
A expansão das organizações criminosas brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) em solo boliviano gerou um alerta oficial do governo local e motivou articulações diretas com os Estados Unidos para combater os grupos.
O ministro do Governo da gestão do presidente Rodrigo Paz, Marco Antonio Oviedo, afirmou que as duas facções controlam rotas e regiões estratégicas na fronteira com o Brasil. O grupo cobra pedágios ilegais e recruta cidadãos bolivianos para integrar suas fileiras.
O pronunciamento ocorreu durante discurso na Assembleia Legislativa da Bolívia na quarta-feira, 16 de setembro, com base em informações divulgadas pela agência EFE e pelo jornal El Deber. A declaração serviu para fundamentar a prorrogação do estado de emergência no país por mais 90 dias, medida aprovada pelos parlamentares.
“Uma facção do PCC, atuando em território boliviano, está tentando tomar o controle do município de Santa Rosa del Abuná, em Pando, na fronteira com o Brasil, tomando posse de rodovias e cobrando pedágio pela passagem de mercadorias”, denunciou o ministro Marco Antonio Oviedo.
“Essa rota, que vai de Santa Rosa a Montevidéu, passando perto da fronteira com o Brasil, está atualmente controlada pelo Comando Vermelho, que está armado com fuzis e exige pagamento de proteção pela passagem de mercadorias que nossos compatriotas utilizam para sobreviver”, acrescentou Oviedo, ressaltando que as organizações estão recrutando trabalhadores locais.
O ministro declarou que PCC e CV são organizações altamente perigosas e mantêm uma instalação permanente e contínua há bastante tempo na Bolívia. Ele lembrou que, há um mês, os dois grupos travam uma disputa pelo corredor fronteiriço para controlar a passagem de drogas rumo ao exterior.
Ações de controle
Diante do avanço do crime organizado, a estratégia oficial combina cooperação internacional e envio de tropas especiais.
- Integração com a Agência Antidrogas dos Estados Unidos (DEA), a Polícia Federal (PF) do Brasil e forças policiais da União Europeia (UE).
- Envio imediato de equipes de elite da Polícia Nacional Boliviana para o departamento de Pando devido ao aumento dos índices de violência.
- Mobilização de militares e forças especiais para a cidade de San Ignacio de Velasco, na região de Chiquitania, após uma onda de violência que deixou quatro mortos a tiros em dois dias.
Prisão de liderança
As operações policiais na região vêm registrando capturas relevantes de chefias do crime organizado brasileiro. Em maio deste ano, o brasileiro Gerson Palermo, apontado como um dos líderes do PCC, foi preso no departamento de Santa Cruz. Ele estava foragido da Justiça desde abril de 2020.
Gerson Palermo acumula condenações no Brasil que somam quase 126 anos de prisão por tráfico de drogas, associação para o tráfico e por ter liderado o sequestro de um avião Boeing da extinta Vasp em agosto de 2000. O voo, que fazia a rota Foz do Iguaçu para Curitiba, foi desviado para Porecatu, no norte do Paraná, onde o grupo roubou nove malotes do Banco do Brasil contendo cerca de R$ 5,5 milhões.
Treinamento de elite
Na quinta-feira, 17 de setembro, a Embaixada dos Estados Unidos informou que agentes americanos ministraram treinamentos para a Polícia Nacional Boliviana por meio do “Programa de Táticas de Controle de Distúrbios”.
A representante do Escritório de Assuntos Internacionais de Narcóticos e Aplicação da Lei dos Estados Unidos (INL), Liv Kilpatrick, celebrou a cooperação bilateral, segundo o jornal boliviano La Patria.
“Muitíssimo obrigada à Polícia Estadual da Pensilvânia por vir treinar a Polícia Nacional Boliviana em táticas de controle de distúrbios nas cidades de La Paz, Cochabamba e Santa Cruz. Compartilhamos o objetivo de proteger a segurança e a democracia em nosso hemisfério”, afirmou Liv Kilpatrick.
Relatório americano
A cooperação ocorre simultaneamente ao envio de um relatório do governo dos Estados Unidos ao Congresso dos Estados Unidos. A gestão do presidente Donald Trump classificou a Bolívia como um dos principais países produtores e de trânsito de drogas ilícitas no mundo.
O documento apontou que a Bolívia falhou em demonstrar esforços substanciais nos últimos 12 meses para cumprir acordos internacionais e normas do Código dos Estados Unidos no combate ao narcotráfico. No entanto, a gestão americana ressaltou que manter a assistência à Bolívia, Mianmar e Colômbia é vital para os interesses de segurança dos Estados Unidos.
“Após décadas de governos socialistas ineptos, os Estados Unidos acolheram com satisfação a escolha democrática do povo boliviano nas eleições de 2025 e a oportunidade de abrir um novo capítulo nas relações entre os Estados Unidos e a Bolívia sob a presidência de Rodrigo Paz. A cooperação entre a Bolívia e os Estados Unidos expandiu-se significativamente no último ano, e saúdo a retomada da coordenação policial entre nossos governos para combater a produção ilícita de drogas e as redes criminosas”, informou o relatório da gestão Trump.
Parceria e metas
O documento citou como demonstração da aliança entre os países a extradição do traficante uruguaio Sebastián Marset, ligado ao PCC, enviando o criminoso para os Estados Unidos em março deste ano.
Apesar dos avanços, a Casa Branca emitiu um alerta sobre os desafios estruturais que ainda persistem no país sul-americano.
“No entanto, o novo governo ainda não teve tempo suficiente para reduzir o cultivo de coca, que aumentou durante o governo anterior. A corrupção na Bolívia continua a facilitar o tráfico de drogas e a dificultar as investigações”, alertou o governo dos Estados Unidos.
“Se a Bolívia demonstrar progresso na redução da produção ilícita de drogas no próximo ano e avançar substancialmente no combate à corrupção endêmica que a enfraquece, considerarei reavaliar seu status de país que falhou comprovadamente em cumprir seus compromissos de combate às drogas”, concluiu o relatório.










