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Após anos de impasse, BR-319 e Ferrogrão voltam a ganhar força com apoio direto de Lula

Presidente Lula, durante visita às obras do “Trecho do Meio” da BR-319 - Foto: Ricardo Stuckert/ PR

As recentes declarações do presidente Lula (PT), sinalizando o avanço simultâneo da ferrovia Ferrogrão e da rodovia BR-319 marcam uma inflexão profunda no discurso governamental sobre a região amazônica.

Lula assumiu o terceiro mandato sob o manto de uma forte agenda de preservação ambiental e com promessas firmes de reposicionar o Brasil como liderança climática global.

Contudo, a poucos meses do período eleitoral, o tom mudou substancialmente. Ambas as obras sofrem severa pressão de ambientalistas e povos indígenas há anos, sob a premissa de que os empreendimentos impulsionam o desmatamento ilegal e impactam terras tradicionais.

Passados pouco mais de três anos de mandato, a postura do Palácio do Planalto convergiu para a defesa pública de projetos historicamente associados ao agronegócio e à integração logística da região Norte.

Durante viagem recente ao Amazonas, o presidente assegurou o empenho em destravar a rodovia BR-319 e cravou a execução da ferrovia. A movimentação indica que o governo federal optou por assumir o bônus e o ônus político de projetos antes tratados com extrema cautela pela ala ideológica e ambiental da gestão.

O dilema rodoviário

A rodovia BR-319, que faz a ligação terrestre entre Manaus (AM) e Porto Velho (RO), carrega o peso de ser o maior símbolo do embate histórico entre desenvolvimento regional e conservação da floresta.

O planejamento atual da gestão federal prevê a estruturação de uma Parceria Público-Privada (PPP) para a reconstrução da via até o ano de 2028.

O contrato terá validade de 20 anos, demandando um investimento estimado em R$ 20 bilhões dos cofres da União ao longo de todo o período de execução.

Em solenidade oficial realizada no município de Iranduba (AM), o chefe do Executivo buscou blindar o projeto contra as pressões de fora.

“Ambientalmente, vai ser a estrada mais moderna do mundo. Qualquer estrangeiro que vier dar palpite na questão climática aqui, a gente vai mostrar o que fizemos”, afirmou Lula sobre a BR-319.

O apoio explícito do presidente contrasta com posicionamentos anteriores de integrantes da própria base aliada, como a ex-ministra do Meio Ambiente e atual deputada federal Marina Silva (Rede-SP), que no passado classificou a rodovia como uma “estrada só para passear de carro”.

Essa visão gerou indignação profunda na população local e em líderes políticos da região, que relembram os momentos dramáticos vividos pela falta de infraestrutura.

O senador Plínio Valério (PSDB-AM), relembrou o isolamento logístico enfrentado no auge da crise sanitária.

“Na pandemia, em 2021, caminhões carregados de oxigênio ficaram atolados em trechos não pavimentados da BR-319. Enquanto isso, pessoas morriam por falta de ar nos hospitais de Manaus. Essa estrada não é luxo. É necessidade. É direito de ir e vir. É saúde, é abastecimento, é dignidade para quem vive no Norte”, declarou Plínio Valério na ocasião.

Recentemente, em vistoria às frentes de trabalho, Lula reforçou que a pavimentação ocorrerá com responsabilidade socioambiental, mas confirmou o avanço definitivo das frentes de trabalho.

A vertente ferroviária

A Ferrogrão surge como a outra vertente dessa estratégia de expansão logística.

Planejada para conectar o município de Sinop, em Mato Grosso (MT), ao porto de Miritituba, no Pará (PA), a linha férrea é defendida como crucial para otimizar o escoamento da safra agrícola do Centro-Oeste brasileiro.

O projeto enfrentava entraves jurídicos de grande porte no Supremo Tribunal Federal (STF), mas obteve um posicionamento favorável da corte em março de 2026.

Mesmo com o aval do poder Judiciário, a implantação prática ainda restringe-se ao cumprimento de condicionantes complexas, dependendo do andamento de novos estudos técnicos e do avanço nos processos de licenciamento ambiental.

Em entrevista concedida à Rede Amazônica, o presidente reafirmou a decisão política de tirar a ferrovia do papel.

“Se tem uma coisa que eu posso garantir, nós vamos fazer a Ferrogrão”, garantiu Lula.

