
O avanço dos eventos climáticos extremos exige uma reformulação urgente nas políticas públicas e nos projetos de engenharia civil voltados para o interior do Amazonas. Durante a abertura do Circuito Ambiental na Universidade Federal do Amazonas (UFAM), o engenheiro civil Marcellus Campêlo defendeu que a ampliação imediata dos investimentos em saneamento básico, drenagem urbana e obras ecológicas é o único caminho viável para mitigar riscos habitacionais e aumentar a resiliência das cidades amazônicas.
O evento técnico, organizado pelo Programa de Extensão em Engenharia Civil e Sanitária (PEECS), ocorre em Manaus e se estende até a próxima sexta-feira. A iniciativa reúne pesquisadores e especialistas dispostos a alinhar o conhecimento acadêmico com soluções práticas de governança.
Gargalos do saneamento
A urgência por investimentos estruturais é respaldada por dados estatísticos preocupantes sobre as deficiências básicas do estado. Utilizando indicadores oficiais do Sistema Nacional de Informações em Saneamento (SINISA) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o engenheiro expôs a realidade enfrentada por milhares de cidadãos.
- Mais de 809 mil moradores do Amazonas seguem sem acesso regular à rede de abastecimento de água potável.
- Cerca de 3 milhões de pessoas vivem em residências que carecem totalmente de coleta de esgoto.
- Mais de 697 mil habitantes sofrem com a falta de atendimento regular na coleta de resíduos sólidos.
- Um total de 36 municípios não dispõe de qualquer sistema estruturado de drenagem para águas pluviais.
“Os eventos extremos estão se tornando cada vez mais frequentes e intensos. A resposta para esse cenário passa por planejamento, obras essenciais e investimentos em infraestrutura básica. Quando falamos de clima e sustentabilidade, estamos falando também de saneamento, drenagem, habitação, recuperação ambiental e qualidade de vida para a população”, afirmou Marcellus Campêlo.
Resiliência na prática
Como ex-secretário da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Urbano e Metropolitano (SEDURB) e ex-gestor da Unidade Gestora de Projetos Especiais (UGPE), o palestrante utilizou o histórico de sete anos de gestão para demonstrar soluções aplicadas. O principal destaque foi o “Prosamin+”, considerado uma referência em requalificação urbana na região Norte.
A experiência prática resultou na implantação de 34 quilômetros de novas redes de drenagem, reassentamento de famílias de áreas de risco e recuperação de margens de igarapés. Os projetos incorporaram infraestrutura verde, destinando um quarto das áreas de intervenção para reflorestamento, somando 110 mil metros quadrados recuperados e o plantio planejado de quase 13,5 mil mudas nativas.
Tecnologia no interior
A estratégia de adaptação se estende para além da capital através de programas de modernização energética e projetos comunitários descentralizados. A transição para modelos sustentáveis visa atingir populações isoladas.
O programa “Ilumina+” substituiu antigas luminárias por tecnologia LED em todos os 61 municípios do interior, alcançando comunidades urbanas, rurais, ribeirinhas e indígenas. Paralelamente, o projeto piloto “Sirwash”, implementado na comunidade Boa União do Rumo Certo, em Presidente Figueiredo, serve de modelo para a gestão comunitária de água e esgotamento sanitário em áreas rurais.
União de forças
A coordenação do Circuito Ambiental reforçou a importância de conectar a produção científica com as demandas reais das prefeituras. O chefe do Departamento de Engenharia Civil da Faculdade de Tecnologia da UFAM, Matheus Pena Silva, pontuou que o debate prático ajuda a transformar diagnósticos em resultados sociais reais.
“A Amazônia ocupa posição estratégica no debate climático global. Por isso, precisamos discutir sustentabilidade de forma prática, conectando ciência, engenharia, inovação e políticas públicas capazes de melhorar a vida das pessoas e fortalecer a resiliência das nossas cidades”, concluiu Matheus Pena Silva.










