
A política brasileira não é um exercício de vontade popular, mas um teatro de sombras onde o eleitor desempenha o papel de figurante enganado. O recente voto da senadora Soraya Thronicke (PSB-MS) contra o relatório da CPI do Crime Organizado em abril de 2026 é apenas a ponta de um iceberg de traição ontológica.
Quem olha para a trajetória da parlamentar, que ascendeu ao poder surfando na onda conservadora de 2018 e chegou a ser vice-líder do governo Bolsonaro, percebe que a mudança de lado não foi um acidente de percurso. Foi uma adaptação biológica ao ecossistema de Brasília.
Ao impedir o indiciamento de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), ela não apenas virou as costas para quem a elegeu, mas beijou a mão do senhor de turno em troca de sobrevivência na nomenklatura.
Metamorfose política
O fenômeno da “nova direita” de 2018 produziu uma série de personagens que, uma vez instalados no carpete verde, revelaram a consistência moral de uma gelatina. Não se trata de mudança de opinião, mas de uma fraude original.
Figuras como Joice Hasselmann e Alexandre Frota são exemplos clássicos dessa ocupação de espaços por oportunistas sem base intelectual ou compromisso real.
Hasselmann, que conquistou mais de um milhão de votos em São Paulo, terminou sua carreira política mendigando migalhas eleitorais após se tornar uma das principais operadoras do cerco contra seus antigos aliados.
O caso de Heitor Freire (Podemos-CE) atinge o ápice do cinismo. O homem que se apresentava como o federal de Jair Bolsonaro e pedia a extinção do PT na Justiça acabou confortavelmente instalado em uma diretoria da Sudene sob a bênção do governo Lula em 2023.
Essa gente não possui uma visão de mundo. Eles possuem um inventário de interesses. A facilidade com que migram do conservadorismo para o colo do estamento burocrático prova que a direita brasileira foi, em grande parte, um aglomerado de analfabetos políticos e espertalhões de ocasião.
Cerco institucional
Enquanto as criaturas menores se vendem por cargos, as engrenagens maiores do poder no Senado garantem que nada mude de fato. Rodrigo Pacheco (PSB-MG) e Davi Alcolumbre (UNIÃO-AP) representam a estabilidade do erro.
Eleitos com o apoio direto ou indireto de forças conservadoras, ambos se tornaram os maiores diques de contenção contra qualquer tentativa de frear os abusos da Corte Suprema.
Pacheco arquivou pedidos de impeachment de ministros com a mesma naturalidade com que Alcolumbre, agora novamente no comando da Casa desde fevereiro de 2025, trava pautas de anistia ou investigações contra o abuso de autoridade.
Alerta eleitoral
Essa dinâmica revela uma verdade incômoda que o eleitor precisará enfrentar no pleito de 2026. A eleição de muitos nomes associados à direita não garante fidelidade às causas.
- Ilusão numérica: eleger uma maioria nominalmente de direita não garante a execução de uma pauta se os nomes escolhidos forem apenas simulacros de oposição.
- Cooptação pelo centrão: a estrutura do Congresso Nacional foi desenhada para moer convicções e transformar rebeldes em despachantes de luxo do poder.
- Papel do Senado: a Casa que deveria ser o freio da República tornou-se o depósito de processos de impeachment engavetados.
O alerta para o próximo pleito é urgente. Se o critério de escolha continuar sendo o grito mais alto nas redes sociais ou a associação puramente estética a líderes populares, o resultado será o mesmo.
O estamento burocrático agradece a ingenuidade de quem acredita que um CPF na urna muda a alma de um sistema desenhado para se autopreservar.
Sem uma base intelectual sólida e um compromisso que vá além do mandato, o político brasileiro médio continuará sendo apenas um idiota útil a serviço de quem realmente manda no país.
“Jamais desviaria do meu compromisso com as pessoas que confiaram seus votos a mim”, disse Soraya Thronicke em 2021.










