
A tribuna da Câmara Municipal de Manaus (CMM) transformou-se em um espelho das contradições que marcam a gestão pública na capital amazonense durante a sessão desta terça-feira (9/6).
No Grande Expediente, os discursos parlamentares dividiram-se entre a exaltação das obras de engenharia urbana e a denúncia de uma crise humanitária silenciosa que atinge os trabalhadores da saúde. Esse cenário joga luz sobre a necessidade urgente de equilibrar os investimentos em asfalto com a valorização real das pessoas que fazem os serviços essenciais funcionar.
Inverno e infraestrutura
O debate sobre a infraestrutura urbana ganhou destaque com a análise das medidas adotadas para conter os estragos provocados pelas fortes chuvas nas áreas periféricas. A aplicação de geomantas em barrancos e encostas foi apontada como uma alternativa tecnológica eficiente para conter erosões e evitar tragédias humanas nos bairros de relevo acidentado.
No entanto, a eficácia das grandes intervenções de engenharia esbarra em um problema crônico de educação sanitária que desafia o poder público. O descarte incorreto de resíduos sólidos nas ruas e canais entope bueiros e acelera o transbordamento de igarapés durante o rigoroso inverno amazônico.
Descarte irregular
A gravidade do problema ambiental exige a união de esforços entre o planejamento da prefeitura e a mudança de hábitos da própria comunidade. O lixo jogado nas vias públicas anula parte das ações preventivas de drenagem e conservação.
“O descarte irregular de resíduos ainda impacta diretamente os igarapés e a qualidade de vida da população. É importante que os investimentos em infraestrutura continuem, mas também que haja conscientização para preservar a cidade e reduzir os problemas causados durante o período de chuvas”, destacou o vereador Elan Alencar (Avante) ao cobrar maior envolvimento comunitário na zeladoria dos bairros.
Crise na saúde
Por outro lado, o plenário foi tomado pela indignação ao abordar a realidade dos profissionais da saúde da rede pública estadual, que recorreram ao parlamento municipal para denunciar atrasos salariais graves. Médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem enfrentam uma rotina exaustiva de plantões sem a garantia mínima de receber seus vencimentos em dia, o que compromete a subsistência de suas famílias e a própria qualidade do atendimento nos hospitais.
Cobrança por respostas
A denúncia apresentada na tribuna cobra uma postura firme dos órgãos de fiscalização e controle sobre o fluxo de repasses e contratos com as empresas que gerenciam a mão de obra da saúde. A situação atual penaliza justamente a categoria que atua na linha de frente dos hospitais públicos.
“Os servidores públicos estão fazendo plantões de 12 e 24 horas e enfrentando dificuldades até para garantir a própria alimentação. Essa situação é um absurdo e já havia sido alertada nesta tribuna. Os profissionais da saúde estão sendo prejudicados e precisam de uma resposta urgente”, declarou o vereador Sérgio Baré (PRD) sobre a precariedade vivida nos plantões.
A análise fria dos acontecimentos políticos mostra que o desenvolvimento de Manaus não pode ser medido apenas por metros quadrados de encostas protegidas ou ruas pavimentadas. Uma cidade resiliente exige infraestrutura de qualidade, mas depende fundamentalmente do respeito à dignidade dos profissionais que cuidam da vida da população.










