Opinião Na era da IA, o futuro do RH é artístico

Na era da IA, o futuro do RH é artístico

Por Álvaro Fernando (*)

Durante minhas palestras, sempre gosto de abrir espaço para trocas com profissionais de RH e gestores de desenvolvimento humano. Quero entender o que esperam da minha atuação e, principalmente, o que os move. Até pela minha ligação ao ramo artístico, existe um relato que se repete com frequência: o de pessoas que carregam um interesse genuíno ao meio, mas que, por escolhas de carreira ou demandas da vida, acabaram seguindo caminhos mais tradicionais.

O êxodo do talento artístico

O movimento é compreensível. Ser artista no Brasil nunca foi tarefa fácil. A instabilidade financeira, somada ao avanço digital que desestruturou indústrias como a fotografia e a música, tornou a arte um território ainda mais difícil no País — e não desafiador como alguns gostam de confundir. Como resultado, muitos talentos acabam optando por áreas mais criativas, como publicidade, jornalismo e, mais profundamente, a de gestão de pessoas.

Nesse movimento, não raro a veia artística acaba relegada a apenas um hobby ou a algo secundário de pouca importância. No entanto, o resultado dessa escolha acaba se configurando em um erro perigoso, ao gerar a sensação de que é preciso abrir mão desse lado humano e criativo inerente à arte para se ter sucesso.

A sensibilidade como ferramenta de liderança

A verdade, porém, se mostra justamente o contrário. Em áreas como a do RH, a arte deveria ser vista como essencial. Esses profissionais se debruçam em uma busca constante por significado, por conexão e formas diferentes de engajar pessoas. Qual o melhor tempero para isso do que a inclinação artística?

A sensibilidade muda a maneira como o profissional enxerga, sente e resolve o mundo ao redor. Isso impacta diretamente a forma como lidera, comunica e desenvolve seus pares. E essa não é uma percepção só minha. De acordo com o relatório “Creativity Drives Business Success”, da Adobe, 70% das pessoas acreditam que a criatividade as torna profissionais melhores. Mais do que isso, 78% dos entrevistados acreditam que o atributo eleva a produtividade no trabalho.

Impacto além do óbvio

Não é difícil entender essa percepção. Carregar esse repertório artístico significa conhecer a importância de buscar o diferente e implica a capacidade de perceber o que não está explícito. Refiro-me ao clima de uma equipe, à emoção por trás de uma fala e à intenção escondida em um comportamento. É o profissional que deseja criar impacto e significado. Isso eleva o nível de qualquer projeto, seja um treinamento, uma comunicação interna ou uma estratégia de engajamento.

Quem transita pela arte aprende a lidar com ambiguidade, erro e improviso. Em um contexto de mudanças rápidas, impulsionado, inclusive, pela ascensão da inteligência artificial (IA), essa adaptabilidade ganha ainda mais relevância.

O humano no centro da era digital

Aliás, em se tratando de IA, existe hoje um debate importante sobre a humanização das relações de trabalho. Um estudo publicado pela McKinsey aponta que 57% das horas trabalhadas serão automatizáveis a partir da tecnologia. É fato que a ferramenta pode assumir diferentes funções e atividades. Contudo, não será ela a manter o humano no centro das organizações, mas sim as próprias pessoas; sobretudo, aquelas que olham o mundo com sensibilidade e criatividade.

Até porque são esses os sentimentos responsáveis por pensar no além do que precisa ser feito, se preocupando como aquilo é sentido por quem recebe. E é exatamente aí que mora a diferença no que é produzido por um humano e a IA.

O futuro do RH é criativo

Chegou a hora de parar de tratar a arte como um desvio de rota e passar a integrá-la às atividades, principalmente se o grande foco do seu trabalho é o ser humano. Diante de um futuro em que a automação passará a ser regra, buscar sentimento e capacidade criativa será tão importante quanto o resultado para a área do RH. Só quem sente de maneira genuína é capaz de criar algo que faça o outro ter o mesmo sentimento.

(*) é autor e compositor premiado, atuando há mais de dez anos como palestrante, conduzindo encontros sobre liderança, comunicação e protagonismo

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