Manicoré Pedagogia da Floresta fortalece ensino ligado à natureza em comunidade de Manicoré

Pedagogia da Floresta fortalece ensino ligado à natureza em comunidade de Manicoré

Foto: Raquel Bastos

Enquanto boa parte das escolas brasileiras ainda separa ensino e território, uma instituição no interior do Amazonas segue a direção oposta. Na comunidade Igapó-Açu, localizada às margens da rodovia BR-319, a floresta, o rio, as brincadeiras e os saberes tradicionais ocupam o centro da sala de aula.

Essas práticas foram fortalecidas durante o “2º Encontro de Formação Pedagogia da Floresta”, realizado pela Casa do Rio com financiamento da Katia Francesconi Foundation, que foi a responsável pelo apoio integral à iniciativa.

A formação aconteceu entre os dias 16 e 18 de abril de 2026 na Escola Municipal de Ensino Infantil e Fundamental. A unidade de ensino funciona dentro da Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Igapó-Açu, no município de Manicoré.

A ação deu continuidade ao trabalho iniciado em 2023, período em que a primeira edição do encontro reuniu mais de 300 professores da rede municipal de ensino. Desta vez, o foco esteve na própria escola.

Durante três dias, professores, gestores, auxiliares, merendeiras, comunitários e parceiros participaram de atividades construídas a partir das vivências do território. Ao todo, 21 participantes integraram a formação, que foi conduzida por cinco consultoras.

Metodologia viva

Para a coordenadora do projeto, Lia Mandelsberg, a segunda edição representa um amadurecimento da forma como a Casa do Rio trabalha a “Pedagogia da Floresta” junto aos educadores e à educação pública.

“Enquanto a primeira edição alcançou uma ampla rede de escolas e atuou em diferentes frentes, o segundo aprofundou o trabalho dentro de uma única escola, localizada em uma área de conservação ambiental e que já possui longo histórico de parceria com a instituição”, explicou a coordenadora do projeto, Lia Mandelsberg.

A “Pedagogia da Floresta” é uma metodologia que compreende a floresta como um espaço legítimo de produção de conhecimento, cultura e convivência. Nesse contexto, o aprendizado não se limita aos muros da sala de aula, pois o conhecimento também está nos modos de plantar, pescar, colher, cozinhar, brincar, cuidar e viver em comunidade.

Esse modelo de ensinar e aprender faz parte da realidade da escola desde 2017, quando a Casa do Rio contribuiu para a construção do espaço, pensando a estrutura em diálogo direto com os modos de vida locais.

“A formação foi construída a partir de um planejamento participativo intenso, pensado para dialogar com as principais necessidades da Escola Igapó Açu. E a Pedagogia da Floresta parte justamente desse princípio que busca valorizar os saberes locais e a vida construída com, para e da floresta”, detalhou Lia Mandelsberg.

Práticas pedagógicas

As atividades reuniram práticas artísticas, corporais, lúdicas e conceituais, em um processo que alternou teoria e prática para dialogar com os ritmos da floresta, das águas e da vida amazônida.

As metodologias foram conduzidas pelas consultoras Carla do Carmo, Ceane Simões, Annie Martins e Renata Peixe Boi.

Os conteúdos principais abordados pelas consultoras envolveram os seguintes temas

  • Pedagogia da Onça Pintada: atividades conceituais focadas na compreensão das infâncias e das identidades construídas dentro do próprio território.
  • Teatro do Oprimido: práticas e jogos teatrais utilizados para potencializar a sensibilidade e a expressão corporal dos estudantes.

A consultora Annie Martins destacou que a experiência ampliou de forma significativa as reflexões sobre educação e pertencimento dentro da floresta amazônica.

“Como mulher, mãe e indígena Tikuna em retomada, vivenciar e estimular trocas sobre uma educação mais sensível foi profundamente transformador. Nesse contexto, o Teatro do Oprimido entrou como metodologia para potencializar práticas que professoras, professores e estudantes do Igapó já desenvolvem, mas agora com mais consciência”, afirmou a docente de Teatro na Universidade do Estado do Amazonas (UEA), Annie Martins.

Vivências comunitárias

Além das práticas pedagógicas, o encontro promoveu brincadeiras, vivências e atividades de memória das infâncias.

Na comunidade, o ato de brincar faz parte do aprendizado essencial. Pular na água, remar, subir em árvores, brincar com sementes e reconhecer plantas, bichos e caminhos do rio integram o cotidiano das crianças, ajudando a construir formas de aprender ligadas diretamente à natureza.

Com isso, a formação promoveu a integração real entre escola, comunidade e saberes tradicionais, aproximando o currículo escolar das experiências vividas pelos moradores no dia a dia.

Cultura alimentar

O encontro também abordou a alimentação, o cuidado e a cultura alimentar amazônica. A iniciativa “Cozinha Boca da Mata”, conduzida pela consultora Renata Peixe Boi, encerrou a programação com uma atividade voltada ao preparo de refeições com ingredientes locais e sem o uso de agrotóxicos, respeitando a realidade da escola.

A participação direta das merendeiras reforçou o entendimento de que o cuidado e a alimentação também fazem parte dos processos educativos.

“O envolvimento de toda a equipe escolar no processo formativo reconhece que todas as pessoas da escola participam da formação das crianças e que cada função tem importância na educação”, enfatizou Lia Mandelsberg.

A coordenadora também pontuou que o apoio da Katia Francesconi Foundation tem sido fundamental para a continuidade do trabalho, possibilitando que a formação aconteça de forma aprofundada e fortalecendo as práticas já existentes na comunidade.

Em Igapó Açu, onde as crianças aprendem entre rios, árvores e saberes compartilhados entre gerações, a experiência aproxima a escola do território para que o aprendizado permaneça vivo nas práticas cotidianas e nas memórias locais.

“Se o primeiro encontro expandiu em quantidade, o segundo cresceu como árvore: para baixo, fortalecendo as próprias raízes”, concluiu a coordenadora do projeto, Lia Mandelsberg.

ASCOM: Vívian Oliveira

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