Ricardo Viveiros A coragem de votar pelo Brasil

A coragem de votar pelo Brasil

Por Ricardo Viveiros (*)

Após a Copa do Mundo, a política volta a ocupar a atenção no Brasil. Teremos, em outubro próximo, eleições aos principais cargos da República: deputados estaduais e federais, senadores, governadores e presidente. Mais do que um rito democrático, uma decisão que influenciará por quatro anos os rumos do país.

A imprensa cumpre seu papel ao trazer informações, comparar propostas, fiscalizar os candidatos e revelar suas trajetórias. Cabe ao eleitor buscar fontes confiáveis, analisar o histórico de cada postulante e resistir à desinformação que costuma marcar as campanhas eleitorais. As fake news já estão por aí, contra e a favor da verdade.

O papel do Congresso

A escolha do Congresso Nacional será tão importante quanto a do presidente da República. Nos últimos anos, estamos vivendo um bizarro e perigoso parlamentarismo. A governabilidade depende da relação de poder entre o Executivo e o Legislativo. Por isso, votar para presidente e desmerecer os candidatos às casas parlamentares é irresponsabilidade com a democracia.

Na disputa pelo Palácio do Planalto, diferentes perfis se apresentam ao eleitorado. Há nomes ligados ao velho “coronelismo” agrário, como Ronaldo Caiado (PSD); representantes do discurso vazio na economia, como Romeu Zema (Novo); candidaturas da “terceira via” sem programa claro, como do escritor de autoajuda Augusto Cury (Avante) e de oportunistas oriundos de estranhos movimentos políticos recentes, como Renan Santos (Missão). Isso considerando apenas os que já pontuam nas pesquisas, pois há alguns outros.

Perfis da disputa

Temos lideranças com estilos e programas bem conhecidos. Flávio Bolsonaro (PL) representa um grupo que se destaca na extrema direita brasileira, mesmo sob constantes escândalos e submissão a líderes estrangeiros. Seu discurso é o mesmo do pai, que está inelegível e preso cumprindo penas sob privação da liberdade. Luiz Inácio Lula da Silva (PT) simboliza um projeto que marcou a política nacional nas últimas décadas, acumulando tanto amplo apoio popular quanto críticas e controvérsias. Lula, além de defender a soberania nacional, traz políticas de inclusão, estabilidade econômica, valorização do salário-mínimo e investimentos no social.

Cada candidatura desperta simpatias e rejeições. Nenhum político está acima do exame público, assim como nenhum deve ser julgado apenas por slogans, campanhas nas redes sociais ou narrativas construídas por adversários. O que importa é confrontar discursos com resultados, promessas com capacidade de execução e biografias com fatos conhecidos. Fatos, não versões deles.

Desafios do país

O Brasil enfrenta muitos desafios. Crescimento econômico, combate às desigualdades, segurança, melhoria da saúde pública, fortalecimento da educação, preservação ambiental, geração de empregos e equilíbrio das contas públicas continuarão exigindo vontade política em decisões difíceis. Não há soluções simples para problemas complexos, nem “salvadores da pátria” capazes de governar sozinhos.

A democracia pressupõe escolhas conscientes. O voto não pode ser movido apenas pela emoção, revolta momentânea ou fidelidade cega a lideranças políticas. Exige reflexão, responsabilidade e interesse para avaliar propostas, alianças, histórico judicial e criminal (à luz da Lei da Ficha Limpa), contábil e fiscal (prestações de contas), desempenho político, trajetória profissional/pessoal e compromisso com princípios democráticos. Sem influência das fake news.

Critérios essenciais para a avaliação do eleitor:

  • Análise do histórico judicial e criminal à luz da Lei da Ficha Limpa.
  • Verificação da regularidade contábil e fiscal nas prestações de contas.
  • Avaliação da trajetória profissional, pessoal e desempenho político prévio.
  • Exame do compromisso real com princípios e instituições democráticas.

O peso da escolha

Mais do que escolher um governante, o eleitor decidirá qual projeto de país deseja construir. A escolha não termina no dia da votação. Ela continua na fiscalização permanente dos eleitos, na cobrança por transparência e na participação ativa da sociedade.

O voto é o instrumento mais poderoso de uma democracia. Pode fortalecer instituições, impulsionar políticas públicas e promover mudanças positivas. Quando exercido sem responsabilidade, pode premiar o radicalismo, o despreparo, o oportunismo, a roubalheira e a desinformação.

Candidatos e campanhas passarão. O Brasil ficará. Serão os brasileiros, com suas escolhas, os principais responsáveis por escrever o próximo capítulo da história nacional. Seguir progressista, ou mergulhar no atraso.

(*) é jornalista, professor e escritor, é doutor em Educação, Arte e História da Cultura (UPM); membro da Academia Paulista de Educação (APE) e conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa (ABI); autor, entre outros livros, de A vila que descobriu o Brasil, Memórias de um tempo obscuro e “O sol brilhou à noite”.

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