
A forte investida de Donald Trump contra as fontes renováveis de energia esbarra em uma barreira inesperada nos Estados Unidos. Enquanto a Casa Branca tenta forçar o retorno dos combustíveis fósseis, o interesse da população americana pela energia limpa produzida de forma doméstica atinge patamares recordes, redesenhando o cenário econômico do país de maneira surpreendente.
No ano passado, o presidente declarou um Estado de Emergência Energética Nacional para acelerar radicalmente a extração de combustíveis fósseis, sob o lema agressivo de perfurar o máximo possível. Em fevereiro de 2026, Trump assinou uma ordem executiva determinando que o Departamento de Defesa adote a compra massiva de eletricidade gerada por carvão, a fonte mais poluente da matriz atual.
A ofensiva também ocorre nos palanques. Durante o Fórum Econômico Mundial (FEM) em Davos, na Suíça, em janeiro, o presidente ridiculizou o setor ao afirmar falsamente que a China fabrica quase todas as turbinas do mundo apenas para vender para pessoas estúpidas.
Ele alegou que os chineses não usam energia eólica, apesar de o país asiático abrigar o maior complexo de geradores eólicos do planeta, visível inclusive do espaço. Em discursos anteriores, Trump classificou a transição ecológica como a fraude do século, pressionando nações como o Reino Unido a abandonarem as metas verdes.
O bloqueio no mar
A estratégia do governo mirou com força a infraestrutura costeira. A gestão de Trump tentou paralisar projetos eólicos em alto-mar sob a justificativa de riscos para a segurança nacional.
Embora juízes federais tenham derrubado as proibições, o Departamento do Interior encontrou outra saída e passou a recomprar as licenças de exploração, oferecendo indenizações bilionárias para as companhias migrarem para combustíveis fósseis ou energia geotérmica.
Até o momento, oito grandes projetos na costa foram desativados. Dados da agência Associated Press (AP) revelam que o governo gastou quase $2,6 bilhões, cerca de R$ 14 bilhões, nessas indenizações. Um exemplo ocorreu em março, quando a gigante francesa do setor de petróleo e gás TotalEnergies recebeu uma oferta de quase $1 bilhão, equivalentes a R$ 5,4 bilhões, para abrir mão de seus planos de geração eólica na Carolina do Norte e em Nova York.
A reação jurídica foi imediata. O estado de Nova York abriu um processo contra a manobra financeira. Paralelamente, nesta quinta-feira, 26 de junho de 2026, a justiça de Paris determinou que a TotalEnergies não pode ignorar os impactos ambientais indiretos causados pelo consumo de seus produtos, dando seis meses para que a empresa apresente um relatório detalhado sobre as emissões de seus clientes.
A AP também confirmou que a Califórnia vai acionar a justiça contra o cancelamento de um grande projeto em sua costa central.
O modelo da Califórnia
A Califórnia mantém um plano ambicioso de gerar 25 gigawatts (GW) de energia eólica marítima até 2045, o suficiente para abastecer 25 milhões de residências e responder por 13% da eletricidade do estado. Diante dos cortes federais, o presidente da Comissão de Energia da Califórnia demonstrou forte preocupação com os rumos do setor.
“As táticas da administração são um erro estratégico de proporções colossais”, afirmou David Hochschild, destacando o cenário de alta global no petróleo provocada pela guerra no Irã.
O desincentivo federal também atingiu o setor residencial através da lei apelidada de “Big Beautiful Bill”, promulgada em 4 de julho do ano passado. O texto extinguiu o desconto fiscal de 30% para a instalação de painéis solares em residências uma década antes do previsto.
De acordo com dados da plataforma EnergySage, os moradores que optarem pelo sistema solar residencial pagarão cerca de $9.000 a mais, cerca de R$ 48.600, após a mudança que entrou em vigor em 31 de dezembro de 2025.
A virada histórica
Mesmo com os pesados obstáculos regulatórios, o mercado privado reagiu com força. Em maio de 2026, a energia solar superou a geração a carvão na rede elétrica americana pela primeira vez em um mês cheio. Dados do centro de estudos Ember apontam que a captação solar respondeu por históricos 12,8% da eletricidade nos EUA, enquanto o carvão recuou para 12,2%, registrando sua quarta pior marca histórica.
O relatório da Ember detalha que a energia solar gerou inéditos 45,5 terawatts-hora (TWh), superando em 17% o volume de maio do ano passado. Especialistas explicam que o pico de participação na matriz costuma ocorrer entre abril e maio devido ao clima moderado que antecede o uso intenso de ar-condicionado no verão, mas o recorde absoluto de volume produzido deve ser quebrado nos próximos meses de calor.
O desejo de autonomia
Empresas do setor confirmam que a busca por autonomia energética superou as barreiras financeiras criadas pelo governo. A SolarTech, baseada na Califórnia, viu seus contratos dobrarem, enquanto a Exact Solar, na Pensilvânia, cresceu 60% no ano passado e prevê dobrar o faturamento neste ano. Um dos principais especialistas da área detalhou os motivos que sustentam esse crescimento expressivo.
“Mesmo com a atual administração eliminando incentivos fiscais para a energia solar e tentando ressuscitar o carvão, mais americanos do que nunca estão escolhendo ser donos da sua energia”, afirmou Aaron Nichols, ressaltando o desejo do consumidor de evitar a dependência de distribuidoras privadas tradicionais.
As novas alternativas
Outra frente de expansão é a facilitação do acesso urbano. O legislativo de Nova York aprovou a lei Solar Up Now New York (SUNNY) para regulamentar os painéis solares portáteis de tomada, um modelo já consolidado na Alemanha e em grande parte da Europa. O projeto aguarda a sanção da governadora Kathy Hochul até o encerramento do ano.
A medida atende diretamente a quase metade das famílias americanas que vivem de aluguel ou em prédio multifamiliares com telhados inadequados para as placas tradicionais.
O analista do jornal New York Times, Robinson Meyer, avalia que o sistema portátil tem capacidade de mudar a maneira como os americanos consomem eletricidade e engajar moradores de apartamentos na redução de poluentes.
Ainda assim, com uma taxa de emissão por habitante no setor elétrico que supera em quase três vezes a média global, o desafio dos EUA para consolidar a transição climática permanece imenso.
Fonte: https://pt.euronews.com/2026/06/28/estados-unidos-trump-esta-a-perder-a-guerra-contra-as-renovaveis










