
O mercado financeiro viveu dias de intensa agitação com os resultados das urnas e as dúvidas sobre os rumos das contas públicas. O principal indicador da Bolsa de valores brasileira, a Brasil, Bolsa, Balcão (B3), encerrou a sexta-feira, 30/10, em queda de 0,75%, aos 167.921,80 pontos. O resultado consolidou o quinto pregão seguido de desvalorização e fechou o período semanal com uma perda acumulada de 18,12%, registrando a pior performance do índice desde março de 2020.
O recuo expressivo nas negociações ganhou força logo após a confirmação da reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT), no domingo, 25 de outubro de 2026. A vitória do candidato governista contrariou as apostas de grande parte dos investidores, que projetavam o triunfo do senador Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal (PL), aguardando alterações na condução da política econômica.
No primeiro pregão realizado após a votação, na segunda-feira, 26 de outubro de 2026, o Ibovespa despencou 13,88%, configurando o maior tombo diário visto desde o começo da crise sanitária de 2020. A intensidade da baixa obrigou a B3 a acionar o mecanismo de pausa emergencial conhecido como circuit breaker para conter a oscilação extrema. Somente naquela segunda-feira, o valor de mercado das empresas recuou cerca de R$ 734 bilhões.
Em cinco dias de operações, o indicador perdeu aproximadamente 37,2 mil pontos. Na comparação com o recorde histórico de fechamento atingido no dia 9 de outubro de 2026, quando alcançou 209.066,90 pontos, a perda acumulada chega a cerca de 41 mil pontos. Com esse movimento, a alta acumulada pela Bolsa no ano de 2026, que esteve perto de 30%, encolheu para cerca de 4%.
Comparativo do histórico financeiro
Um estudo produzido pela consultoria Elos Ayta com dados da B3 indica que o recuo semanal de 18,12% figura como a quinta maior queda da história do Ibovespa desde o início do Plano Real, em julho de 1994.
As quatro maiores desvalorizações semanais registradas na história do índice aparecem organizadas na sequência.
- Em outubro de 1997, durante o ápice da crise financeira asiática, com recuo de 22,17%.
- Em outubro de 2008, na fase crítica da crise financeira internacional, com retração de 20,01%.
- Em março de 2020, no surgimento da pandemia de Covid-19, quando a queda atingiu 18,88%.
- Em setembro de 2001, na semana dos atentados terroristas de 11 de setembro nos Estados Unidos, com variação negativa de 18,12%, igualando exatamente o percentual com duas casas decimais apurado nesta semana.
Disparada do dólar comercial
O mercado de moedas acompanhou o clima de apreensão registrado com as ações. O dólar comercial encerrou a sexta-feira, 30 de outubro de 2026, cotado a R$ 5,444, apresentando elevação de 1,05% no dia. Durante as negociações do pregão, a cotação oscilou entre R$ 5,387 e R$ 5,462, atingindo a marca de maior valor de fechamento anotada em 2026.
Na semana posterior ao segundo-turno, a moeda americana acumulou avanço de 9,04% em relação ao real, registrando o maior salto semanal desde a crise de outubro de 2008. No acumulado do mês de outubro, a subida da moeda estrangeira atingiu cerca de 5,2%.
Na segunda-feira, 26 de outubro de 2026, o valor do dólar chegou a ultrapassar R$ 5,60 nos momentos de maior pico e encerrou a sessão com alta de 8,21%, cotado a R$ 5,403. Foi a maior valorização em um único dia observada desde janeiro de 1999.
Incertezas com a Selic
A oscilação brusca traduz as dúvidas dos agentes econômicos quanto à trajetória das contas públicas nos próximos anos. Havia forte expectativa de alternância no poder por parte de parcela dos investidores, e o resultado das urnas elevou as atenções para a questão fiscal.
Além das questões políticas internas, fatores do exterior ajudaram a pressionar os negócios. Decisões sobre taxas de juros nos Estados Unidos e na Europa, tensões geopolíticas internacionais, balanços das grandes companhias e sinais de desaquecimento das principais potências econômicas aumentaram o tom de cautela.
No ambiente doméstico, o foco se volta para a próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC), marcada para a próxima semana. A taxa básica de juros, a Selic, permanece fixada em 13,75% ao ano.
Um levantamento divulgado pela B3 na quinta-feira, 29 de outubro de 2026, com base nos contratos negociados no mercado futuro, apontou as seguintes probabilidades estimadas pelos investidores.
- A probabilidade de manutenção da taxa Selic em 13,75% ao ano ficou apurada em 63,1%.
- A probabilidade de uma redução da taxa para 13,50% ao ano registrou o índice de 28%.
A alteração nessas projeções reflete o posicionamento defensivo dos negociantes diante das dúvidas sobre os rumos da política monetária e da condução fiscal do país.










