
O mercado financeiro brasileiro pode estar diante de um dos maiores casos de falsificação patrimonial da história recente, envolvendo créditos de carbono sem validade jurídica, fundos bilionários, auditorias silenciosas e terras públicas griladas no sul do Amazonas.
Levantamento do Valor Econômico revela que a Reag Investimentos divulgou balanços com patrimônio combinado de cerca de R$ 45 bilhões, mesmo sabendo que os ativos que lastreavam esses números deveriam ser zerados.
O epicentro da fraude está na chamada Fazenda Floresta Amazônica, localizada em Apuí (AM) — área que, segundo o Incra, sobrepõe-se majoritariamente ao Projeto de Assentamento Agroextrativista (PAE) Aripuanã-Guariba, portanto terra pública ocupada de forma irregular.
Créditos “verdes” graciosos
Os ativos em questão, batizados de Unidades de Estoque de Carbono (UECs), representariam supostas toneladas de carbono preservadas ao longo de um ano.
No papel, esses créditos foram usados para inflar o patrimônio de fundos e empresas do setor ambiental. Na realidade, segundo especialistas de mercado, tratam-se de ativos podres, sem qualquer validade jurídica ou ambiental.
Em agosto de 2024, o Incra cancelou a matrícula do imóvel, tornando impossível a geração de qualquer ativo ambiental. Em dezembro do mesmo ano, o Valor revelou que 68% da área da fazenda incidia sobre assentamento federal, o que inviabiliza projetos privados de carbono.
Ainda assim, mesmo após a ciência das irregularidades, os ativos continuaram contabilizados como se fossem válidos.
Balanço bilionário
Os fundos ligados à Reag informaram patrimônios que, somados, chegam a R$ 45 bilhões: Global Carbon: R$ 13 bilhões e Golden Green: R$ 31 bilhões.
Os valores são superiores aos de conglomerados industriais tradicionais como Votorantim, Cosan e Vibra, e próximos a gigantes como Vale e JBS — todos lastreados exclusivamente em UECs geradas em área grilada no Amazonas.
Essas empresas são controladas por uma complexa teia de fundos: Régia, New Jade 2, Jade FIP e Jaya FIP, todos convergindo para o fundo Hans 95, que declara patrimônio de R$ 35 bilhões e é investigado na Operação Carbono Oculto, sob suspeita de servir como instrumento financeiro do PCC.
Conexão com Banco Master
Entre os cotistas desses fundos está Henrique Moura Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, instituição hoje em colapso e investigada por fraudes bilionárias.
Os créditos de carbono foram alocados às empresas Global Carbon e Golden Green pela Alliance Participações, pertencente a Henrique Vorcaro e sua filha, Natália Vorcaro Zettel. A operação ocorreu em 2023, quando a Alliance adquiriu direitos sobre parte das UECs supostamente geradas na fazenda em Apuí.
Ou seja: os mesmos nomes que orbitam o escândalo do Banco Master aparecem agora no núcleo de uma fraude ambiental-financeira bilionária, novamente com ativos sem lastro real.
Documentos obtidos pela reportagem do Valor mostram que a KPMG, em relatório de junho de 2023, já alertava para sobreposição da área com registros do Incra e ausência de averbação georreferenciada válida.
Mesmo assim, os ativos foram mantidos nos balanços. Pior: os demonstrativos de 2024 foram auditados e publicados em 2025 sem qualquer baixa, ressalva ou ênfase, apesar de a irregularidade fundiária já ser pública e formalizada.
Os balanços foram auditados pela Conatus, que se recusou a comentar. A Reag e a APS, liquidante da ex-Reag DTVM, também silenciaram.
Uso indevido de universidades
A fraude se aprofunda com o uso indevido de instituições de prestígio. A Unesp negou categoricamente ter participado, validado ou autorizado qualquer metodologia ou uso de seu nome nos projetos de carbono.










