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AM-010 segue em colapso e vídeo viral mostra o que relatórios já alertavam

Foto: Reprodulçao

A paciência de quem precisa trafegar pela rodovia AM-010 parece ter chegado ao fim, assim como o asfalto em diversos trechos da estrada que liga Manaus a Itacoatiara. Um vídeo divulgado na manhã deste domingo (1°/2) trouxe à tona não apenas buracos, mas a profunda indignação de quem vive e produz na região. As imagens gravadas nas proximidades do município de Rio Preto da Eva revelam um cenário de destruição que persiste mesmo após graves alertas de órgãos de controle feitos anos atrás.

O registro foi feito pelo piscicultor Alexandre Honczaryk (@fazenda_santo_antonio), que utilizou a ironia para denunciar o perigo iminente na via. O trecho filmado faz parte da primeira frente de obras, que compreende do quilômetro 13 ao 76,8. A realidade no local é uma “pista de obstáculos” que coloca em risco a vida de motoristas e o escoamento da produção local.

A ironia como arma contra o descaso

No vídeo que circula entre grupos de produtores rurais, a fala de Alexandre ecoa o sentimento de revolta coletiva. Ao se deparar com a precariedade da pista, ele disparou uma pergunta retórica que expõe a falha gestão da infraestrutura estadual.

“Só queria saber quando o governador pretende inaugurar a terceira pista da AM-010 nos 14 km antes do rio preto da Eva!”, afirmou o piscicultor, referindo-se ironicamente ao acostamento destruído que obriga motoristas a manobras arriscadas.

A repercussão foi imediata. Outro usuário da rodovia, em um grupo de mensagens, reforçou o coro de indignação diante das imagens.

“Esse trecho é de chorar, um total descaso”, desabafou.

O alerta de R$ 24,5 milhões ignorado desde 2024

A situação atual da rodovia se torna ainda mais revoltante quando se recupera o histórico de irregularidades da obra. Em setembro de 2024, uma auditoria da Controladoria-Geral da União (CGU) já havia jogado luz sobre o mau uso do dinheiro público na AM-010. Naquela época, o órgão identificou um superfaturamento e sobrepreço que somavam a quantia alarmante de R$ 24,5 milhões.

O relatório da CGU, divulgado pela site Rio Mar FM, detalhava para onde o dinheiro estava indo. Foram identificados mais de R$ 16 milhões em sobrepreço apenas sob a justificativa de “manutenção do equilíbrio econômico e financeiro” e outros R$ 8,1 milhões em serviços desnecessários. Quase um ano e meio depois desse relatório, o vídeo deste domingo mostra que a sangria nos cofres públicos não se converteu em melhorias na pista.

Um histórico de prazos estourados e promessas rompidas

A obra de reconstrução da AM-010 carrega um histórico vergonhoso. Inicialmente, a entrega estava prevista para o primeiro semestre de 2023. O calendário avançou, os anos passaram, e a nova previsão aponta apenas para o final de 2026, acumulando mais de três anos de atraso.

O mais grave é que acordos formais seguem sendo ignorados. O professor e engenheiro civil, Marcos Maurício, especialista que acompanha o caso, relembrou que houve um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) celebrado entre o Ministério Público do Amazonas (MPAM) e a Secretaria de Estado de Infraestrutura (Seinfra).

“Eles também não cumpriram o novo prazo, que era dezembro de 2025, firmado inclusive em um TAC com o MPAM”, alertou o especialista.

O diagnóstico técnico que ninguém ouviu

Não é de hoje que especialistas avisam sobre o colapso da rodovia. Em outubro de 2025, uma vistoria técnica realizada pelo Grupo de Trabalho de Rodovias da Associação Brasileira de Engenheiros Civis do Amazonas (ABENC-AM) já havia diagnosticado a gravidade da situação.

Sob a coordenação do engenheiro civil Afonso Lins, a equipe percorreu os trechos críticos e constatou o que os motoristas sentem na pele diariamente. O engenheiro Orlando Holanda, integrante do grupo, foi taxativo em sua análise na época.

“Foram observadas diversas patologias no pavimento, principalmente no primeiro trecho, até o Km 77. É urgente que o Governo do Amazonas realize serviços paliativos de manutenção enquanto as obras de reconstrução não avançam”, afirmou Holanda.

O relatório técnico apontou falhas básicas, como a ausência da camada final de asfalto e a falta de dispositivos de drenagem, o que condena a durabilidade de qualquer serviço feito no local.

A necessidade urgente de retomar o controle

Diante deste cenário caótico onde o dinheiro escorre e o asfalto não fica, ganha força a discussão sobre a gestão rodoviária no estado. Para Marcos Maurício, a situação da AM-010 é a prova cabal da falência do modelo atual. Ele defende a recriação do Departamento de Estradas de Rodagem do Amazonas (DER-AM) como uma medida vital para garantir a manutenção constante das vias com rigor técnico e fiscalização séria.

Enquanto a burocracia discute novos prazos, a população do Amazonas continua pagando a conta e arriscando a vida em uma rodovia que deveria ser vetor de desenvolvimento.

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