
Agências de segurança de diferentes países estão adquirindo informações confidenciais de cidadãos diretamente de empresas privadas. O esquema envolve a compra de históricos de localização por celular, hábitos de navegação na internet e perfis de comportamento.
Essa engrenagem comercial permite que órgãos de espionagem acessem dados protegidos sem a necessidade de uma ordem ou mandado judicial, utilizando a estrutura de anúncios digitais que financia grande parte das páginas da internet.
O avanço da inteligência artificial (IA) mudou o patamar dessa atividade, permitindo cruzar e analisar bilhões de registros de forma automática. Um estudo de pesquisadores da Alemanha com 11 reguladores europeus, publicado pelo centro de estudos Interface, apontou que a prática transformou a atuação dos serviços secretos sob total ausência de regulação estatal.
Rota do rastreamento
O fluxo de captação dos registros começa sempre que um usuário acessa um aplicativo ou site que exibe publicidade. Antes mesmo que o anúncio apareça na tela, o mecanismo de publicidade online rastreia dados como a localização exata do aparelho, o endereço de IP, o modelo do celular e as preferências de consumo. Esse bloco de dados é enviado em milissegundos para um leilão virtual em tempo real que define qual propaganda será exibida na tela.
A Fundação Fronteira Eletrônica (EFF) aponta que várias empresas participantes do leilão recebem essas informações simultaneamente, mesmo sem vencer a disputa publicitária. É nesse momento que entram as corretoras de dados, que reúnem esse rastro digital para abastecer a inteligência publicitária (Adint).
O setor transforma dados comerciais em rastreadores capazes de refazer o cotidiano de qualquer alvo. Embora os dados usem um identificador numérico da Apple ou do Google, o anonimato é revertido ao cruzar os códigos com cadastros comerciais e vazamentos, revelando locais frequentados como clínicas, templos religiosos e manifestações políticas.
Indústria da espionagem
Esse comércio movimenta bilhões de dólares e envolve cerca de 15 companhias mapeadas pelo jornal francês Le Monde, que acompanhou demonstrações confidenciais do setor. A maior parte dessas corporações tem base em Israel e foi criada por antigos oficiais militares, embora existam filiais nos Estados Unidos (EUA) e na Europa, prometendo rastrear telefones em tempo real sem dependência das operadoras de telefonia.
A empresa americana Penlink coleta dados globais desde 2019 com atualizações frequentes. O Serviço de Imigração e Controle de Aduanas (ICE) dos EUA investiu US$ 5 milhões em ferramentas dessa empresa, como o programa Webloc, para rastrear aparelhos em áreas específicas.
A italiana RCS comercializa a plataforma Ubiqo, capaz de recuperar históricos de deslocamento de até dez anos, e afirmou conseguir retirar o anonimato de 95% dos celulares na Itália, embora tenha negado a declaração posteriormente.
Já a israelense Wave Guard Technologies promove seu sistema com a promessa de alcançar qualquer dispositivo, a qualquer hora e em qualquer lugar.
Prática na Europa
O monitoramento avançou no continente europeu, tornando-se uma das principais fontes de informação das polícias locais. Os pacotes comerciais reúnem dados que revelam desde a idade até orientações sexuais, preferências políticas e crenças religiosas dos usuários.
Segundo a pesquisa do Interface, grandes agências compram os lotes em massa utilizando empresas de fachada para ocultar a identidade do órgão público e o real interesse por trás da aquisição.
Na França, o serviço de inteligência externo, conhecido como DGSE, solicitou ao Parlamento uma lei para normatizar essas compras corporativas, mas nenhum acordo foi firmado sobre o tema.
Atuação do FBI
Em audiência no Senado americano, o diretor do Federal Bureau of Investigation (FBI), Kash Patel, foi questionado pelo senador Ron Wyden e não negou a compra de dados de localização de cidadãos. O chefe da agência declarou que o material é obtido de forma comercial e serve como inteligência valiosa para a instituição.
A fala mostrou uma mudança de posicionamento em relação ao ano anterior, quando o então diretor Christopher Wray afirmou que a polícia federal havia se afastado desse tipo de rastreamento tecnológico. Além da polícia, o Departamento de Segurança Interna também mantém contratos ativos com corretoras.
Vácuo na lei
O uso de sistemas automatizados de grande escala gerou conflitos no setor de tecnologia. Dario Amodei, fundador da empresa de tecnologia Anthropic, proibiu o uso de seus mecanismos de análise para vigilância doméstica em massa, gerando um embate direto com o Pentágono.
A compra corporativa serve para os governos contornarem exigências constitucionais. Em 2018, no caso Carpenter contra Estados Unidos, a Suprema Corte americana decidiu que as autoridades precisam de uma ordem judicial para obter a localização de torres de telefonia, mas o mercado de dados privados segue operando sem travas legais.
O analista de segurança nacional do Instituto Cato, Patrick Eddington, declarou ao Financial Times que “nossa privacidade e nossos direitos constitucionais não deveriam estar à venda, a nenhum preço”. No Congresso americano, parlamentares tentaram barrar a brecha jurídica atrelando a proibição à renovação da Lei de Vigilância de Inteligência Estrangeira (FISA). No entanto, a pressão da Casa Branca e do presidente da Câmara, Mike Johnson, garantiu a continuidade das regras de espionagem sem a inclusão de restrições às corretoras.










