Entretenimento Netflix enfrenta queda no mercado enquanto críticas à cultura woke aumentam

Netflix enfrenta queda no mercado enquanto críticas à cultura woke aumentam

Sede da Netflix, em Los Angeles: gigante do streaming enfrenta dificuldades - Foto: EFE/EPA/Christian Monterrosa

Por fora, a Netflix ainda é a líder em assinaturas e domina o mercado de streaming há algumas décadas. Por dentro, a estrutura apresenta rachaduras e os números deixam os investidores em alerta. A crise tem múltiplas explicações, mas uma delas é evidente, estando associada à adesão à cultura conhecida como cultura woke. Há um ano, a Netflix valia mais de US$ 500 bilhões e, no início deste mês, o valor caiu para US$ 344 bilhões. Investidores otimistas dizem que se trata de uma precificação esperada após anos de crescimento, mas há outros dados que, analisados em conjunto, trazem maior preocupação.

As ações da empresa recuaram 21% neste ano e estão na casa dos US$ 78. Na mesma data do ano passado, as mesmas ações valiam US$ 122. No primeiro semestre deste ano, chegaram ao seu patamar mais baixo de US$ 65. Além disso, o ritmo de novas assinaturas desacelerou, registrando o seu menor crescimento em anos, estimado em 900.000 novos membros. Esse cenário coincidiu com o pior trimestre de audiência de seus dez principais títulos desde a última greve dos roteiristas.

Mudanças e negócios frustrados

Em um período de incertezas, uma decisão oficial da empresa foi bastante questionada. A Netflix divulga semestralmente o relatório “O Que Nós Assistimos”, em que revela aos investidores e assinantes as produções mais assistidas e as perspectivas da empresa para o futuro. Porém, na metade deste ano, a companhia decidiu que a divulgação não será mais semestral, mas sim anual, e parar de divulgar dados quando eles pareciam controversos soou mal no mercado.

Para piorar, ficou mal explicado o fracasso na compra da Warner Bros. No início deste ano, a Netflix avançou sobre a tradicional empresa com uma oferta de US$ 82,7 bilhões pelos estúdios de cinema e televisão e pelos serviços de streaming HBO Max e HBO. Seria a vitória definitiva da companhia de Los Gatos, na Califórnia, que incorporaria produções como “Game of Thrones”, “Succession” e a aguardada série de Harry Potter. Porém, a Paramount aumentou a oferta para US$ 100 bilhões e levou a disputa.

Mudança na identidade visual

Muitos espectadores já estranham o layout da plataforma. Se antes filmes e séries dominavam a tela, hoje eles convivem com jogos de videogame, como “Squid Game Unleashed”, “Mini Golf” e o clássico “Tetris”. Além disso, transmissões ao vivo, como lutas de boxe entre Jake Paul e Mike Tyson, e o show de retorno do grupo sul-coreano BTS são novos atrativos. Na versão americana da plataforma, já são comuns podcasts e até vídeos curtos.

A situação é bem diferente da concorrente HBO, que parece um serviço de streaming voltado para adultos. Com um visual mais sóbrio, a plataforma exibe apenas filmes e séries de inegável qualidade, como o premiado “Pecadores” (2025), “Euphoria” (2019 a 2026) e o seu último sucesso, “The Pitt” (2025), série médica líder de indicações no Emmy deste ano. A Netflix, aliás, nunca conseguiu traduzir seu domínio no mercado em soberania nas premiações, enfrentando rivalidade acirrada com a HBO e agora também com a Apple TV, que ganha espaço com produções como “Pluribus” (2025), “O Segredo de Widow’s Bay” (2026) e “F1: O Filme” (2025).

Críticas aos roteiros atuais

As pautas progressistas ainda estão muito presentes nas produções e, para alguns críticos, a plataforma virou a Wokeflix. Recentemente, o filme “Elize: Sombras de Uma Mulher” (2026) recebeu críticas por relativizar um crime bárbaro e retratar a assassina como vítima de um relacionamento abusivo. O suspense de ficção científica estrelado por Wagner Moura, “A Última Casa” (2026), parece um manifesto ecológico, enquanto a prestigiada série “Adolescência” (2025) retrata um episódio de violência de gênero.

No final do ano passado, um texto publicado no Substack do roteirista Fabio Danesi Rossi ganhou repercussão ao revelar bastidores do setor. Rossi escreveu séries de sucesso como “O Negócio” (2013 a 2018) da HBO, o filme “Pronto, Falei” (2022) do Prime e a animação “Sítio do Pica-Pau Amarelo” (2012) da TV Globo, além de “Julie e os Fantasmas” (2011 a 2012), vendida para a plataforma americana.

No auge de sua carreira, ao lado dos roteiristas Alexandre Soares Silva e Rodrigo Castilho, que também participaram dos roteiros de “O Negócio” e “Pronto, Falei”, o trio apresentou um projeto escolhido entre milhares de concorrentes. Porém, segundo Rossi, havia o entrave de ter sido criado por três homens brancos. A empresa exigiu a entrada de uma mulher na equipe, o que foi aceito pelo grupo, mas as exigências continuaram, o interesse da protagonista por arte foi considerado fútil e a série não avançou.

“A Netflix virou um pouco sinônimo de baixa qualidade”, afirmou Alexandre Soares Silva, roteirista, em entrevista ao jornal Gazeta do Povo, ao explicar que o foco excessivo em cotas pode prejudicar o resultado final do produto.

Entre as produções da plataforma, o roteirista elogia apenas alguns bons momentos nas séries “The Crown” (2016 a 2023) e “Beef” (2023).

Impacto da tecnologia contemporânea

Outra mudança sutil que contribuiu para a perda de qualidade está nas consequências da tecnologia. Com o maior número de visualizações feitas pelo celular, somado ao déficit de atenção generalizado, foi necessária uma alteração na escrita dos roteiros. É comum que as produções repitam a história central à medida que a trama avança, pois muitos espectadores acabam se esquecendo do enredo. A reclamação foi endossada pelos consagrados atores Matt Damon e Ben Affleck em entrevista ao podcast de Joe Rogan.

“A arte do cinema é sistematicamente desvalorizada, marginalizada, rebaixada e reduzida ao menor denominador comum: ‘conteúdo'”, afirmou Martin Scorsese, diretor de cinema, ao criticar o modelo dos serviços de streaming.

Atualmente, o filme mais visto na plataforma no Brasil é “Grand Theft Auto VI: An Extended Look”, que consiste apenas no trailer do famoso jogo de videogame. Em seguida, “O Homem que Sussurra” (2026), estrelado por Robert De Niro, apresenta uma confusa trama policial. Entre as séries, nada de muito relevante sobreviveu ao sucesso estrondoso da criativa “Stranger Things”, tornando a tarefa de fazer boas recomendações de produções da plataforma para conhecidos algo bem mais complexo.

Fonte: https://www.gazetadopovo.com.br/ideias/a-netflix-esta-em-crise-e-a-obsessao-pelo-woke-e-um-dos-motivos/

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