Meio ambiente Povos tradicionais e agricultores levam 46 propostas de desenvolvimento sustentável às eleições

Povos tradicionais e agricultores levam 46 propostas de desenvolvimento sustentável às eleições

Foto: Christian Braga

Mais de 40 organizações voltadas à sociobioeconomia lançaram a campanha “Sociobio nas Urnas”, reunindo povos indígenas, quilombolas, comunidades tradicionais e agricultores familiares. A iniciativa apresenta 46 propostas concretas de políticas públicas para os candidatos das Eleições 2026, estruturadas em 8 eixos temáticos.

O lançamento conta com o apoio dos chefs de cozinha Rodrigo Oliveira, do restaurante Mocotó, Bel Coelho, Neide Rigo e Adriana Salay, que assinam o documento reconhecendo a floresta em pé como fonte da gastronomia, da identidade nacional e de um projeto de futuro para o país.

Sob o lema “Deixa a sociobio crescer”, a carta aberta pede aos postulantes o compromisso público de criar ou alterar normas para que a economia da sociobiodiversidade tenha acesso às mesmas condições de crédito, infraestrutura, fomento e regulação sanitária garantidas há décadas aos modelos produtivos convencionais.

Desigualdade no crédito rural

O documento aponta uma desproporção histórica no financiamento do setor agrícola. Entre 2013 e 2025, 91,6% do crédito rural foram aplicados em médios e grandes produtores, restando apenas 8,4% para a agricultura familiar. No âmbito do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), voltado aos pequenos agricultores, a disparidade se repete, com a destinação de R$ 151,7 bilhões para a produção de commodities contra R$ 3,26 bilhões repassados à sociobio entre 2020 e 2024, o que representa uma diferença de 46,5 vezes.

“Há uma assimetria histórica nas políticas públicas, nos incentivos e nos recursos destinados aos diferentes modelos de uso da terra, e precisamos corrigi-la”, afirma Fabíola Zerbini, diretora-executiva da Conexsus.

A dirigente complementa avaliando o potencial econômico da proposta.

“A sociobioeconomia é uma aposta de desenvolvimento econômico para o Brasil: gera renda e riqueza, conserva a biodiversidade e mantém serviços ambientais essenciais para toda a economia. Precisamos de políticas e incentivos à altura desse potencial. É um ganha-ganha para o país.”

Força da economia sustentável

A sociobioeconomia compreende o conjunto de atividades econômicas praticadas por indígenas, quilombolas, comunidades tradicionais e agricultores familiares. O modelo integra diversidade, conhecimento ancestral e inovação a sistemas produtivos locais, promovendo o bem viver e a melhoria da qualidade de vida nos territórios e maretórios.

“A sociobioeconomia já existe, gera renda, trabalho e conserva os territórios, mas ainda enfrenta barreiras que limitam seu potencial. O que estamos propondo é que ela deixe de ser tratada como exceção e passe a ocupar o lugar que merece nas políticas de desenvolvimento do Brasil. Queremos que os candidatos reconheçam essa economia como estratégica e assumam compromissos concretos para fazê-la crescer”, declara Laura Souza, secretária-executiva do Observatório das Economias da Sociobiodiversidade (ÓSocioBio).

Atualmente, os territórios dessas populações cobrem cerca de um quarto do país e mais da metade da Amazônia. Segundo estimativas do ÓSocioBio, o setor movimenta R$ 17,4 bilhões por ano e sustenta 525 mil postos de trabalho.

Garantia dos territórios tradicionais

Os impactos positivos da sociobioeconomia estendem-se a toda a sociedade ao atuar diretamente no combate ao desmatamento, às mudanças climáticas e à desigualdade social. O segmento funciona como a infraestrutura natural da economia brasileira, sustentando o regime de chuvas, a regulação do clima, a fertilidade do solo e a polinização que abastecem o agronegócio e o setor hidrelétrico. Dados do World Resources Institute (WRI) indicam que mais de 95% da área agrícola e 99% das pastagens no Brasil dependem das chuvas reguladas pela cobertura florestal.

“Nessas eleições, o que está em jogo é garantir que os povos e comunidades tradicionais e os agricultores e agricultoras familiares continuem vivendo e produzindo em seus territórios. Não tem sociobioeconomia sem território garantido”, pontua Dione Torquato, secretário-geral do Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS).

Engajamento e apoio popular

As entidades organizadoras apresentarão a pauta aos candidatos ao longo do período eleitoral para colher termos formais de compromisso, que servirão como base para a cobrança de ações durante os futuros mandatos. O lançamento oficial ocorreu pela internet no endereço sociobionasurnas.com.br, onde a carta completa está disponível, além das redes digitais das instituições que integram o ÓSocioBio.

A campanha “Sociobio nas Urnas 2026” possui caráter suprapartidário e articula a rede do ÓSocioBio. Além da assinatura dos candidatos, a população em geral pode declarar apoio participando do abaixo-assinado virtual disponível na plataforma oficial do movimento.

UP Comunicações

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