Fernando Valente Pimentel Futuro da indústria também se decide fora das fábricas

Futuro da indústria também se decide fora das fábricas

Por Fernando Valente Pimentel (*)

Todos os dias, dentro de uma fábrica, são tomadas decisões para melhorar processos, reduzir desperdícios, desenvolver produtos e atender o mercado. Empresários e trabalhadores procuram produzir mais e melhor, combinando experiência, tecnologia e capacidade de adaptação. Esse esforço é indispensável. Seu resultado, porém, depende também das condições que encontram fora dos portões.

É nessa relação entre competência empresarial e ambiente econômico que se decide parte importante do futuro da indústria brasileira. O momento é difícil para quem produz. Juros elevados encarecem o capital de giro e os investimentos. Custos pressionam as operações. A concorrência dos importados intensifica-se, enquanto persistem desigualdades tributárias e regulatórias. Mudanças nas relações de trabalho acrescentam desafios de organização e adaptação. Diante desse conjunto, muitas empresas precisam dedicar à sobrevivência recursos e energia que deveriam impulsionar sua modernização.

Cobrar produtividade é necessário. É igualmente necessário compreender o que permite aumentá-la. Uma máquina mais eficiente exige financiamento. A digitalização depende de investimento e qualificação. O desenvolvimento de um produto demanda pesquisa, testes e tempo para chegar ao mercado. Quando o custo do capital inviabiliza esses projetos, compromete os avanços das empresas. Os juros também afetam os clientes, os fornecedores e o consumidor. Ao restringir investimento e consumo, enfraquecem as duas pontas da atividade produtiva.

No comércio internacional, o Brasil precisa combinar integração e condições equilibradas de concorrência. Importar insumos, equipamentos e produtos faz parte de uma economia conectada ao mundo. Exportar permite ganhar escala, diversificar mercados e desenvolver competências. Porém, a expansão das importações, tanto pelos canais convencionais quanto pelas pequenas encomendas do e-commerce, exige igualdade tributária e regulatória, fiscalização e mecanismos ágeis de legítima defesa comercial.

As decisões sobre trabalho também precisam considerar como a produção funciona. Melhorar o bem-estar das pessoas é um objetivo que deve orientar o desenvolvimento. Para transformar esse objetivo em resultados duradouros, precisamos de diálogo, negociação e condições de adaptação a cada setor. Mudanças de jornada e de escala devem considerar essas particularidades. Há, ainda, energia, logística, burocracia e segurança jurídica, que influenciam custos e decisões de investimento.

Por todas essas razões, as políticas públicas precisam ser avaliadas em conjunto e considerar que o consumidor e o trabalhador são a mesma pessoa. Seu emprego movimenta o comércio e os serviços. Sua renda sustenta outros negócios. Portanto, preservar e ampliar a capacidade de produzir interessa a toda essa rede. À indústria cabe continuar fazendo sua parte: investir, qualificar, inovar e aperfeiçoar a gestão. Ao poder público cabe construir um ambiente em que esses esforços possam gerar resultados.

O Brasil tem empresas, profissionais e instituições capazes de sustentar uma trajetória mais ambiciosa de desenvolvimento. Fortalecer esse patrimônio requer decisões que tornem viável produzir e investir aqui. O futuro da indústria é construído diariamente nas fábricas, mas também se decide no crédito, na tributação, nas regras de comércio, na infraestrutura e nas relações de trabalho. Dar coerência a essas decisões é essencial!

(*) é diretor-superintendente e presidente emérito da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit)

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