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A inteligência artificial chega aos altares e acende um debate ético sobre a automação da fé

O robô, ainda em fase de desenvolvimento, no laboratório da Universidade Federal de Lavras  - Foto: Marco Tulio Silva/UFLA

A linha que separa a tecnologia mais avançada das tradições espirituais mais antigas acaba de se tornar muito tênue. Um esforço conjunto entre cientistas de três países resultou na criação de um robô social programado para atuar como uma entidade iluminada dentro da filosofia budista.

Embora a iniciativa represente um salto tecnológico impressionante para a engenharia e para a preservação cultural, a novidade desperta reflexões profundas sobre os limites da inteligência artificial no suporte emocional e na vivência da fé.

A réplica do sagrado

O dispositivo foi projetado por pesquisadores da Universidade Federal de Lavras (UFLA), localizada em Minas Gerais, em parceria com a Ontario Tech University, no Canadá, e com a Hongik University, situada na Coreia do Sul.

Através de técnicas avançadas de impressão 3D e escaneamento digital de alta resolução, o grupo conseguiu reproduzir em tamanho real uma famosa escultura coreana do início do século 7, considerada um tesouro nacional no país asiático.

Diferente dos humanoides comuns que tentam imitar os movimentos e a aparência dos seres humanos, este dispositivo foi planejado para incorporar a simbologia e o comportamento ritualístico de uma figura espiritual.

O trabalho científico detalhado foi apresentado formalmente nos anais da conferência internacional promovida pela Institute of Electrical and Electronics Engineers (IEEE), a International Conference on Collaborative Advances in Software and Computing (CASCON).

A tecnologia por trás do ritual

O protótipo opera sentado, mantendo os 93 centímetros da peça original, e consegue interagir com o público por meio de falas e movimentos leves de cabeça, tronco e braços.

O grande diferencial está na autonomia e na descentralização das suas funções técnicas.

O funcionamento do sistema apresenta características bem específicas:

  • O robô utiliza o paradigma de perceber, pensar e agir de forma totalmente. independente em cada um de seus módulos.
  • O processamento de linguagem corre inteiramente de modo offline por meio de um computador acoplado ao sistema.
  • O mecanismo alcançou mais de 85% de precisão no reconhecimento visual de símbolos de templos e animais sagrados.
  • O sistema consegue identificar movimentos específicos das mãos chamados de mudrās com uma taxa de acerto de 75% no gesto de proteção.

Toda a parte musical que ajuda o usuário a entrar em estado meditativo é gerada por algoritmos de inteligência artificial baseados em regras tradicionais.

“Além disso, a partir de comandos, o sistema pode produzir música compatível com o estado meditativo do usuário. A música é gerada por inteligência artificial com base em cânones budistas”, explica André de Lima Salgado, professor do Departamento de Ciência da Computação da UFLA e coordenador do grupo no Brasil.

O impacto no suporte humano

A aplicação prática do experimento pretende ir muito além dos corredores dos museus da Coreia do Sul. Os criadores do projeto já planejam utilizar essa tecnologia de interação em outras frentes sociais complexas. Uma das metas principais para o futuro envolve adaptar esses robôs sociais para prestar apoio psicológico e emocional a trabalhadores do campo, um grupo que sofre constantemente com o isolamento e o estresse elevado no cotidiano.

A pesquisa brasileira recebeu o suporte financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) por meio do projeto temático “Da semente à xícara” que estuda a internet das coisas.

“O objetivo central foi demonstrar como grandes modelos de linguagem, aliados à inteligência artificial multimodal e à arquitetura modular, podem sustentar interações socialmente significativas entre humanos e máquinas em ambientes culturais e espirituais”, afirma André de Lima Salgado.

O avanço abre uma discussão inevitável sobre se uma máquina, por mais precisa que seja na reprodução de rituais, consegue substituir o calor e a empatia de uma conexão humana real.

Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br/tecnologia/robo-budista-interage-com-gestos-e-gera-musica-com-inteligencia-artificial/

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