
A literatura e a fé sempre caminharam juntas na história da humanidade, mas o que acontece quando um escritor que se declara “ímpio rigoroso” recebe passe livre nos corredores do Vaticano? O espanhol Javier Cercas viveu essa experiência única ao lado do papa Francisco, falecido em 2025, e transformou a jornada em um relato perturbador sobre o fim da vida, a esperança e o futuro da Igreja Católica sob o comando do novo pontífice papa Leão XIV.
Javier Cercas não foi ao Vaticano em busca de conversão, mas de consolo para uma dor muito humana. Em sua obra recente, “O Louco de Deus no Fim do Mundo“, lançada pela editora Record em 2026, o autor mergulha em um enigma que supera qualquer ficção policial, a vida eterna. A motivação era pessoal e dolorosa, vinda de sua mãe idosa que desejava saber se reencontraria o marido após a morte.
“Sou ateu. Sou anticlerical. Sou laico militante, racionalista contumaz, ímpio rigoroso” afirma Javier Cercas no livro.
Essa declaração, feita enquanto acompanhava o pontífice à Mongólia, define o tom da narrativa. O livro funciona como um espelho de nossa era atual. A ausência de um grande relato religioso deixou um vácuo preenchido por substitutos parciais como a política, a arte ou o consumo desenfreado. Cercas argumenta que vivemos a profecia de Nietzsche sobre a morte de Deus, mas ainda sentimos a nostalgia do absoluto.
O legado de Francisco e o futuro com Leão XIV
A obra também lança luz sobre os bastidores da política vaticana e a transição de poder recente. O autor descreve o constantinismo, a união tóxica entre Igreja e Estado, como o grande mal combatido por Francisco durante seu papado.
“O que há de mais contrário ao cristianismo é o espírito burguês” diz uma citação do escritor Charles Péguy lembrada na obra.
Segundo a análise de Cercas, o atual papa, Leão XIV, mantém a essência missionária e reformista de seu antecessor, mas com uma abordagem radicalmente diferente. Enquanto Francisco era um vendaval que expunha as feridas do clericalismo e dos abusos de poder, Leão XIV atua como um pacificador que tenta unir uma Igreja deixada dividida. A sobrevivência da instituição, que já dura dois milênios, depende dessa capacidade de retornar às origens revolucionárias de Cristo, longe do poder e do dinheiro.
A inveja da fé e a esperança na ressurreição
Durante o Hay Festival Cartagena de 2026, Cercas confessou uma inveja genuína da fé de sua mãe. Ele descreve a crença não como uma escolha racional, mas como um dom ou superpoder que oferece serenidade diante do fim inevitável.
“Um ateu é um estúpido que acredita saber o que não se pode saber” cita ele, lembrando a filósofa Hannah Arendt.
O escritor admite que a literatura serviu como seu substituto para a religião, uma tentativa de preencher o silêncio deixado pela ausência de Deus. No entanto, ele conclui que a verdadeira transcendência talvez não esteja no céu, mas na continuidade genética, na memória deixada aos filhos e na arte. A rebelião cristã contra a morte, a imensa promessa da ressurreição, continua sendo a proposta mais sedutora e revolucionária da história humana, mesmo para aqueles que não conseguem crer nela.