As contestações políticas

A mudança repentina de postura gerou reação imediata na bancada do agronegócio e na oposição parlamentar, que apontam oportunismo eleitoral nas promessas.

Críticos acusam o governo de instrumentalizar obras estratégicas para mitigar o desgaste político com o setor produtivo e angariar apoio popular nas regiões Norte e Centro-Oeste.

Deputados afirmam que a atual administração passou anos obstruindo os projetos por alinhamento ideológico e agora tenta vestir o figurino de defensora da infraestrutura nacional.

O vice-líder da oposição, deputado Evair de Melo (Republicanos-ES), criticou severamente o atraso nas definições do Executivo.

“O Brasil não precisa de mais promessa reciclada em ano eleitoral, precisa de decisão, segurança jurídica e obra entregue. A BR-319 e a Ferrogrão são estruturantes para integrar o Norte ao restante do país, reduzir custo logístico, fortalecer o agro, gerar emprego e dar dignidade a quem vive isolado pela falta de infraestrutura”, asseverou Evair de Melo.

A tese de que os projetos eram prioridades reais na gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), serve de munição para a oposição.

À época, as obras eram tratadas como pilares de soberania nacional, sob pesadas críticas da esquerda e de Organizações Não Governamentais (ONGs).

Para o deputado federal Nelson Barbudo (Podemos-MT), a aproximação com os produtores rurais carece de genuína convicção econômica.

“O governo passou três anos e meio travando e cortando a liberação da Ferrogrão por motivos ambientais, usando o Ibama e o ICMBio, enquanto o Mato Grosso padecia com a total falta de infraestrutura. Passaram o tempo todo chamando o agro de fascista. Agora, como a credibilidade deles está em baixa e eles estão sentindo na pele que o povo não aceita mais esse tipo de postura, querem posar de ‘bonzinhos’ e fingir que se tornaram os ‘amores’ do agronegócio”, apontou Nelson Barbudo, fazendo menção ao Ibama e ao Instituto Chico Mendes (ICMBio).

Na mesma linha, a deputada Coronel Fernanda (PL-MT) ponderou que a resolução do Judiciário não encerra o desafio logístico por completo.

“A recente decisão do STF não assegura, por si só, o avanço da obra, justamente porque falta vontade política do Executivo para transformar o projeto em realidade”, argumentou a parlamentar.

O embate socioambiental

Apesar do aceno governamental às forças econômicas, a insatisfação também transborda do lado socioambiental. Entidades civis e lideranças dos povos originários mantêm oposição unânime e prometem estender o embate técnico e jurídico contra as duas grandes obras.

Logo após a manifestação do tribunal sobre a demarcação do Parque Nacional do Jamanxim, a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) manifestou-se nas redes sociais alertando para os riscos vigentes.

“A decisão do STF sobre o Parque Nacional do Jamanxim é grave, mas não autoriza a construção da ferrovia, não atesta sua viabilidade ambiental e não apaga as pendências que seguem travando o projeto: falta licença ambiental, falta Consulta Livre, Prévia e Informada, faltam estudos atualizados e sobram questionamentos no TCU e no Ibama”, publicou a Coiab, indicando as contestações existentes no TCU.

No flanco rodoviário, coalizões como o Observatório BR-319 e o Observatório do Clima argumentam que o asfaltamento sem salvaguardas extremas irá impulsionar taxas históricas de desmatamento ilegal na floresta preservada.

O Observatório do Clima, rede que congrega 172 organizações socioambientais, institutos de pesquisa e movimentos sociais, encabeça uma Ação Civil Pública (ACP) com o objetivo de cassar a Licença Prévia (LP) emitida em 2022, ainda na gestão anterior.

O grupo contesta judicialmente os editais de contratação de empreiteiras, apontando a dispensa irregular de ritos essenciais de licenciamento.

Como contra-argumento técnico, a gestão atual tenta aplacar o debate apontando ganhos climáticos indiretos.

A defesa do governo sustenta que a consolidação dos trilhos e o ordenamento da rodovia podem reduzir emissões de gases estufa globalmente ao otimizar a matriz de transportes e enxugar o tráfego pesado de caminhões que hoje sobrecarrega caminhos alternativos como a rodovia BR-163.

O grande desafio do Palácio do Planalto será provar, na prática, que o asfalto e os trilhos podem coexistir com a floresta em pé.

Fonte: https://www.gazetadopovo.com.br/republica/busca-votos-lula-muda-discurso-destravar-obras-ferrograo-br-319/

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