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O plano para estocar energia do vento e do sol sai do discurso e entra na prática

Revolução verde na energia eólica ganha reforço com tecnologia de baterias gigantes - Foto: Albari Rosa/Gazeta do Povo

O mercado de energia brasileiro está prestes a inaugurar um novo capítulo regulatório e tecnológico. O ministro das Minas e Energia (MME), Alexandre Silveira, anunciou que o governo federal lançará nesta quarta-feira, dia 3 de junho, o edital com as regras do primeiro leilão de baterias do país, previsto para acontecer em dezembro de 2026.

O anúncio, contudo, ganhou tração nas redes sociais e nos portais de notícias não apenas pelo impacto técnico, mas pelo forte componente político adotado pelo chefe da pasta ao associar a medida a uma antiga fala da ex-presidente Dilma Rousseff.

Em 2015, durante um evento da Organização das Nações Unidas (ONU), Dilma virou alvo de piadas e duras críticas da oposição ao discursar sobre a necessidade de se criar uma tecnologia capaz de estocar o vento.

Mais de uma década depois, o governo utiliza a implementação dos sistemas de armazenamento para promover uma espécie de reparação histórica. Silveira declarou no X que chegou o momento que Dilma tanto sonhou e que ela estava certa, classificando a ex-mandatária como visionária por prever o armazenamento da energia gerada pelo vento e pelo sol.

Equilíbrio da rede

Para além da retórica política e da disputa de narrativas, o leilão responde a uma necessidade técnica urgente do setor elétrico nacional. O avanço acelerado das fontes renováveis intermitentes, como a eólica e a solar, trouxe um desafio para o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).

Como o vento e o sol não são constantes, o sistema sofre com oscilações na geração. As chamadas megabaterias funcionam como um colchão de segurança, guardando a energia quando há excedente e injetando a carga na rede nos momentos de pico de consumo ou de calmaria climática.

O projeto piloto desenhado pelo ministério estabelece metas robustas para atrair o capital privado:

  • Capacidade contratada: O governo pretende contratar inicialmente 2 GW de potência em sistemas de armazenamento por baterias, conhecidos internacionalmente pela sigla BESS.
  • Poder de abastecimento: Em termos de escala de consumo, esse volume de potência possui capacidade técnica suficiente para suprir a demanda de uma metrópole de aproximadamente 6 milhões de habitantes.
  • Padrão dos projetos: O modelo exige projetos com potência mínima de 30 MW, com a obrigação de fornecer eletricidade de forma contínua por até quatro horas seguidas.
  • Forma de ganho: A remuneração das empresas vencedoras ocorrerá por disponibilidade. As companhias instalam a infraestrutura, mantêm os equipamentos prontos para o acionamento imediato e recebem uma receita fixa por garantir essa reserva de potência ao país.

Apetite do mercado

Apesar do entusiasmo do governo, os grandes players do setor privado mantêm uma postura de cautela e cobram transparência regulatória. O sucesso do certame de dezembro dependerá da clareza das regras tarifárias e das garantias de retorno financeiro para os investidores, dado o alto custo de importação e manutenção das células de íons de lítio em larga escala.

Grandes corporações nacionais e estrangeiras já se movimentam nos bastidores para avaliar as oportunidades:

  1. Engie Brasil: A subsidiária da multinacional francesa confirmou que possui uma carteira de áreas mapeadas para receber os módulos de baterias. O diretor de renováveis e armazenamento da companhia, Guilherme Ferrari, ponderou que ainda existe muita indefinição no cenário, mas destacou que o grupo possui apetite para o certame, dependendo da resolução das pendências regulatórias nos próximos meses.
  2. Axia: A gigante do setor elétrico, nova denominação da antiga Eletrobras, informou que possui um banco de projetos em desenvolvimento que alcança a marca de 4 GW. O vice-presidente de estratégia e desenvolvimento de negócios da holding, Elio Wolff, ressaltou que o grupo precisa enxergar as regras finais do edital para definir quanto desse volume será efetivamente ofertado no leilão, priorizando a disciplina financeira e a geração de valor.

Pragmatismo técnico

A modernização da matriz elétrica brasileira através do armazenamento em baterias é um caminho sem volta e alinha o país às principais tendências de transição energética da Europa e dos Estados Unidos. Tratar o avanço tecnológico como a validação literal de uma metáfora política do passado pode funcionar bem como estratégia de comunicação governamental, mas não resolve os gargalos estruturais do setor.

O verdadeiro desafio do leilão de dezembro será provar que estocar energia no Brasil é um negócio viável, seguro e capaz de baratear a conta de luz do consumidor final. O mercado financeiro e as distribuidoras aguardam a publicação do edital nesta quarta-feira para calcular o real custo dessa inovação, separando o marketing político da realidade econômica e tarifária que moldará o futuro da infraestrutura nacional.

Fonte: https://www.gazetadopovo.com.br/energia/governo-anuncia-leilao-de-megabaterias-para-estocar-vento-e-sol/

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