
Manaus passou a integrar oficialmente a rede de cidades brasileiras contempladas por projetos voltados ao fortalecimento da reciclagem e da economia circular. O lançamento conjunto das iniciativas “Empreendedoras da Reciclagem” e “Paraísos Lixo Zero” ocorreu nesta semana no plenário da Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas (Aleam). O evento reuniu representantes de instituições públicas, empresários, catadores de materiais recicláveis e ativistas ambientais.
As duas propostas figuram entre os projetos aprovados pela Lei de Incentivo à Reciclagem e desembarcam no estado com abordagens distintas, porém complementares. O “Empreendedoras da Reciclagem” atua no suporte direto a mulheres que trabalham na coleta e triagem de resíduos. Já o “Paraísos Lixo Zero” foca na execução de ações para conter a poluição em áreas de grande relevância ecológica e turística.
A escolha da capital amazonense foi detalhada pelo diretor de Assuntos Corporativos da Associação Brasileira de Latas de Alta Reciclabilidade (Abralatas), Guilherme Canielo. O executivo ressaltou a importância estratégica da região dentro da cadeia produtiva e de reciclagem de latas de alumínio no país.
“A região é importante, estratégica. Então é muito natural que a gente possa ter um olhar especial para essa região e trazer para cá alguns projetos para estimular a reciclagem, em especial em Manaus”, afirmou Guilherme Canielo.
Os recursos para viabilizar as ações no Amazonas foram captados por meio da campanha “Impacto Circular”, idealizada pela própria Abralatas para incentivar a destinação de aportes privados a projetos amparados pela legislação federal de incentivo.
“Ano passado nós captamos recursos dos nossos associados para viabilizar dois projetos, o Empreendedoras da Reciclagem e o projeto Paraísos Lixo Zero, e hoje a gente marca o início da execução desses dois projetos”, explicou Guilherme Canielo.
Capacitação feminina
Desenvolvido pela SO+MA, startup brasileira especializada em soluções de engajamento para a economia circular, o “Empreendedoras da Reciclagem” chega à sua quarta edição. A meta em Manaus é atender até 150 catadoras da capital e de municípios vizinhos.
A programação prevê nove semanas de qualificação profissional em encontros presenciais que abordam aspectos do trabalho e da vida pessoal das participantes:
- Gestão de pequenos negócios e empreendedorismo.
- Técnicas de comunicação e conhecimento sobre legislação.
- Cuidados com a saúde mental e combate à violência de gênero.
A fundadora da SO+MA, Cláudia Pires, explicou que a iniciativa surgiu do diagnóstico sobre a maciça presença feminina na atividade de catação.
“Hoje, 70% das pessoas que trabalham na catação são mulheres. A gente foi entender essa realidade e o programa inteiro foi construído por essas mulheres e para elas”, disse Cláudia Pires.
A idealizadora reforça que o objetivo central da capacitação é conferir autonomia e visão empresarial às trabalhadoras do setor.
“A gente quer destravar o potencial dessas mulheres, para que elas entendam que são empreendedoras, que esses são pequenos negócios e que, se Deus quiser, vão ficar enormes negócios. Que elas possam cada vez mais entender o papel delas, o potencial delas e serem donas das próprias escolhas”, afirmou a fundadora.
Entre as beneficiadas pelo programa está Rivoneide Alves da Silva, de 43 anos, integrante da Associação de Catadores Filhos e Filhas de Guadalupe há cinco anos. A coleta de recicláveis representa sua única fonte de renda, descoberta por meio de um ponto de entrega voluntária instalado em seu bairro.
“Hoje, com certeza, nós não vamos sair como entramos, vamos sair novas mulheres. Ele veio para nos mexer, motivar cada vez mais. Nós já éramos motivadas, mas hoje fez a gente despertar que a gente é capaz de muito mais”, declarou Rivoneide.
A catadora também destacou a dimensão socioambiental do trabalho desempenhado diariamente pela categoria.
“Eu vejo a importância de nós cuidarmos da nossa casa comum. A gente tem que fazer algo, porque tudo está no extremo. Se nós não fizermos nada, não buscarmos fazer nada, vai piorar”, afirmou.
Proteção ambiental
Concebido pelo Instituto Lixo Zero Brasil, o segundo projeto apresentado na Aleam é o “Paraísos Lixo Zero”. A proposta é levar educação ambiental, mobilização social e ferramentas de economia circular a regiões de apelo ecológico e turístico.
O presidente do Instituto Lixo Zero Brasil, Rodrigo Sabatini, justificou a escolha de Manaus devido à ligação direta da população com a bacia hidrográfica e ao potencial do turismo como motor de transformação cultural.
“O turismo é um grande transformador de comportamento e pode ajudar nessa transformação. Aqui em Manaus, foi escolhido o território dos flutuantes, porque é algo singular, está no rio, que é a base da vida de vocês, onde está o transporte, onde a vida acontece”, disse o presidente.
A metodologia prevê a criação de uma rede de cooperação reunindo moradores, comerciantes locais, instituições públicas, cooperativas e poder público para reduzir a geração de lixo nos rios e dar destinação correta aos resíduos. O plano inclui formação de multiplicadores ambientais e estímulo à triagem de materiais.
O diretor de Logística Reversa da Associação Nacional dos Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis (Ancat), Anderson Nassif, avaliou que o projeto aproxima a classe empresarial da realidade vivida na ponta da cadeia de coleta.
“Falar da Lei de Incentivo à Reciclagem é trazer principalmente para o setor empresarial a importância dos catadores de materiais recicláveis nesse contexto. Hoje se fala muito em economia circular, se fala em ESG, e nada melhor do que incentivar ações ligadas à economia circular com a participação dos catadores”, afirmou o diretor.
O representante da Ancat comemorou o protagonismo feminino na execução das iniciativas em solo amazonense.
“Fico muito feliz de ver projetos nascendo e, mais do que isso, sendo executados na prática”, disse Anderson.
Aporte financeiro
O encontro na Aleam também serviu de palco para o lançamento oficial da edição 2026 da campanha “Impacto Circular”, promovida pela Abralatas. O movimento tem como meta atrair novas empresas interessadas em destinar abatimentos fiscais a projetos aprovados pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima.
Segundo Guilherme Canielo, o portfólio da campanha para este ano conta inicialmente com seis projetos estruturados com abrangência nacional.
“São projetos que conciliam esse olhar setorial que nós temos com a importância de as empresas investirem nas suas comunidades locais. Inicialmente, a gente lançou a campanha com seis projetos, que podem ser executados em qualquer região, em qualquer município do Brasil”, afirmou Guilherme Canielo.
Com o início imediato do “Empreendedoras da Reciclagem” e do “Paraísos Lixo Zero”, a expectativa das entidades organizadoras é gerar impactos positivos na renda dos catadores, na preservação dos rios e na gestão dos resíduos sólidos urbanos em Manaus.
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