A tragédia do aquecimento global é planetária, mas a política é nacional

Por Cristovam Buarque*

A Europa está debaixo d’água e a América do Norte queimando. A comunidade científica afirma que estas tragédias eram anunciadas e resultado das mudanças climáticas, provocando aquecimentos e frios extremos. Os prejuízos aparecem de imediato, com mortes, destruição de propriedades, desarticulação da vida social e econômica. As consequências serão ainda mais dramáticas nos anos que virão, com elevação do nível do mar, desagregação da agricultura, migrações em massa. Alguns projetam inclusive uma desorganização de toda a civilização. Mesmo assim, nada indica que a humanidade vai conseguir evitar o desastre ecológico, apesar de visível. O problema é que a tragédia é planetária, mas a política é nacional. Tudo indica que a democracia nacional não será capaz de lidar com o problema ambiental. A democracia elege seus dirigentes por eleitores individuais, prisioneiros de interesses imediatos e locais, dificilmente os eleitores vão apoiar mudanças nos padrões de consumo a que os ricos estão acostumados e os pobres desejosos, nem aceitar aumentos de custos e preços.

Em uma reunião sobre mudanças climáticas, para mostrar as dificuldades políticas, o presidente Obama disse que não há presidente nem congresso do Mundo. Cada político tem de atender às necessidades imediatas de seu povo, e não as necessidades de longo prazo da humanidade inteira. Quando falou, parecia adivinhar que assinaria o acordo de Paris para enfrentar as mudanças climáticas e o seu sucessor se retiraria do acordo criado.

Depois disto, o EUA elegeu um presidente sensível à crise ambiental, nas próximas semanas tudo indica que na Alemanha o Partido Verde chega ao poder como partido majoritário, sobretudo depois das tempestades destes últimos dias.

O mundo vai ter de esperar para saber se Biden no EUA e o PV na Alemanha vão ter apoio para medidas de reorientação dos modelos industriais em seus países.

Aqui, de maneira ainda mais dramática, temos um governo que nega a ciência e é insensível à realidade visível da crise ambiental, permitindo e até incentivando a queima da Amazônia.

Ainda não sabemos o que os governos estrangeiros farão em seus países, mas o Brasil precisa saber que eles tomarão medidas para nos impor responsabilidade ecológica. No mínimo, vão impor tarifas para barrar produtos brasileiros, como madeira e soja, que sejam obtidos sem respeito ao equilíbrio ecológico. Não sabemos como os governos agirão internamente, mas eles forçarão intervenções internacionais em um mundo interligado. Precisamos entender que a chuva na Alemanha e o fogo na Califórnia vão nos atingir. E nada pior do que continuarmos com governo cego, que nega a realidade.

*Cristovam Buarque foi governador, senador e ministro

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