
O mundo parece aquele grupo de mensagens onde todo mundo resolveu brigar ao mesmo tempo, mas ninguém quer sair porque o conteúdo é importante demais. No centro desse caos, o Azerbaijão decidiu assumir o papel de vizinho prestativo que tem o que todos precisam agora, o gás natural.
Com o fornecimento do Golfo cortado por conta da guerra do Irã, a União Europeia (UE) está olhando para Baku com aquele olhar de quem esqueceu a chave de casa e precisa de um favor urgente.
Durante o Fórum Global de Baku, que começou nesta quinta-feira (12/3), o clima não era exatamente de festa. O tema do evento, “Colmatar as divisões num mundo em transição”, adquiriu um sentido de urgência ainda maior. O presidente do Azerbaijão, Ilham Aliyev, abriu o jogo e não poupou palavras sobre o estado atual das coisas.
“O que está a acontecer agora no mundo, estes focos de tensão a emergir, os conflitos prolongados existentes, é uma ameaça à estrutura comportamental internacional”, afirmou o presidente Ilham Aliyev.
Segundo ele, quando as normas são ignoradas e a integridade dos países é violada, o direito internacional vira apenas uma sugestão ignorada por muitos.
Barril nas alturas
A situação ficou ainda mais tensa porque o Irã resolveu testar a mira contra navios no Estreito de Ormuz e em instalações de países petrolíferos do Golfo. O resultado disso foi sentido direto no bolso do consumidor global, com o preço do petróleo saltando para mais de US$ 100 por barril.
“Estamos a ver que o aumento sem precedentes dos preços do petróleo e do gás cria muitos problemas para os consumidores e não só”, destacou o presidente Ilham Aliyev.
O Azerbaijão, como membro da Organização dos Países Exportadores de Petróleo Plus (OPEP Plus), tenta se posicionar como o mediador sensato que busca um equilíbrio de preços em um mercado que parece ter bebido energético demais.
Presente russo
Enquanto o Oriente Médio pega fogo, tem gente que está aproveitando a fumaça para se esconder. Charles Michel, antigo presidente do Conselho Europeu, foi direto ao ponto ao dizer que essa instabilidade é um verdadeiro brinde para o Kremlin.
“É muito claro que o que está a acontecer hoje é um presente para a Rússia, porque os preços estão a subir e as atenções estão mais centradas no Médio Oriente”, afirmou Charles Michel.
Para ele, isso dá fôlego para que a Rússia continue sua guerra de agressão enquanto o mundo olha para o outro lado. Michel defende que a Europa precisa desenvolver suas próprias capacidades e autonomia estratégica.
Dilema de Trump
A grande pergunta que paira no ar é se essa guerra vai acabar logo. William Wexler, do grupo de reflexão do Conselho Atlântico, acredita que estamos em um jogo de quem pisca primeiro. De um lado, o Irã e sua insistência no enriquecimento de urânio; do outro, a postura de Donald Trump.
“Se o Presidente Trump decidir que o preço desta guerra se tornou demasiado elevado, o preço diplomático, o preço económico, o preço político, então pode sempre declarar vitória e parar a guerra”, explicou William Wexler.
Porém, ele admite que nenhuma das partes parece disposta a ceder no curto prazo, o que deixa o cenário econômico global em banho-maria ou melhor, em óleo fervendo.
Diplomacia em xeque
A guerra quase bateu na porta do Azerbaijão literalmente. Na semana passada, drones iranianos atingiram o exclave azeri de Naquichevão, ferindo pessoas e assustando a vizinhança.
Uma conversa por telefone entre Ilham Aliyev e o seu homólogo iraniano Massoud Pezeshkian pareceu acalmar as tensões depois de o Azerbaijão ter fechado temporariamente a sua fronteira.
“Estamos também a apoiar os esforços da comunidade internacional para resolver as questões pendentes através do diálogo e da diplomacia”, disse Hikmet Hajiyev, principal conselheiro de política externa do presidente azeri.
O objetivo agora é aumentar a capacidade de entrega de gás para a UE e evitar que a geografia dos conflitos se espalhe.
Fique por dentro
O Azerbaijão se consolidou como o principal pulmão de gás para a Europa após o fechamento das rotas do Golfo, garantindo um papel estratégico na segurança energética global. Esse movimento ocorre enquanto o petróleo ultrapassa a marca histórica de US$ 100 devido aos ataques no Estreito de Ormuz.
Além disso, a distração geopolítica no Oriente Médio acaba favorecendo a Rússia na manutenção de seus avanços na Ucrânia, enquanto o Azerbaijão atua como peça-chave na OPEP Plus para tentar estabilizar o mercado global.










