
A cena política amazonense tem suas sutilezas e seus abraços estratégicos. Os senadores Omar Aziz (PSD) e Eduardo Braga (MDB) voltaram a dividir agenda, sorrisos e vídeos nas redes sociais. Fábrica no Polo Industrial, evento em Parintins, declarações de alinhamento. Tudo muito harmônico. Coincidência? Claro que não.
Quando dois senadores experientes reaparecem lado a lado na capital e no interior, não é turismo institucional. É cálculo político. Braga fala em união. Omar aparece junto. O palanque de Lula já tem nomes. O tabuleiro de 2026 começa a ser montado com antecedência cirúrgica.
Na política, não existe reencontro inocente — existe projeto. E pelo visto, a fotografia da semana já mira a sucessão estadual.

Judiciário na era da inovação
A Escola Superior da Magistratura do Amazonas (Esmam) entrou em outro patamar.
A Esmam foi oficialmente reconhecida pela Suframa como Instituição Científica, Tecnológica e de Inovação (ICT). Traduzindo: agora pode acessar recursos robustos da Lei de Informática para investir em Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação.
Não se trata de detalhe, mas falar de projetos com inteligência artificial, busca inteligente de jurisprudência, sistemas de apoio à decisão e modernização tecnológica do Judiciário.
Em 2024, foram R$ 1,64 bilhão investidos em P&D na região. A Esmam passa a integrar esse universo. É o Judiciário amazonense entrando de vez no ambiente de inovação da Zona Franca. Menos papel, mais algoritmo. Menos morosidade, mais inteligência aplicada.

PD&I como política institucional
O credenciamento da Esmam no Capda abre caminho para captação direta de recursos destinados obrigatoriamente a P&D pelas empresas incentivadas. Isso significa investimento estruturado em tecnologia judicial, inclusive no interior do Estado.
Projetos de inteligência artificial capazes de identificar processos semelhantes, uniformizar entendimentos e dar mais celeridade às decisões deixam de ser ideia de seminário e passam a ser política institucional financiável.
Num Estado continental como o Amazonas, inovação no Judiciário não é luxo. É necessidade. Se a política às vezes exagera na entrega de títulos, ao menos a Esmam resolveu buscar algo mais consistente: investimento em conhecimento. E isso muito mais impacto que qualquer diploma honorário.
Comunistas contra honraria

Como diz o adágio popular, o mundo dando voltas. O PCdoB resolveu recorrer à Justiça contra o título de Cidadão do Amazonas para o senador Flávio Bolsonaro. Motivo? Segundo os comunistas, o parlamentar fluminense não teria feito absolutamente nada pelo Estado — e, pior, já teria se alinhado a críticas à Zona Franca de Manaus.
Sem dúvida, curioso. Em tempos em que títulos honoríficos parecem distribuídos como brinde de inauguração, alguém resolveu perguntar o óbvio: qual o serviço prestado ao Amazonas?
“Prêmio por afinidade”

Conforme os comunistas, o projeto de homenagem a Flávio Bolsonaro, de autoria do deputado Delegado Péricles (PL), destaca o currículo jurídico do senador. Mas currículo não é contribuição regional. E cidadania honorária, ao menos em tese, não deveria ser prêmio por afinidade ideológica, afirmam os comunas.
O detalhe mais saboroso da história é ver o PCdoB na trincheira defendendo a Zona Franca contra um parlamentar da direita nacional. A política amazonense definitivamente não é para amadores.
No fim das contas, o debate não é sobre esquerda ou direita. É sobre critério. Porque, se for para conceder título a quem nunca plantou sequer uma muda de samaúma por aqui, melhor oficializar logo o “Cidadão Google Maps”: basta localizar Manaus no mapa e pronto.
A farra dos títulos
A Assembleia Legislativa do Amazonas parece ter inaugurado um novo modelo de concessão de cidadania: o sistema “delivery”. Depois da proposta para Flávio Bolsonaro, surge agora a ideia de conceder o título de Cidadão do Amazonas ao deputado federal Nikolas Ferreira. A justificativa? Representatividade ideológica e uma palestra no Vasco Vasques.
Palestra virou critério para cidadania? Se for assim, o calendário de eventos do Centro de Convenções precisará de uma comissão permanente de concessão de honrarias.
O título de cidadão amazonense deveria ser reservado a quem contribuiu de forma concreta para o desenvolvimento do Estado — seja na defesa da Zona Franca, na geração de empregos, na produção científica, na cultura ou na melhoria das condições de vida da população.
Transformar a honraria em gesto político-partidário esvazia seu significado. No ritmo atual, qualquer liderança nacional que passe por Manaus, tire uma foto e faça um discurso pode sair com diploma e aplauso. Talvez esteja na hora de a Aleam lembrar que cidadania honorária não é souvenir institucional.
Deputado reage aos foguetes do crime
O que se ouviu na noite de terça-feira (10/2) não foi festa junina fora de época, nem gol em final de campeonato. Foi o barulho escancarado da ousadia. Um foguetório que rasgou o céu de Manaus como quem carimba território — e, segundo o deputado Delegado Péricles (PL), com endereço certo: celebrar mais um aniversário de domínio das facções criminosas sobre a cidade.
Da tribuna da Aleam, Péricles não economizou no verbo — nem na indignação. Tamborilou forte. E não foi metáfora leve. Foi no ritmo da revolta. Classificou o espetáculo pirotécnico como uma afronta direta, um deboche sem máscara, um desafio aberto aos órgãos de segurança do Estado. Algo como: “Estamos aqui, mandamos nisso e ainda fazemos barulho para vocês ouvirem”.
Facção com calendário festivo?
De acordo com o deputado Péricles, CV e Primeiro Comando da Capital (PCC) não apenas comandaram o foguetório — comandaram o recado. Em vez de se esconderem nas sombras, iluminaram o céu. Em vez de sussurros, rojões. Uma demonstração pública de força que, para Péricles, ultrapassa o absurdo e encosta perigosamente na provocação institucional.
A crítica foi dura: como pode o crime organizado celebrar aniversário de “domínio” com direito a trilha sonora aérea? Desde quando facção tem calendário festivo e liberdade para soltar fogos como se estivesse inaugurando obra pública?
Se o barulho foi alto nos bairros, mais alto ainda foi o tom na Aleam. Porque, no fim das contas, o que está em jogo não são apenas foguetes, mas autoridade, presença do Estado. E quando o céu vira palco para o crime comemorar, o silêncio oficial vira cumplicidade aos olhos de quem assiste.










