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Turismo internacional cresce no Amazonas e expõe desafios para hotéis em plena floresta

Empresária do setor hoteleiro e proprietária do Manati Lodge, Marília Costa – Foto: Divulgação/ ASCOM

Empreender na Amazônia significa gerenciar um negócio em um território expansivo em que distâncias, condições dos rios, estradas, clima e acesso interferem diretamente na rotina operacional das empresas. No setor hoteleiro, especialmente em estabelecimentos localizados no coração da floresta, essas particularidades regionais influenciam desde o abastecimento básico até a segurança física e a qualidade da experiência oferecida aos hóspedes.

Esse desafio logístico ocorre em um momento de expressiva expansão do turismo internacional no estado do Amazonas. De acordo com dados oficiais divulgados pela Empresa Brasileira de Promoção Internacional do Turismo (EMBRATUR), o estado registrou a entrada de 37.009 turistas estrangeiros em 2025, representando uma alta de 29,79% em comparação aos 28.514 visitantes contabilizados em 2024.

Os números confirmam o elevado potencial econômico do setor e reforçam a necessidade urgente de infraestrutura adequada para atender a uma demanda crescente em uma região marcada por particularidades climáticas e geográficas.

Para a empresária do setor hoteleiro e proprietária do Manati Lodge, Marília Costa, a logística amazônica impõe uma dinâmica totalmente diferente daquela encontrada em outras partes do país.

“Empreender na Amazônia exige uma capacidade de planejamento muito diferente de outras regiões do país. Aqui, distância não pode ser medida apenas em quilômetros. Precisamos considerar condições das estradas, nível dos rios, disponibilidade de transporte, sazonalidade, clima e tempo de deslocamento”, afirma a empresária.

Planejamento na hotelaria florestal

A operação diária de um hotel de selva exige um planejamento antecedente minucioso. Itens essenciais precisam ser programados com bastante antecedência para garantir a continuidade dos serviços prestados.

A complexidade do abastecimento envolve a gestão preventiva dos seguintes insumos:

  • Alimentos perecíveis e bebidas de consumo contínuo;
  • Combustível e gás para o funcionamento das instalações;
  • Enxoval completo, equipamentos e materiais de manutenção preventiva.

Essa logística diferenciada impacta diretamente os custos operacionais do empreendimento, uma vez que o valor final de um produto não se limita ao preço pago no momento da compra junto ao fornecedor.

“Dependendo do período do ano, esse transporte pode envolver diferentes veículos, embarcações, combustível, mão de obra para carga e descarga e um planejamento muito mais cuidadoso. Há ainda produtos perecíveis, que exigem atenção especial para preservar qualidade e segurança alimentar”, explica a proprietária do Manati Lodge.

Desafios da seca severa

Os períodos de seca severa agravam sensivelmente os desafios de gestão na região. Com a redução expressiva do nível dos rios, rotas tradicionais de navegação deixam de ser utilizadas ou precisam passar por adaptações operacionais, tornando os trajetos mais longos e dificultando o acesso de determinadas embarcações. Nos últimos anos, esse quadro crítico provocou inclusive a interrupção temporária de algumas atividades do Manati Lodge.

“Essa é uma decisão difícil para qualquer empresário, mas segurança precisa estar acima de qualquer consideração comercial. Quando entendemos que não conseguimos mais oferecer ao hóspede a experiência, a logística e a segurança dentro do padrão que estabelecemos para o Manati, precisamos ter responsabilidade para reconhecer os limites impostos pela natureza”, destaca a gestora.

Gestão de riscos climáticos

Fenômenos climáticos como o El Niño passaram a integrar de forma permanente as variáveis estratégicas consideradas pela empresa. Em uma atividade econômica dependente das condições ambientais e da navegabilidade dos rios, o acompanhamento rigoroso de previsões meteorológicas e tendências permite antecipar riscos e adotar rotas alternativas.

“Fenômenos climáticos como o El Niño demonstram de forma muito clara como a hotelaria de selva está diretamente conectada ao comportamento da natureza. Nós não temos controle sobre o clima, mas temos obrigação de entender os riscos e planejar a operação considerando diferentes cenários”, ressalta Marília Costa.

A experiência acumulada ao longo dos últimos anos levou o empreendimento a reforçar medidas de prevenção em seu modelo de gestão:

  • Monitoramento diário e contínuo do comportamento e nível dos rios;
  • Organização estratégica de estoques para períodos críticos;
  • Definição prévia de alternativas logísticas para transporte de insumos e hóspedes.

Com essas ações, a gestão de risco climático passou a compor o núcleo das decisões estratégicas do negócio.

Sustentabilidade e eficiência operacional

A adaptação contínua às condições amazônicas está diretamente associada à busca por uma operação mais sustentável, autossuficiente e eficiente.

No Manati Lodge, o plano de ações ecológicas e operacionais engloba medidas estruturadas:

  • Gestão consciente de energia e implementação de biodigestor;
  • Programas de gestão de resíduos sólidos e redução sistemática de desperdícios;
  • Manutenção preventiva constante e parceria com fornecedores alternativos.

“Também temos buscado tornar nossa operação mais autossuficiente e sustentável. Isso envolve iniciativas relacionadas a energia, gestão de resíduos, biodigestor, redução de desperdícios e um olhar cada vez maior sobre eficiência operacional”, aponta a empresária.

Gargalos de infraestrutura regional

Apesar do grande potencial do destino, existem gargalos estruturais históricos que dificultam a expansão dos negócios locais. Além dos fatores ambientais, a empresária destaca desafios ligados à rotina empresarial na floresta.

Os principais obstáculos enfrentados no cotidiano incluem:

  • Dificuldade na formação e retenção de mão de obra qualificada;
  • Instabilidade no fornecimento de energia e na conectividade com acesso à internet;
  • Limitação na disponibilidade de fornecedores especializados no interior.

“A Amazônia tem um dos produtos turísticos mais extraordinários do planeta, mas ainda enfrentamos gargalos básicos de infraestrutura, promoção, conectividade e acesso. Não podemos reproduzir na Amazônia modelos turísticos desenvolvidos para outros destinos. Precisamos de soluções amazônicas para desafios amazônicos”, defende a proprietária.

Desenvolvimento com conservação ambiental

Na avaliação da especialista, elevar a competitividade do turismo regional exige um conjunto de investimentos prioritários por parte do poder público e do setor privado.

As melhorias necessárias para o avanço do setor contemplam:

  • Infraestrutura adequada de acesso e fortalecimento do transporte regional;
  • Ampliação da conectividade digital e garantia de segurança pública;
  • Qualificação profissional contínua e promoção internacional do destino;
  • Criação de linhas de financiamento específicas para as particularidades da Amazônia.

Para Marília Costa, o fortalecimento da atividade turística deve caminhar lado a lado com a preservação do meio ambiente, a geração de emprego e a inclusão das populações locais.

“O desafio é transformar essa riqueza natural em desenvolvimento econômico sem destruir justamente aquilo que torna a Amazônia única. É por isso que defendo um modelo de turismo no qual floresta em pé, geração de renda, valorização das comunidades e desenvolvimento empresarial caminhem juntos”, afirma a empresária.

“Empreender na Amazônia é difícil. Mas também é uma oportunidade extraordinária de demonstrar que desenvolvimento e conservação não precisam estar em lados opostos. No Manati, é esse caminho que estamos buscando construir”, conclui a proprietária Marília Costa.

LD Comunicação 

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