
Em passagem por Manaus na sexta-feira (11), o senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) combinou acenos ao eleitorado feminino com um discurso de endurecimento da segurança pública e novos ataques ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
A estratégia ocorre em um momento em que a disputa nacional se aproxima do empate e em que as mulheres representam a maioria do eleitorado amazonense.
Durante ato político na capital, Flávio afirmou que pretende “proteger” as mulheres e prometeu penas mais duras para crimes de violência. Entre as propostas apresentadas, citou prisão para assassinos de mulheres e castração química para estupradores e abusadores de mulheres e crianças.
“Nós vamos proteger vocês, mulheres”, declarou o senador diante de apoiadores e aliados, entre eles Maria do Carmo Seffair (PL), candidato ao governo do Estado, e o deputado federal Capitão Alberto Neto (PL), candidato ao Senado.
O discurso coloca a segurança da mulher no centro da estratégia eleitoral do candidato no Amazonas, estado em que o eleitorado feminino tem peso superior ao masculino.
Dados eleitorais mais recentes apontam que o Amazonas possui 2.801.182 eleitores, dos quais 1.440.590 são mulheres, o equivalente a 51,43% do eleitorado. São 79.998 eleitoras a mais que eleitores homens.
A dimensão desse contingente transforma a pauta feminina em um dos principais campos de disputa eleitoral no estado. Saúde, segurança, emprego, renda, transporte, educação e combate à violência doméstica estão entre os temas capazes de influenciar a decisão de uma parcela majoritária do eleitorado amazonense.
O desafio entre as mulheres
O movimento de Flávio em Manaus ocorre, porém, diante de uma dificuldade identificada reiteradamente pelas pesquisas nacionais: sua distância em relação a Lula entre as eleitoras.
Em agosto, levantamento do Datafolha apontava 41% para Lula e 29% para Flávio entre as mulheres. Na pesquisa BTG/Nexus, Lula tinha 46% contra 32% do senador. Já a Quaest registrava 39% para Lula e 28% para Flávio no segmento feminino.
O Datafolha divulgado na sexta-feira mostra que essa diferença permanece. No levantamento mais recente, Lula aparece com 41% entre as mulheres, contra 30% de Flávio. Entre os homens, ocorre o inverso: Flávio registra 40%, ante 36% de Lula.
O dado ajuda a explicar a ênfase crescente da campanha bolsonarista em temas diretamente associados ao cotidiano feminino, especialmente segurança, violência e proteção da família.
A estratégia, contudo, também expõe uma contradição política que pode ser explorada pelos adversários. Em julho, o próprio Flávio havia criticado a Lei Maria da Penha, classificando-a como “um pedaço de papel” e dizendo que a legislação não seria aquilo que efetivamente protegeria as mulheres.
Ataques a Lula
Em Manaus, a defesa das mulheres foi acompanhada de críticas ao governo Lula. Flávio associou a violência contra mulheres à atual administração federal e mencionou números de assassinatos de mulheres.
A associação entre segurança pública e governo petista já faz parte da estratégia eleitoral do senador. Em outros eventos, Flávio também acusou a gestão Lula de não conseguir conter o avanço de feminicídios e agressões.
Além das propostas direcionadas às mulheres, Flávio apresentou em Manaus uma agenda ampla de endurecimento penal.
O senador defendeu a construção de mais de 500 mil vagas no sistema prisional, a manutenção de criminosos condenados por roubo de celulares na prisão por pelo menos oito anos e a redução da maioridade penal.
Também citou a possibilidade de jovens de 16 anos obterem carteira de motorista e prometeu uma ofensiva contra organizações criminosas, mencionando PCC, Comando Vermelho e milícias.
“A partir de janeiro do ano que vem, ou vocês vão ser presos, ou vocês vão ser neutralizados pelas nossas polícias”, afirmou, ao se referir a criminosos.
A castração química para estupradores e a redução da maioridade penal para 16 anos fazem parte de um pacote de medidas de caráter punitivo que o candidato vem utilizando para marcar diferença em relação ao governo Lula na área de segurança.
Força das mulheres
No Amazonas, entretanto, a questão vai além da estratégia nacional. As mulheres não são apenas maioria entre os eleitores: elas ampliaram sua vantagem sobre os homens desde a eleição municipal de 2024.
Naquele ano, o estado tinha 1.408.880 eleitoras. Em 2026, são 1.440.590, um crescimento de 31.710 mulheres. No mesmo período, o eleitorado masculino cresceu em 20.126 pessoas.
Dos 51.836 novos eleitores incorporados ao cadastro entre as duas bases, aproximadamente 61% são mulheres. A vantagem feminina, que era de 68.414 votos em 2024, chegou agora a quase 80 mil.
O número dá dimensão do desafio para qualquer candidato que pretenda vencer no Amazonas.
Uma campanha pode mobilizar grandes multidões em Manaus e ainda assim enfrentar dificuldades se não conseguir transformar essa mobilização em votos entre as eleitoras. Para Flávio, portanto, o discurso de proteção às mulheres não é apenas retórico: trata-se de uma frente eleitoral estratégica.
Outro fator relevante é a distribuição territorial do eleitorado. Manaus concentra 1.472.138 eleitores, ou 52,55% do total estadual. Os 61 municípios do interior, juntos, reúnem 1.329.044 eleitores, equivalentes a 47,45% do eleitorado amazonense
A diferença entre capital e interior é de apenas 143.094 eleitores. Isso significa que uma candidatura pode obter uma vantagem expressiva em Manaus e, ainda assim, encontrar no interior votos suficientes para reduzir consideravelmente essa diferença.
No interior, questões como transporte fluvial, preço dos alimentos, acesso à saúde, segurança nos rios, energia elétrica, produção rural, pesca, programas sociais e relações com lideranças municipais tendem a assumir peso próprio.
E há um ponto adicional: mulheres e interior não são dois eleitorados independentes. Uma parcela significativa das 1,44 milhão de eleitoras amazonenses vive justamente fora da capital.
Bolsonarismo vivo
A escolha de Manaus para a ofensiva eleitoral também tem significado político. A capital amazonense permanece como um dos principais redutos do bolsonarismo na região Norte.
No segundo turno da eleição presidencial de 2022, Jair Bolsonaro recebeu 61,28% dos votos válidos em Manaus, contra 38,72% de Lula.
A cidade, portanto, oferece a Flávio um ambiente eleitoral potencialmente favorável para consolidar sua candidatura.
“Dark Horse” também na agenda
A visita a Manaus ocorreu ainda sob o impacto da divulgação de informações sobre a investigação envolvendo o financiamento do filme “Dark Horse”, obra sobre Jair Bolsonaro.
Em entrevista na capital, Flávio defendeu a retirada do sigilo das investigações conduzidas no Supremo Tribunal Federal e afirmou que a transparência demonstraria que não houve irregularidades.










