
Por Rev. Prof. Francisco A. C. Pinho (*)
O discurso do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, proferido em Belém do Pará, dividiu o país entre críticas severas à escolha das palavras e defesas apressadas em nome do contexto de saúde pública. Há, porém, falas que não comportam relativização.
Durante ato oficial, ao abordar a resistência masculina ao exame preventivo de próstata, o Presidente afirmou, em rede nacional: “as mulheres aprendem a tomar toque desde pequenas”.
Não se trata de contexto. Trata-se de linguagem, de responsabilidade institucional e de decência pública.
É o mau-caratismo ao quadrado. Ato falho? Machismo estrutural? Apologia à pedofilia? O que tem uma criança a ver com toque íntimo? Criança não se toca. Criança se protege. Menina não aprende a tomar toque. Menina precisa de infância preservada, de proteção integral e de respeito absoluto.
Ao tentar discorrer sobre prevenção, o mandatário elegeu a pior analogia possível: comparou o exame de um homem adulto ao corpo de meninas. Frase grotesca, que banaliza, erotiza e avilta a infância. É o poder sem pudor, sem filtro e sem freio.
A Bíblia é clara: a boca fala da abundância do coração (Mateus 12:34). No caso em tela, boca suja. E quando a boca do poder fala assim, a sociedade tem o dever moral e espiritual de reagir.
O ensino bíblico
A Escritura não trata a criança como miniadulto erotizado. Trata-a como sagrada, como modelo do Reino e como prioridade absoluta de proteção.
Jesus foi cirúrgico e inegociável:
“Deixai vir a mim as crianças, não as impeçais, porque delas é o Reino de Deus” (Marcos 10:14).
“Quem receber uma destas crianças em meu nome, a mim me recebe” (Mateus 18:5).
E deixou advertência severa a quem escandaliza, confunde ou fere uma criança:
“Mas qualquer que escandalizar um destes pequeninos que creem em mim, melhor lhe fora que lhe pendurassem ao pescoço uma mó de azenha e se submergisse na profundeza do mar” (Mateus 18:6).
Criança não é objeto de discurso chulo. Criança é herança do Senhor:
“Eis que os filhos são herança do Senhor” (Salmos 127:3).
Quem toca na criança com linguagem ou intenção impura toca no que Deus declarou puro, intocável e inegociável.
A gravidade do local
O caso torna-se mais grave pelo local em que foi proferido. O Pará, em especial o Arquipélago do Marajó, é um dos territórios mais expostos e denunciados do Brasil pela chaga da exploração sexual e da prostituição infantil.
Ali, meninas ainda na primeira infância são aliciadas, violentadas e comercializadas. É ferida aberta que clama por proteção estatal, por políticas públicas efetivas e por pudor, não por frases que normalizam o toque precoce.
Discursar em Belém, no coração da Amazônia, afirmando que meninas “aprendem a tomar toque desde pequenas” é mais que infeliz coincidencia: resvala na irresponsabilidade social. Onde deveria haver um brado em defesa da infância, houve frase que a vulnerabiliza ainda mais.
A responsabilidade do cargo
Não foi o Beltrano da fila do pão quem proferiu o descalabro. Foi o Presidente da República Federativa do Brasil. Pior: um presidente em plena busca por reeleição, diante de câmeras, de crianças e de famílias, usando a máquina pública como palanque eleitoral.
De um Presidente espera-se estadista. Espera-se medida, decoro e vernáculo limpo. O que se ouviu foi improviso rasteiro, vulgaridade travestida de campanha e desrespeito institucionalizado.
Presidente não pode falar como se estivesse em mesa de bar. Cada sílaba proferida do Planalto pesa uma tonelada. Cada palavra mal posta contamina o debate público, dessensibiliza a sociedade e abre precedente perigoso. Saúde pública não se defende com baixaria. Prevenção não se prega erotizando a infância.
Por isso mantemos este texto e o repudiamos com firmeza, com toda a indignação e com a acidez que o momento exige.
Não há justificativa sanitária que legitime essa linguagem. Não há boa intenção que apague o estrago de uma fala presidencial que normaliza o toque em crianças.
A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) não emitiram sequer uma nota de lamento. Mas, ai de mim se eu não me posicionar. Se eu me calar, as pedras clamarão (Lucas 19:40). Tenho que gritar: ai de mim se não o fizer.
Fuja de tudo que adoece a alma e de tudo que possa afastar nossas crianças da inocência que Deus lhes deu.
E, sobretudo, vigiai.
(*) é jornalista, professor Emérito de Língua Portuguesa, natural de Tefé-AM.






