
O céu encoberto por uma camada de fumaça e as temperaturas próximas dos 40°C colocaram Manaus diante de uma combinação preocupante: queimadas em alta, calor extremo, baixa umidade e condições atmosféricas que dificultam a dispersão dos poluentes.
O cenário, que já provoca impactos na qualidade do ar e na saúde da população, pode ganhar novos contornos nos próximos meses com o fortalecimento do fenômeno El Niño.
Nesta quarta-feira (23), a Prefeitura de Manaus informou que a concentração média de partículas finas (PM2,5) chegou a 188,5 microgramas por metro cúbico, nível classificado como “péssimo”.
Segundo o município, a fumaça que atinge a capital é proveniente de queimadas em diferentes áreas da Amazônia, especialmente na Região Metropolitana de Manaus e no leste do Amazonas.
O quadro é ainda mais expressivo nos registros das redes de monitoramento ambiental. Dados citados pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA) apontaram concentração de até 291 µg/m³ de material particulado fino em Manaus nesta quarta-feira. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que a média diária de exposição ao PM2,5 não ultrapasse 15 µg/m³.
Ao mesmo tempo em que a fumaça toma conta da capital, o calor também bate recordes. Dados do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) apontaram 38,6°C em Manaus na terça-feira (22), a maior temperatura registrada na cidade em 2026 até aquele momento.
Pressão na Amazônia
O alerta ganha dimensão maior diante das projeções climáticas para os próximos meses. O boletim conjunto do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN), Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (CENSIPAM), Serviço Geológico do Brasil e Defesa Civil Nacional divulgado em setembro apontou mais de 90% de probabilidade de que o trimestre setembro-outubro-novembro seja marcado por um El Niño muito forte.
A atualização mais recente do Centro de Previsão Climática da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), divulgada em 10 de setembro, indica que o fenômeno continua se fortalecendo e deve seguir em intensificação até o fim do ano.
Para o trimestre outubro-novembro-dezembro de 2026, a NOAA estima 75% de probabilidade de um evento de intensidade histórica, considerando um parâmetro que permitiria superar a força de eventos anteriores registrados desde 1950.
Contudo, a agência ressalta que uma intensidade maior do fenômeno aumenta as chances de impactos associados ao El Niño, mas não significa que todos os efeitos ocorrerão em cada região.
Na Amazônia, a preocupação está relacionada principalmente à possibilidade de combinação entre temperaturas elevadas, redução das chuvas, maior secura da vegetação e aumento da ocorrência de incêndios, além de condições atmosféricas capazes de favorecer o transporte e a permanência da fumaça.
A pesquisadora Sonaira Silva, da Universidade Federal do Acre (UFAC) e integrante da Academia Brasileira de Ciências, afirmou à Folha de S.Paulo que o Amazonas já apresenta sinais persistentes de falta de chuva e aumento das temperaturas. Segundo ela, a influência do El Niño tende a agravar essas condições.
Queimadas avançam
Os números do INPE reforçam o sinal de alerta. Entre 1º e 22 de setembro, foram registrados 3.240 focos de queimadas no Amazonas, contra 942 no mesmo período de 2025 — um aumento de 244%.
Os focos estão distribuídos rigorosamente pelas regiões norte, leste e sul do Estado, com registros em municípios como Novo Aripuanã, Lábrea, Apuí, Careiro, Iranduba e Autazes.
A situação também chama atenção porque a fumaça que chega à capital não depende apenas das queimadas ocorridas dentro de Manaus. A circulação dos ventos pode transportar partículas emitidas em outras áreas da Amazônia para a Região Metropolitana.
A própria Prefeitura de Manaus já havia informado, no início de setembro, que a fumaça que atingia a capital vinha de áreas de queimadas do sul do Amazonas, norte de Mato Grosso e Rondônia, transportada pelos ventos em baixos níveis da atmosfera.
Esse mecanismo ajuda a explicar por que Manaus pode enfrentar episódios severos de poluição mesmo quando os focos de incêndio diretamente registrados dentro da cidade são relativamente baixos.
Combinação perigosa
O problema não se resume à visibilidade reduzida ou ao desconforto causado pelo cheiro de queimado. O risco maior está na presença de partículas microscópicas, especialmente o PM2,5, capazes de penetrar profundamente no sistema respiratório e alcançar a corrente sanguínea.
Durante episódios de concentração elevada, podem ocorrer irritação nos olhos e garganta, tosse, coriza, dor de cabeça, chiado no peito e dificuldade para respirar. Crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças respiratórias ou cardiovasculares estão entre os grupos que demandam maior atenção.
A Secretaria Municipal de Saúde recomenda reduzir a exposição à fumaça e evitar exercícios físicos ao ar livre nos períodos de pior qualidade do ar. A orientação também inclui manter-se hidratado e utilizar proteção respiratória adequada quando a exposição for inevitável.
A combinação com o calor extremo acrescenta outro fator de risco. Temperaturas muito elevadas aumentam a necessidade de hidratação e impõem maior estresse ao organismo, enquanto a permanência prolongada em ambientes contaminados pela fumaça amplia a exposição aos poluentes.
Último trimestre
A perspectiva para o último trimestre do ano exige mais atenção porque o cenário atual ocorre antes do período em que o El Niño poderá atingir níveis ainda mais elevados.
Isso não significa que Manaus enfrentará três meses consecutivos de fumaça intensa. A ocorrência e a duração dos episódios dependem também de chuva, vento, umidade, localização dos incêndios e circulação atmosférica. Mas os indicadores atuais justificam a preparação antecipada.
Em agosto, o Ministério Público de Contas do Amazonas (MPC-AM) recomendou ao Governo do Estado o reforço e a integração das ações de preparação para os impactos do El Niño 2026/2027. O órgão alertou para a possibilidade de combinação entre estiagem severa, calor extremo, incêndios, fumaça e poluição do ar, além de outros efeitos sobre comunidades e serviços públicos.
Entre as medidas sugeridas pelo MPC-AM está a criação de um painel operacional que reúna informações sobre focos de calor, condições meteorológicas, transporte da fumaça e qualidade do ar, permitindo antecipar situações críticas e orientar ações de proteção da população.










