
A conversa telefônica de 50 minutos ocorrida nesta segunda-feira, 26/1, entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, foi muito mais do que um protocolo diplomático. Ela representou um choque de visões sobre como o mundo deve ser governado nos próximos anos. Ao receber o convite para integrar o recém-criado Conselho da Paz, Lula não apenas hesitou, mas desenhou uma linha vermelha que separa o multilateralismo histórico da nova tentativa de hegemonia norte-americana.
O cenário é complexo. De um lado vemos Trump tentando consolidar uma estrutura paralela à ONU, focada na reconstrução de Gaza e com poderes que podem se estender globalmente. Do outro lado Lula tenta salvar a relevância das Nações Unidas, mesmo ao admitir suas falhas. A proposta brasileira na ligação foi cirúrgica. Se o Brasil entrar, o conselho deve se limitar a Gaza e ter representação palestina obrigatoriamente.
A cautela do Palácio do Planalto não é infundada. A análise da minuta de criação desse Conselho da Paz revela uma armadilha institucional. O documento prevê que Trump, como presidente do órgão, teria poder de veto e controle sobre mandatos e votações. Na prática, tal medida transformaria o fórum em uma extensão da Casa Branca e esvaziaria ainda mais o Conselho de Segurança da ONU.
Lula foi preciso ao diagnosticar anteriormente que o republicano quer ser dono de uma nova organização mundial. Ao sugerir a inclusão da Palestina e a limitação do escopo do conselho, o presidente brasileiro testa as reais intenções de Washington. Se Trump recusar a presença palestina, ficará claro que o objetivo não é a paz duradoura e sim o controle da narrativa. Caso ele aceite, o Brasil ganha espaço para atuar sem assinar um cheque em branco para intervenções futuras em outros conflitos.
A reforma da ONU como contraponto
Durante a ligação, Lula voltou a bater na tecla da reforma do Conselho de Segurança da ONU. É uma pauta antiga que remonta ao seu primeiro mandato em 2003, mas que ganha urgência renovada. O argumento brasileiro segue uma lógica clara, pois o mundo não pode substituir a paralisia da ONU pela autocracia de um clube de amigos liderado pelos EUA.
A defesa da entrada de países como o Brasil, nações africanas e o México no conselho permanente da ONU é a resposta institucional ao unilateralismo. Enquanto Trump aposta na força bruta e em acordos bilaterais, a diplomacia brasileira tenta revigorar o sistema internacional baseado em regras e não apenas no poderio militar ou econômico de uma única nação.
Venezuela e a estabilidade regional
Outro ponto sensível da conversa foi a Venezuela. O diálogo ocorre em um momento histórico inédito após a operação norte-americana que resultou na captura de Nicolás Maduro. A postura de Lula foi pragmática. Em vez de entrar no mérito da operação em si, o presidente focou na consequência imediata que é a necessidade de estabilidade regional.
Para o Brasil, uma Venezuela instável é sinônimo de crise migratória e tensão na fronteira. A defesa do bem-estar do povo venezuelano feita por Lula sinaliza que o Brasil quer participar da transição política no país vizinho para evitar que o vácuo de poder gere violência ou anarquia.
Economia e cooperação contra o crime
Apesar das divergências geopolíticas, a relação bilateral segue pragmática na economia e na segurança. O reconhecimento mútuo de que o crescimento de ambos os países favorece a região mostra amadurecimento. O recuo parcial no tarifaço aplicado aos produtos brasileiros é uma vitória da diplomacia comercial que não pode ser ignorada.
Além disso, a proposta de Lula para uma cooperação mais estreita no combate ao crime organizado encontrou eco em Washington. O foco é asfixiar financeiramente grupos criminosos e combater a lavagem de dinheiro. É um terreno comum onde os interesses se alinham perfeitamente e ficam longe das disputas ideológicas.
O que esperar da visita em março
A expectativa agora se volta para o encontro presencial sugerido para março em Washington, logo após o Carnaval e as viagens de Lula à Ásia. Até lá o Brasil terá que decidir se aceita ou não entrar no Conselho da Paz. A tendência é de recusa, a menos que as condições impostas por Lula sejam atendidas.
O presidente brasileiro joga um xadrez delicado. Ele precisa manter a boa vizinhança com os EUA para garantir mercados e segurança, mas não pode sacrificar a tradição diplomática brasileira de autonomia e multilateralismo. A resposta definitiva sobre o conselho dirá muito sobre o papel que o Brasil pretende ocupar na nova ordem mundial desenhada para 2026.
Fonte: https://www.metropoles.com/mundo/lula-fez-dois-pedidos-a-trump-sobre-conselho-de-paz-saiba-quais










