
As longas viagens de barco pelos rios da Amazônia para conseguir uma consulta médica começam a dar lugar a telas de computador conectadas por internet de alta velocidade. Essa mudança na realidade geográfica melhora a rotina de moradores de comunidades isoladas, diminuindo gastos financeiros elevados e o desgaste físico provocado por horas de deslocamento fluvial.
O avanço ocorre por meio do projeto “Solar Community Hub”, um centro comunitário movido a energia solar que funciona na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Rio Amapá, no município de Manicoré, localizado a 390 quilômetros de Manaus.
A iniciativa é coordenada pela Fundação Amazônia Sustentável (FAS) em parceria com a Dell Technologies, Computer Aid e Fundação Banco do Brasil (FBB), contando com o apoio técnico e institucional do Instituto Federal do Amazonas (IFAM), da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e da Secretaria de Estado do Meio Ambiente do Amazonas (Sema/AM).
Barreiras no pré-natal
O impacto prático da telessaúde fica evidente na história de Sabrina Silva, moradora da comunidade Boa Esperança. Em sua primeira gestação, por conta da distância e das limitações financeiras, ela conseguiu realizar apenas quatro consultas de pré-natal, número bem abaixo do recomendado pelas diretrizes de saúde. Na segunda gravidez, o isolamento gerava angústia constante.
“Eu ficava com medo de acontecer alguma coisa comigo e eu não conseguir chegar a tempo ao hospital. Isso tudo passava pela minha cabeça”, afirma Sabrina Silva.
Com a chegada do polo tecnológico em 2022, ela passou a fazer o acompanhamento gestacional sem precisar sair da comunidade, viajando até a sede urbana de Manicoré apenas para exames físicos específicos. Atualmente, o sistema de teleconsultas atende toda a sua família em atendimentos de rotina.
“Eu agradeço muito pelo projeto da FAS, porque melhorou demais. Desejo que continue e cresça cada vez mais, porque não ajuda só a minha família, mas todas as famílias que vivem aqui. Quando precisamos de atendimento de saúde ou psicológico, os profissionais estão à disposição. Só tenho a agradecer”, destaca Sabrina Silva.
Atendimentos na floresta
O centro comunitário funciona como uma estrutura multifuncional integrada, conectando internet e telessaúde diretamente com os moradores da floresta. O sistema otimiza o tempo de resposta médica para populações que vivem distantes da rede urbana convencional.
Os serviços oferecidos na estrutura alcançam diversas especialidades:
- Consultas clínicas: Atendimento médico geral para o diagnóstico de sintomas e acompanhamento de doenças crônicas.
- Saúde mental: Sessões de atendimento psicológico regular para os moradores da reserva.
- Ações preventivas: Orientações de saúde, mapeamento de hábitos alimentares e reavaliação nutricional das famílias.
- Oficinas práticas: Cursos culinários focados no uso de plantas alimentícias não convencionais da própria região.
O volume de procedimentos consolida a eficiência do modelo digital. Somente ao longo do ano passado, o centro comunitário registrou 270 sessões de teleatendimentos na região.
Redução de desigualdades
A coordenação do projeto aponta que o uso da tecnologia adaptada ao cenário amazônico ataca diretamente problemas estruturais históricos de logística e isolamento.
“O acompanhamento da gestação e da saúde infantil é um exemplo concreto do impacto da iniciativa, mas o alcance é muito mais amplo. Ao integrar tecnologia a soluções adaptadas à realidade dos territórios amazônicos, reduzimos desigualdades históricas e ampliamos o acesso à saúde para quem mais precisa”, afirma a superintendente-geral adjunta da FAS, Valcléia Lima.
A experiência bem-sucedida em Manicoré reforça que a evolução da medicina pública e a conservação ambiental na Amazônia caminham juntas, dependendo de investimentos em conectividade e fontes de energia limpa para fixar o homem no interior com dignidade.
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