
A abertura do 68º Festival Folclórico do Amazonas, realizada na noite da última quinta-feira(5/6), no Centro Cultural dos Povos da Amazônia (CCPA), recoloca a cultura popular no centro dos debates em Manaus.
O evento, que se estende até o dia 20 de junho com apresentações gratuitas das categorias Bronze e Prata, reflete a resistência de uma identidade construída por gerações de brincantes.
No entanto, por trás das cores das quadrilhas, cirandas e danças nordestinas, o cenário exige uma análise equilibrada sobre a dependência dos grupos em relação ao orçamento municipal e os impactos reais do fomento na base comunitária.
O festival deste ano ganha contornos de teste para a atual gestão da Fundação Municipal de Cultura, Turismo e Eventos (ManausCult). O direcionamento de recursos públicos serve tanto de motor para o resgate de agremiações históricas quanto de alerta para a necessidade de um planejamento que garanta a sustentabilidade desses grupos além do período junino.
Impacto financeiro nos grupos
O grande diferencial apontado na edição de 2026 reside no volume total dos repasses financeiros direcionados às agremiações de acesso. O investimento injetado na economia criativa local busca dar fôlego para grupos que enfrentam altos custos com figurinos, adereços e ensaios ao longo de todo o ano.
- Categoria Prata recebeu o valor individual de R$ 21.780 para cada uma das agremiações, totalizando um investimento de R$ 1.023.660 por parte do município.
- Categoria Bronze contou com o repasse individual de R$ 9.680 por grupo folclórico, alcançando a soma de R$ 406.560 destinados ao incentivo básico.
“A Prefeitura de Manaus tem trabalhado para fortalecer cada vez mais o movimento folclórico, garantindo apoio, incentivo e valorização para os grupos das categorias Bronze e Prata”, afirmou o diretor-presidente da ManausCult, Márcio Braz.
Resistência e renovação comunitária
Para além das cifras governamentais, o festival se sustenta no tecido social das periferias de Manaus. O retorno de grupos tradicionais, como a Dança Nordestina Cangaceiros de Thianguá após duas décadas de ausência, evidencia que a paixão popular é o verdadeiro oxigênio do evento.
O processo de formação de novos brincantes atua diretamente como ferramenta de inclusão social em diversas zonas da cidade.
“Nós começamos do zero, tivemos que juntar todos os brincantes”, relatou a presidente da agremiação, Katia Carlucho, ao descrever o esforço de lapidar novos talentos para a arena do Centro Cultural dos Povos da Amazônia.
A presença de veteranos que vivenciaram a época das apresentações no antigo tablado de madeira na bola da Suframa, ao lado de jovens que celebram o acesso de suas quadrilhas para os anos seguintes, mostra que o festival sobrevive pela transmissão de saberes familiares.
Dependência do apoio oficial
O entusiasmo manifestado pela Liga Independente dos Grupos Folclóricos de Manaus corrobora a importância da parceria institucional. O presidente da liga, José de Arimateia, ressaltou o empenho coletivo e o suporte financeiro viabilizado pelo prefeito Renato Junior para a consolidação desta temporada.
Contudo, sob uma ótica estritamente administrativa, essa forte dependência dos repasses públicos sazonais acende o debate sobre a autonomia financeira do movimento folclórico. A falta de mecanismos de patrocínio privado e de incentivos fiscais contínuos deixa o setor vulnerável a oscilações políticas e orçamentárias.
Encontrar o equilíbrio entre o fomento estatal indispensável e a profissionalização mercadológica das agremiações continua sendo o principal desafio para assegurar o futuro do folclore amazonense.
Fonte: ASCOM | Emile Souza/ Semcom










