Juscelino Taketomi SELEÇÃO BRASILEIRA: O apocalipse vestiu azul

SELEÇÃO BRASILEIRA: O apocalipse vestiu azul

Por Juscelino Taketomi

Desde tempos imemoriais, o brasileiro sempre foi um povo criativo. Inventou o jeitinho, transformou fila em confraternização e conseguiu a proeza de discutir futebol, política e escatologia bíblica na mesma roda de conversa. Mas, agora, em tempos de Copa do Mundo e nova corrida em busca do hexa, resolveu acrescentar mais um ingrediente ao caldeirão nacional: a demonologia esportiva.

Tudo começou quando a camisa azul da Seleção Brasileira deixou de ser apenas a segunda opção do uniforme e passou a ser tratada, por alguns setores mais inflamados da fé tropical, como uma espécie de manto oficial das trevas.

Em Manaus, por exemplo, há relatos de pastores orientando os fiéis a comprarem apenas a tradicional verde-amarela, evitando a azul, agora promovida à categoria de “camisa demoníaca”. O marketing do inferno nunca esteve tão eficiente.

É curioso observar a trajetória dessa acusação. Durante décadas, a camisa azul foi apenas azul. Vestiu craques, participou de Copas do Mundo, foi celebrada em vitórias históricas, como a conquista da Copa de 1958, com Pelé e Garrincha,  e sobreviveu a derrotas humilhantes sem jamais despertar suspeitas metafísicas. Mas, neste ano de 2026, bastou uma sequência de vídeos nas redes sociais para que o tecido sintético ganhasse propriedades ocultas dignas de um artefato amaldiçoado encontrado numa tumba egípcia.

A grande estrela da polêmica atende pelo nome de Baphomet. A ironia é que muitos dos que hoje apontam o dedo para a suposta presença do bode infernal talvez desconheçam que a imagem clássica do Baphomet não nasceu em nenhum ritual satânico secreto transmitido por streaming.

Ela foi criada em 1854 pelo ocultista francês Éliphas Lévi para ilustrar seu livro Dogma e Ritual da Alta Magia. A famosa figura, cabeça de bode, asas, seios, tocha sobre a cabeça e pentagrama na testa, foi concebida como uma representação simbólica da união dos opostos: masculino e feminino, humano e animal, luz e sombra. O ocultista jamais imaginou que a sua criação fosse acabar como logotipo oficial do departamento de uniformes da Seleção Brasileira no século XXI.

A história é fascinante porque revela como símbolos mudam de significado conforme atravessam épocas e imaginários coletivos. O Baphomet de Lévi era uma alegoria esotérica complexa. A internet o transformou em figurante fixo de teorias malucas ou conspiratórias. E, no Brasil, ele conseguiu a façanha inédita de disputar espaço com pontas habilidosos e centroavantes na escalação da Seleção.

Imagino a cena nos céus. São Pedro, conferindo a entrada dos recém-chegados, pergunta:

Filho, quais foram suas obras na Terra? “Evitei a camisa azul”. E São Pedro: bom você agiu certo, mas fez mais alguma coisa? “Compartilhei vídeos alertando sobre o perigo cromático”.

Enquanto isso, em algum lugar do além, o próprio Baphomet, muito confuso, lamentou:

“Passei mais de 170 anos sendo debatido em tratados sobre ocultismo, simbolismo e filosofia. Jamais imaginei que acabaria acusado de interferir no setor têxtil esportivo brasileiro”.

Talvez essa controvérsia diga menos sobre uma camisa e mais sobre nosso irresistível talento para dramatizar tudo. No país em que técnico de futebol é demitido antes de desfazer as malas, juiz é analisado em câmera lenta por milhões de especialistas e o VAR é tratado como instrumento do destino, era apenas questão de tempo até que a fé entrasse na discussão sobre o guarda-roupa da Seleção Canarinho.

E vamos em frente, correndo atrás do hexacampeonato: alguns vestindo verde-amarelo por patriotismo, outros azul por preferência estética, outros qualquer uma das duas porque estavam em promoção no comércio perto de casa.

Apesar das batalhas espirituais travadas nos grupos de WhatsApp, a verdade inconveniente é que a maior ameaça ao torcedor brasileiro nunca foi uma camisa azul com supostos símbolos ocultos. A ameaça tem sido, há algum tempo, os noventa minutos em campo mesmo.

No Brasil, a camisa azul virou suspeita, a verde-amarela virou certificado de ortodoxia e o pobre Baphomet acabou convocado para a Seleção sem nunca ter acertado um passe sequer. E o torcedor, coitado, vai fazendo o que sabe de melhor: sofrer nas arquibancadas da vida procurando explicações sobrenaturais para aquilo que, às vezes, é só futebol.

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