Opinião O custo invisível das horas trabalhadas

O custo invisível das horas trabalhadas

Por Raimundo Fabrício Paixão (*)

O Brasil testa, em tempo real, os limites do corpo e da mente de quem trabalha. O empreendedorismo, vendido por uma década como caminho de liberdade e sucesso, cede agora à realidade dos fracassos, adoecimentos e desproteção, e os jovens, antes seduzidos pelo discurso de “seja seu próprio patrão”, voltam-se com desilusão crescente para o vínculo empregatício formal. A escolha pela CLT, contudo, não significa abrir mão de dimensões existenciais mínimas, e nelas se inscreve, antes de tudo, o tempo.

Relógios quebrados

Ao falar de tempo, fala-se de dois relógios quebrados na vida do trabalhador brasileiro. O primeiro é o relógio do patrão, o da escala 6×1, que confisca o lazer, a leitura, a convivência, a família, os risos, os esportes, e devolve algumas horas mortas como prêmio de consolação para um ensaio de recuperação destinado à semana seguinte, recheada de atividades urgentes. O segundo é o relógio do empreendedor, o do entregador que aceita a oferta de não ter patrão e descobre, no fim do mês, que paga a moto, a gasolina, a internet, o seguro e a manutenção, enquanto a plataforma fica com o algoritmo. Ricardo Antunes batizou esse arranjo de “privilégio da servidão”.

Tempo desigual

O Brasil tenta remediar o problema do tempo no trabalho formal, mas, nele, o tempo é desigual entre os brasileiros. De cerca de 48,8 milhões de vínculos formais analisados em 2026, 66,8% já operam em escala 5×2. Já a escala 6×1 atinge cerca de 16,2 milhões de trabalhadores, um terço do total, concentrados no comércio, nos serviços e na atividade doméstica. Cerca de 63% desses trabalhadores são pretos ou pardos e, em postos de caixa, as mulheres negras representam a esmagadora maioria das ocupantes; cerca de 90% delas recebem menos de dois salários-mínimos.

Corpo cansado

Sabemos, portanto, quem é o trabalhador 6×1, e a próxima pergunta naturalmente toca o corpo dele. Um levantamento do Atlas da Escala 6×1 indica que 70% dos trabalhadores ouvidos têm estresse ocupacional, 27% tiraram atestado no mês anterior à pesquisa, e 75% dizem que o trabalho prejudica a vida pessoal. Em 2024, o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) concedeu 472.328 afastamentos por transtornos mentais, alta de 68% em relação a 2023, recorde da série histórica. A Organização Mundial da Saúde (OMS), por sua vez, estabeleceu o excesso de horas como o fator de risco ocupacional com a maior carga de doença do planeta, associando-o a maior risco de AVC e a maior risco de morte por doença cardíaca isquêmica, em comparação com expedientes de 35 a 40 horas.

Desigualdade histórica

A discussão sobre o trabalho no Brasil torna visível a desigualdade na distribuição do tempo e do desgaste. Pretos, pardos, mulheres, aqueles cantados por Milton Nascimento em “Morro Velho”, canção em que o filho do fazendeiro, que foi estudar na cidade para virar doutor, retorna à fazenda e reencontra o amigo de infância, “seu velho camarada”, que “já não brinca mais, trabalha”. O tempo expropriado pelo trabalho tem sido reprodutor de desigualdades históricas, e são esses grupos que têm menos acesso ao descanso, à convivência familiar, ao cuidado de si e às oportunidades de mobilidade social.

Debate necessário

O debate sobre o tempo de trabalho no Brasil deveria incluir diálogos sobre raça, gênero e posição social. Aqueles que discursam olhando apenas para a economia o fazem sobre os corpos cansados de trabalhadores estirados ao chão, sem saúde física e muito menos mental. Ao sujeito revestido de camadas sociais desfavoráveis, o Brasil oferece dois caminhos distintos que conduzem ao mesmo cansaço, sendo um deles o empreendedorismo, em que o preço do próprio negócio costuma ser, em larga medida, a saúde mental do dono; e o outro, o regime da CLT, que adoece pelo excesso de horas contadas desde o toque do despertador, pelas esperas na parada de ônibus e pelo trânsito congestionado, por domingos que não chegam a ser domingos, pois, às 18h, lembra-se de que amanhã tudo se inicia de novo, e de novo… e, nessa repetição, perde-se a possibilidade de existir como alguém para além da função produtiva, e essa perda, embora invisível e lenta, corrói uma nação que acumula uma dívida histórica com o seu povo, povo que nunca descansou em berço esplêndido.

(*) Advogado, psicólogo, filósofo, Mestre em Sociedade e Cultura e Doutorando (UFAM), professor de Direito e Psicologia na Wyden

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