
Em um cenário em que a acessibilidade na educação pública ainda enfrenta grandes desafios, a arte se apresenta como uma possibilidade direta de comunicação, estimulação cognitiva e pertencimento.
Na Escola Estadual Cívico-Militar Fueth Paulo Mourão, situada no bairro São Jorge, em Manaus, o projeto “Corpos que Dançam, Mundos que Sentem” envolveu mais de 100 alunos do ensino regular e da educação especial em uma experiência integrada de dança, artes visuais e música.
Estruturada durante a Semana Nacional da Pessoa com Deficiência Intelectual e Múltipla, a iniciativa ocupou o ambiente escolar com cores, sons, movimentos e escuta, mostrando como a criação artística ressignifica o aprendizado e valida as diferentes formas de sentir o mundo.
A ação pedagógica contribuiu para potencializar o trabalho de acessibilidade desenvolvido na instituição de ensino por meio de uma experiência sensorial única e compartilhada, muito bem recebida pelas crianças e adolescentes. O projeto foi viabilizado pelo “Edital de Fomento Cultural Multilinguagens” (Edital nº 09/2025) da Política Nacional Aldir Blanc em âmbito estadual (PNAB AM), contando com o apoio da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa (SEC AM) e do Governo do Estado do Amazonas.
Oficina de linguagens
A programação do projeto foi desenhada de forma contínua e integrada. No primeiro dia, as oficinas de dança conduzidas por Rayssa Oliveira e Charles Alfaia convidaram os estudantes a explorar o corpo em movimento, a autonomia e o uso do espaço. No dia seguinte, as artes visuais assumiram a cena com as artistas Hadna Abreu e Gisele Riker, estimulando a comunicação não verbal por meio de texturas, tintas e experimentações táteis inspiradas na natureza e na Amazônia.
O auge da programação ocorreu no dia 24 de agosto, quando um happening integrado uniu som, gesto e imagem em tempo real, transformando o ambiente escolar em um espaço de performance coletiva. Por fim, a oficina musical regida por Abner Viana e Matheus Gondim encerrou o ciclo utilizando o ritmo e a escuta ativa como ferramentas neuropsicopedagógicas.
“A arte não tenta padronizar corpos ou comportamentos; pelo contrário, ela valida a singularidade de cada estudante. Quando oferecemos dança, música e pintura a uma criança da Educação Especial em um espaço de convivência com a educação regular, estamos dizendo a ela que sua forma de sentir o mundo é legítima e necessária. O corpo que dança aqui é um corpo que reivindica seu direito à presença”, destacou a artista, professora, doutoranda pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e coordenadora do projeto, Rayssa Deschain.
Convivência sem barreiras
Um dos pontos de destaque da iniciativa foi promover a convivência direta entre alunos da educação especial e do ensino regular ou típico, quebrando estigmas a partir do fazer artístico conjunto. Conceitos de arte, ritmo, dança, música, desenho, cores, escuta coletiva e pertencimento serviram como fio condutor para todas as atividades.
Para o músico, pesquisador e neuropsicopedagogo Abner Viana, a resposta dos estudantes reforça o impacto neurocognitivo e social da abordagem artística na rede pública de ensino.
“A música e o estímulo rítmico funcionam como pontes diretas de comunicação para alunos com deficiência intelectual ou múltipla. Vimos crianças que raramente se engajavam em atividades coletivas encontrarem na música uma forma de expressão. A neuropsicopedagogia aliada à prática musical mostra que não há limites para a aprendizagem quando o canal de acesso é o afeto e a sensibilidade”, afirmou o pesquisador Abner Viana.
Legado e futuro
Além das memórias afetivas registradas pelos estudantes e professores, o projeto gerou um acervo fotográfico e audiovisual produzido por Álvaro Mello, além de uma coordenação pedagógica estruturada por Elton Zhaga. O objetivo das equipes é transformar esses registros em materiais de memória pedagógica que possam servir de referência para a aplicação de práticas inclusivas em outras escolas da região, além de expandir o projeto no ano de 2027.
A artista visual Hadna Abreu refletiu sobre o poder transformador das artes plásticas no contexto amazônico durante as atividades.
“Trabalhar as artes visuais com essas crianças foi um exercício de redescoberta do próprio olhar. O objetivo ali não era utilizar formas prontas, cores e uma porção de materiais, mas conduzi-las a uma conexão com o território. O resultado não foram apenas telas pintadas, mas sorrisos de quem percebeu que pode criar, intervir e ressignificar o espaço onde vive através da arte”, declarou a artista visual Hadna Abreu.
Com o encerramento do projeto, a Escola Estadual Cívico-Militar Fueth Paulo Mourão preserva mais do que registros nas paredes, deixando a marca de que a educação especial no Amazonas é um território vibrante de criação, acolhimento e cidadania.
Ficha técnica completa
Os detalhes técnicos e a equipe responsável pela execução do projeto estão estruturados a seguir:
- Projeto registrado como “Corpos que Dançam, Mundos que Sentem – Vivências inclusivas na educação especial”.
- Coordenação e equipe artística formadas por Rayssa Deschain, Abner Viana, Hadna Abreu e Pablo Araújo.
- Colaboração de Charles Alfaia na dança, Riker Gi nas artes visuais, Matheus Gondim na música e Elton Zhaga na coordenação pedagógica.
- Identidade visual desenvolvida por Arthur Old 78’s.
- Registro fotográfico e audiovisual realizado por Álvaro Mello.
- Fomento cultural viabilizado pelo programa “Política Nacional Aldir Blanc” (PNAB-AM) .via “Edital Multilinguagens” (Edital nº 09/2025) da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa (SEC AM) e Governo do Estado do Amazonas
- Informações adicionais e redes sociais disponíveis no perfil @mundosquesentem
ASCOM: Wanessa Leal










