a nova reposição, o cidadão de bem paga a conta duas vezes, uma no imposto que financia o reparo e outra na ausência do serviço.
É preciso entender que o patrimônio público é a extensão da propriedade privada do cidadão.
Quando o elevador para por causa de um roubo, a soberania do indivíduo sobre a sua própria cidade é violada.
O que está em jogo em Manaus não é apenas uma engrenagem de porta de elevador, mas a capacidade da capital de manter a ordem mínima necessária para que o progresso não seja devorado pela marginalidade de subsistência.
A prefeitura limpa, o crime suja. A prefeitura conserta, a barbárie quebra. Sem uma mudança na estratégia de segurança desses pontos, a manutenção será apenas um rito burocrático de espera pelo próximo furto.










