
A vitória contundente de Laura Fernández nas eleições presidenciais da Costa Rica neste domingo (1º/2) não representa apenas uma troca de comando no Palácio de Zapote. O resultado é o sintoma claro de uma sociedade que se sente encurralada pelo medo e pela violência crescente e decidiu apostar suas fichas mais altas na promessa de ordem. Ao conquistar 48,3% dos votos e liquidar a fatura logo no primeiro turno, a candidata do Partido Povo Soberano (PPSO) recebeu um cheque em branco de uma população exausta.
O cenário reflete uma tendência que ganha contornos dramáticos na Costa Rica. A nação, que por décadas ostentou o título de Suíça da América Central, viu a segurança pública colapsar nos últimos anos. A eleitora Jéssica Salgado resumiu o sentimento das ruas com uma crueza que a análise política tradicional muitas vezes ignora:
“A violência explodiu porque estão mexendo com os chefes, como tirar as ratazanas dos esgotos”, desabafou Jéssica Salgado, escriturária.
Essa frase carrega a justificativa moral que impulsionou Fernández. Para o cidadão comum, a mão de ferro deixou de ser uma ameaça autoritária para se tornar uma necessidade urgente de sobrevivência.
O grito por ordem que superou o medo do autoritarismo
A estratégia de campanha de Fernández foi cirúrgica ao importar o chamado “Modelo Bukele”. Em um país onde a taxa de homicídios escalou para um recorde histórico de 17 por 100.000 habitantes, o discurso de segurança pública atropelou qualquer debate sobre economia ou liberdades civis. A promessa de construir uma megaprisão e a retórica de guerra contra as gangues ressoaram muito mais alto do que os avisos institucionais sobre os riscos à democracia.
Para o eleitorado, a ineficiência do Estado em garantir o direito mais básico, o de ir e vir sem ser violentado, tornou-se imperdoável. O narcotráfico transformou a geografia social costarriquenha e a resposta das urnas foi pragmática. A vitória sobre o social-democrata Álvaro Ramos mostra que o discurso moderado perdeu espaço para a ação direta.
A influência de Rodrigo Chaves e o teste de fogo das instituições
Não se pode analisar esta vitória sem olhar para o retrovisor e ver a figura de Rodrigo Chaves. O atual presidente e mentor político de Fernández deixa o cargo com alta popularidade, apesar de seus constantes confrontos com o Judiciário e a imprensa. A eleição de Fernández é vista pelos opositores como a continuidade de um projeto de poder que flerta perigosamente com a concentração de autoridade.
No entanto, a democracia costarriquenha possui travas de segurança que serão testadas. Embora tenha garantido a presidência, as projeções do Tribunal Supremo de Eleições (TSE) indicam que Fernández terá cerca de 30 deputados na Assembleia Legislativa. É uma maioria confortável, mas insuficiente para reformar a Constituição sozinha como ela desejava. O ex-presidente e Nobel da Paz, Óscar Arias, tocou no ponto nevrálgico desse cenário:
“A primeira coisa que os ditadores querem é reformar a Constituição para se manter no poder”, alertou Óscar Arias, ex-presidente da Costa Rica.
Essa tensão entre um Executivo fortalecido pelas urnas e um Legislativo fragmentado será o grande teste para os próximos quatro anos. A promessa da presidente eleita de que nunca permitirá o autoritarismo será vigiada de perto, especialmente após suas declarações de que certas regras do jogo político mudarão.
O cenário regional e os próximos capítulos da nova direita
A ascensão da direita na Costa Rica não é um fato isolado. Ela consolida um movimento pendular na América Latina ao se juntar aos recentes triunfos conservadores no Chile, Bolívia, Peru e Honduras. O olhar agora se volta para o Brasil e a Colômbia, que terão eleições presidenciais ainda este ano e são atualmente governados pela esquerda. O sucesso ou fracasso das políticas de segurança de Fernández servirá de vitrine para os vizinhos continentais.
Laura Fernández assume em 8 de maio com a missão de entregar a segurança prometida sem desmontar o estado de direito que faz da Costa Rica uma exceção na região. O povo lhe deu o poder, mas a história cobrará o preço de como ele será usado. Se a mudança profunda e irreversível que ela anunciou trará paz ou apenas silêncio, só o tempo dirá.










