
A expectativa de centenas de candidatos aprovados no primeiro concurso público da história da Secretaria de Estado do Meio Ambiente do Amazonas (Sema) virou preocupação nos últimos dias após a circulação de mensagens em grupos de WhatsApp dando conta de que a Agência Amazonense de Desenvolvimento Econômico, Social e Ambiental (Aadesam) estaria selecionando pessoas para ocupar funções na estrutura da secretaria.
A informação provocou apreensão entre os candidatos que acompanham o processo de convocação e que aguardam o cumprimento do resultado do concurso. O receio é de que contratações por meio da Aadesam possam reduzir ou retardar a chamada dos aprovados.
Uma fonte do Governo do Amazonas ouvida pelo portal, no entanto, negou que a Aadesam esteja sendo utilizada para substituir os aprovados no concurso e afirmou que as convocações ocorrerão de acordo com as regras estabelecidas no edital do certame.
Segundo a fonte, a mudança no comando da secretaria não altera o compromisso do governo com o concurso nem cria uma alternativa para preencher os cargos efetivos oferecidos no edital.
Documento da Aadesam
A preocupação dos candidatos ganhou força depois que integrantes do grupo de aprovados buscaram informações diretamente com a Aadesam sobre a suposta seleção.
Em resposta administrativa datada de 10 de agosto de 2026, assinada pela coordenadora do CPSS da agência, Monik de Kássia Bartholo, a Aadesam recusou o fornecimento dos documentos solicitados.
No documento, obtido pelo portal, a agência explica que os materiais pedidos possuem natureza sigilosa e podem conter informações protegidas, inclusive dados eventualmente sujeitos à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
A Aadesam também argumenta que sua obrigação de prestar esclarecimentos e contas é dirigida aos órgãos de fiscalização competentes, especialmente ao Tribunal de Contas do Estado (TCE-AM), e não a terceiros ou particulares que não estejam identificados.
A agência acrescenta que não poderia encaminhar folhas de pagamento por considerá-las documentação interna, restrita e protegida por deveres de confidencialidade, privacidade e finalidade.
A negativa, embora não confirme a existência de uma seleção para a Sema, acabou alimentando a desconfiança entre os candidatos.
Polêmica sobre contratos
Há, porém, uma diferença importante que ajuda a separar o que é fato do que é especulação. A Aadesam efetivamente mantém projetos em parceria com a Sema e já realizou processos seletivos para contratação de profissionais que atuam em iniciativas da secretaria quando esta estava sob a gestão Eduardo Taveira.
No projeto “Consolidando”, por exemplo, a própria Sema informa que Aadesam e secretaria trabalham juntas desde 2021 e que o programa avançou na contratação de pessoal para ampliar as atividades de campo nas unidades de conservação.
Documentos mais recentes são ainda mais explícitos. Um plano de trabalho de projeto vinculado à Sema prevê que a Aadesam tenha autonomia para contratação e administração de pessoal sob o regime da CLT. Outro documento prevê equipe de gestão e equipe técnica contratadas para executar ações em unidades de conservação.
Isso significa que é possível existir contratação de profissionais pela Aadesam para execução de projetos vinculados à Sema. O que não significa, automaticamente, que esses contratados ocuparão os cargos efetivos previstos no concurso público.
A própria Aadesam mantém atualmente projetos identificados como Sema II, Progestão III e Floresta em Pé, entre outros, em sua relação de projetos.
Uma eventual seleção da agência e a convocação dos aprovados no concurso são processos juridicamente e administrativamente diferentes.
Concurso já homologado
A preocupação dos candidatos ocorre em um momento considerado crucial para a secretaria. O concurso da Sema foi lançado em dezembro de 2025 com 159 vagas imediatas e 318 vagas para formação de cadastro de reserva, para cargos de Analista Ambiental, Técnico de Nível Superior e Assistente Ambiental.
As provas foram realizadas em março deste ano e o resultado final foi assinado pelo governador Roberto Cidade em 11 de junho.
Na ocasião, o governo informou que pretendia começar ainda em 2026 a contratação de parte dos aprovados. O concurso tem validade de dois anos.
O edital deixa claro que se trata de concurso para provimento de vagas e formação de cadastro de reserva e que os candidatos nomeados estarão submetidos ao regime jurídico dos servidores estaduais e ao Plano de Cargos, Carreiras e Remuneração da Sema.
É essa diferença que interessa aos candidatos: contrato temporário ou vinculado a projeto não se confunde com nomeação para cargo efetivo decorrente do concurso.
Mudança aumenta ansiedade
O momento de transição na Sema também contribuiu para a insegurança. Eduardo Taveira deixou o comando da secretaria depois de mais de sete anos à frente da pasta. A saída foi noticiada no início de julho, em meio à reforma administrativa promovida pelo governador Roberto Cidade.
Para assumir a secretaria, o nome de Miquéias Santos de Souza passou a ser apontado nos bastidores, o que se consumou por ato do governador Cidade. Miquéias tem trajetória dentro da própria área ambiental. Registros oficiais da Sema mostram que ele já atuou como gestor da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Rio Negro e em outras funções ligadas à gestão ambiental e unidades de conservação.
Ele também aparece em trabalhos relacionados à Reserva da Biosfera da Amazônia Central e como consultor da Unesco em projetos ambientais no Amazonas.
A expectativa dos candidatos é que a mudança de comando venha acompanhada da organização da estrutura da secretaria para receber os novos servidores efetivos.
A chegada de Miquéias à Sema também foi recebida positivamente por setores da imprensa especializada em questões ambientais e de desenvolvimento do Amazonas.
O blog Thomaz Rural, por exemplo, publicou texto favorável à saída de Eduardo Taveira e à mudança no comando da Sema. Em artigo publicado em julho, o blog classificou a troca como uma oportunidade para modificar a política ambiental do Estado e cobrou uma nova postura em temas como Zoneamento Ecológico-Econômico, crédito de carbono e desenvolvimento do interior.
Concurso será respeitado
Diante da repercussão das mensagens e das dúvidas que chegaram aos candidatos, a posição transmitida ao portal por fonte do governo é de que não há risco de a Aadesam substituir os aprovados no concurso da Sema.
A orientação é que os candidatos acompanhem os atos oficiais de convocação e nomeação e observem as regras do edital.
A garantia precisa ser lida dentro do próprio desenho do certame: são 159 vagas imediatas, enquanto outras 318 posições integram o cadastro de reserva. A situação jurídica dos candidatos do cadastro de reserva, portanto, não é necessariamente a mesma daqueles classificados dentro do número de vagas imediatas.
Fonte governamental assegura que os aprovados serão chamados conforme as regras do concurso.










