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Ateliê 23 vence no Festival de Teatro da Amazônia com história de recomeço e identidade feminina

Foto: Aline Fidelix

O Ateliê 23 conquistou o prêmio de melhor espetáculo da “Mostra Jurupari Adulto” na 20ª edição do Festival de Teatro da Amazônia (FTA). O grupo venceu com a montagem “A Mulher que Desaprendeu a Dançar”, solo da atriz Carol Santa Ana realizado em parceria com a companhia amazonense.

Apresentada no Teatro Amazonas, a produção também levou o prêmio de melhor iluminação para Paulo Martins e recebeu indicação na categoria de melhor dramaturgia para Taciano Soares, responsável pela direção e pelo texto da obra.

A apresentação marcou o retorno do Ateliê 23 aos palcos de Manaus logo após uma temporada na Europa. Durante os meses de setembro e outubro, o grupo realizou a pré-estreia internacional da obra “Fértil em Terras Áridas” nas cidades de Aveiro e Coimbra, em Portugal.

Identidade e trajetória feminina

Criado há cinco anos, o solo “A Mulher que Desaprendeu a Dançar” parte das experiências pessoais e do caminho artístico de Carol Santa Ana para debater questões sobre identidade, maternidade e a presença da mulher na sociedade. O espetáculo reúne elementos biográficos e documentais com uma dramaturgia estruturada nas vivências da atriz, que canta, dança e atua enquanto revisita memórias e reconstrói sua ligação com o palco.

Para Taciano Soares, diretor do Ateliê 23, o prêmio valoriza um trabalho marcante na trajetória da companhia que nasceu de um processo criativo compartilhado com Carol Santa Ana.

“A gente está muito feliz de ter ganhado esse prêmio porque ‘A Mulher que Desaprendeu a Dançar’ é um espetáculo muito sensível. Ele tem a assinatura do Ateliê 23, com material biográfico, documental e um foco na atuação. Mas é, sobretudo, sobre a Carol Santa Ana voltando para a cena depois da maternidade”, afirma o diretor.

O encenador explica que a produção faz parte de uma investigação contínua sobre narrativas femininas desenvolvida pelo grupo. A peça estreou em setembro de 2021, logo após a conclusão do seu doutorado, antecedendo outros trabalhos focados no universo feminino.

“Esse prêmio vem coroar também a pesquisa do Ateliê 23, porque as bionarrativas vêm sendo aprimoradas. O espetáculo já falava sobre essa pesquisa, que foi a minha tese de doutorado”, destaca Taciano Soares.

Reconhecimento à iluminação criativa

O diretor também comemorou o prêmio concedido ao trabalho de Paulo Martins, considerado essencial para a construção da narrativa no palco.

“Ganhamos também o prêmio de iluminação belíssima do Paulo Martins, que ajuda a contar para o espectador as camadas que essa personagem vive em cena. Uma iluminação fantástica, criativa, dramatúrgica”, ressalta Taciano Soares.

Para o diretor, o resultado serve como um estímulo para a continuidade da produção teatral. Atualmente, o grupo realiza ensaios da peça “Fértil em Terras Áridas”, com estreia nacional prevista para o mês de novembro.

“Viver essa experiência foi algo muito revigorante para a gente. Amanhã, na sala de ensaio, vamos lembrar que existem algumas alegrias que não respondem tudo, mas que dão conta de fazer a gente pensar que vale a pena insistir tanto”, complementa.

Histórico de premiações consolidadas

Com as vitórias conquistadas em 2026, o Ateliê 23 soma dez prêmios no Festival de Teatro da Amazônia (FTA), consolidando um histórico de destaque no cenário cultural amazonense.

Em 2014, a companhia venceu nas categorias de melhor figurino e melhor maquiagem com o espetáculo “Oração”. Em 2023, a montagem “Cabaré Chinelo” arrecadou três prêmios, sendo melhor espetáculo, melhor direção para Taciano Soares e melhor figurino. No ano de 2024, a peça “Helena” venceu como melhor espetáculo. Já em 2025, o trabalho “Sebastião” conquistou os prêmios de melhor som ou trilha sonora e melhor ator para Taciano Soares.

A conquista no festival traz um sentido especial para Carol Santa Ana por marcar o reencontro com uma obra fundamental na sua vida pessoal e profissional. Após o nascimento do seu segundo filho, a atriz vive uma nova fase na carreira e decidiu remontar o projeto.

“A gente está muito feliz. Esse trabalho tem um lugar muito especial no meu coração e na minha história. Foi um momento em que eu estava tentando me resgatar como artista, reencontrar esse lugar em mim”, relata a atriz.

A montagem surgiu da busca da atriz por uma voz própria após anos de atuação no teatro e na dança. Nesse processo, consolidou-se a parceria com Taciano Soares, que transformou suas reflexões em dramaturgia.

“Ele fez isso de uma maneira muito bonita, dirigiu o trabalho com a excelência e a sensibilidade que são tão características dos trabalhos dele. E eu, como atriz, fiz a minha parte: me entreguei, me coloquei à disposição do processo e confiei. E que bom que fiz isso, porque sinto a obra muito honesta”, destaca Carol Santa Ana.

A artista ressalta que a união com a companhia permitiu transformar histórias pessoais em reflexões universais que dialogam com o público feminino.

“É uma parceria linda com o Ateliê 23. A gente se abraçou na ideia de concretizar esse projeto, que trazia questões muito particulares minhas, mas que, no fim, representava tantas outras mulheres”, pontua.

Metáfora e cenografia marcantes

Na montagem “A Mulher que Desaprendeu a Dançar”, o ato de desaprender a dança funciona como uma metáfora para acompanhar uma artista que revisita vivências, enfrenta lembranças e reconstrói o seu movimento ao longo do espetáculo. No palco, a personagem começa camuflada e aos poucos revela sua identidade ao público.

O cenário utiliza uma mesa de madeira como elemento central. A partir dessa peça simples, surgem objetos e lembranças à medida que a história se reconstrói no palco. Algumas situações são revividas, outras são narradas e parte ganha contornos de sátira.

Embora as cenas gerem identificação imediata com as mulheres, a proposta provoca uma reflexão no público masculino sobre o impacto das suas atitudes no cotidiano feminino. A produção possui classificação indicativa para maiores de 16 anos.

A obra passou por pequenas atualizações desde a estreia, mas mantém a essência da criação original. Para a protagonista, a passagem dos anos modifica a percepção dos artistas sobre o palco e torna esse reencontro ainda mais relevante.

“Talvez seja justamente isso que torna essa volta tão especial: é o retorno da peça, só que diferente, porque não somos mais os mesmos. Acho muito bonito poder reencontrar uma obra depois de alguns anos e perceber que, mesmo sendo a mesma mulher em cena, a gente já não é mais a mesma pessoa de 2021, quando ela foi construída”, conclui Carol Santa Ana.

ASCOM: Manuella Barros

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