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Comentário em programa de TV alimenta notícia falsa sobre Flávio Bolsonaro e Nossa Senhora Aparecida

Flávio Bolsonaro - Foto: André Coelho/EFE

A disseminação de informações falsas envolvendo sentimentos religiosos voltou a ocupar o centro do debate político eleitoral, expondo a vulnerabilidade das redes sociais e a velocidade com que narrativas descontextualizadas se transformam em munição partidária. A controvérsia recente envolvendo o candidato à Presidência da República pelo Partido Liberal (PL), Flávio Bolsonaro, e uma suposta intenção de retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil, ilustra como erros de apuração e a exploração tática da fé podem alimentar crises de grandes proporções.

Origem do boato

A crise teve início a partir de uma informação incorreta veiculada durante o programa “Em Pauta”, da emissora GloboNews, pela jornalista Maria Cristina Fernandes. Ao comentar o cenário político, a profissional associou o candidato a um projeto de lei voltado à alteração do status da padroeira nacional. Contudo, a proposta em questão havia sido apresentada em 2007 pelo então deputado federal Professor Victório Galli e acabou arquivada pela Câmara dos Deputados ainda em 2008.

Embora a GloboNews tenha reconhecido o equívoco, emitido uma retratação pública e o próprio candidato tenha negado imediatamente qualquer ligação com a pauta, a narrativa ganhou dinâmica própria. Um levantamento realizado pela empresa Palver e publicado pelo jornal Folha de S. Paulo apontou que cerca de 37% das mensagens analisadas sobre o tema tratavam o conteúdo falso como verídico. O pico de circulação foi registrado na sexta-feira (25), alcançando a marca de 735 menções ao assunto para cada 100 mil mensagens em redes virtuais.

Confira o vídeo: https://www.instagram.com/reels/DdtmPe9SCxT/

Repercussão na oposição

A retratação do veículo de comunicação e os desmentidos formais não impediram que lideranças políticas da oposição utilizassem o episódio para desgastar a imagem do adversário. Monitoramento feito pela plataforma Brandwatch identificou os perfis públicos de maior engajamento na propagação do tema. A deputada federal Erika Hilton, do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL-SP), liderou o alcance com uma publicação no X que ultrapassou 40 mil curtidas. Apesar de admitir no texto que o projeto datava de 2007 e estava arquivado, a parlamentar sugeriu que a medida poderia retornar à pauta legislativa em uma eventual vitória do grupo político opositor.

O vereador Alessandro Guedes, do Partido dos Trabalhadores (PT-SP), e o deputado federal Ivan Valente (PSOL-SP) também mantiveram o assunto em evidência. Valente questionou publicamente a negativa do candidato em postagem que superou 12 mil visualizações. O movimento ganhou reforço simbólico com a primeira-dama Janja, que publicou foto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva segurando a imagem da padroeira, e com declaração do vice-presidente Geraldo Alckmin.

“Enquanto eu e Lula estivermos governando este país, as tradições religiosas, tão sagradas para nossas famílias, estarão protegidas e preservadas”, afirmou Geraldo Alckmin.

A lista de figuras públicas que impulsionaram o debate inclui ainda Alencar Santana (PT-SP), Pedro Rousseff (PT-MG), Jandira Feghali, do Partido Comunista do Brasil (PCdoB-RJ), Anielle Franco (PT-RJ), Maurici (PT-SP), Rick Azevedo (PSOL-RJ), Divaneide (PT-RN), Leleco Pimentel (PT-MG), Tadeu Veneri (PT-PR), Lohanna, do Partido Verde (PV-MG), Chico Alencar (PSOL-RJ), Padre João (PT-MG), Tarcísio Motta (PSOL-RJ), Miguel Rossetto (PT-RS), Andreia de Jesus (PT-MG), Chico Vigilante (PT-DF) e Jorge Solla (PT-BA).

Atuação no governo

O episódio alcançou a estrutura do Poder Executivo com a participação de George Marques da Silva e Silva, coordenador-geral de Estratégia e Informação da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom). Levantamento do portal Poder360 registrou que o servidor republicou ao menos dez mensagens na sexta-feira (25) reforçando a narrativa falsa e criticando a reação da campanha atingida.

A conduta do servidor foi integrada à representação enviada pela defesa de Flávio Bolsonaro ao Ministério Público Eleitoral (MPE). O levantamento jurídico contabilizou 2.086 publicações distribuídas por 1.674 contas, somando mais de 21 milhões de visualizações em plataformas como X, Facebook, Instagram, TikTok e YouTube. Uma ata notarial digital confirmou o compartilhamento de conteúdos pelo integrante da pasta.

Em sua defesa ao Poder360, George Marques afirmou manter perfil pessoal direcionado a política e humor, alegando não se recordar das postagens e classificando eventuais compartilhamentos como erro involuntário sem endosso ao conteúdo. Em nota oficial, a Secom informou que a conduta ocorreu em conta privada e não reflete a posição institucional do órgão, embora tenha considerado inadequado o uso de perfis pessoais de maneira que possa gerar confusão com a comunicação do governo.

Estratégia de contenção

Para conter os danos à imagem junto ao eleitorado católico e ampliar o diálogo com outros segmentos religiosos, a campanha do candidato do PL organizou uma transmissão ao vivo no sábado (26). A atividade reuniu figuras de vertentes diversas para reforçar o compromisso com a liberdade de culto.

Entre os participantes estiveram Padre Kelmon, candidato a deputado federal pelo PL em São Paulo, o pastor Ramon Lima, o reverendo anglicano Aldo Quintão e o líder de matriz africana Sérgio Pina, conhecido pela relação com a classe artística e também candidato a deputado federal no Rio de Janeiro. A presença de lideranças variadas buscou desarmar a narrativa de intolerância e projetar uma postura de respeito às diferentes manifestações de fé no país.

Decisão e reação

Diante do volume de desinformação, o ministro André Mendonça, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), determinou a remoção das publicações que apresentassem a alegação falsa como fato verdadeiro. A ordem judicial resguardou expressamente matérias jornalísticas, checagens de fatos, sátiras e debates políticos ou religiosos que não afirmassem a veracidade da acusação.

Apesar das ressalvas legais, a determinação passou a ser explorada por opositores nas redes sociais. A expressão “católicos censurados” alcançou os tópicos mais comentados no X, impulsionada por perfis que acusaram a campanha do PL de praticar assédio judicial e censura prévia contra manifestações religiosas. O cenário evidencia a complexidade de combater a desinformação em períodos eleitorais, nos quais medidas de contenção judicial são frequentemente reinterpretadas e utilizadas como nova ferramenta de disputa política.

Fonte: https://www.gazetadopovo.com.br/eleicoes/2026/campanha-flavio-trabalha-conter-crise-gerada-fake-news-nossa-senhora/

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