Voz Sideral Salvação não vem do céu, o inferno é aqui embaixo

Salvação não vem do céu, o inferno é aqui embaixo

Foto: Gerada por IA

Por Juscelino Taketomi

Ando impressionado com a criatividade dos profetas do apocalipse que infestam o YouTube e outras redes sociais. Basta abrir um desses canais para descobrir que o planeta está prestes a acabar umas quinze vezes por semana.

Ora é um asteroide que vem nos visitar sem convite, ora são explosões solares capazes de fritar a humanidade, ora é uma inversão dos polos magnéticos, uma tempestade geomagnética, uma erupção vulcânica monumental ou alguma entidade interdimensional que resolveu anunciar a limpeza planetária.

Se nada disso acontecer, sempre haverá uma nova previsão para a próxima terça-feira, sempre “com Deus no comando”, “Deus no controle” e outras sandices absurdas.

Às vezes, fico com a impressão de que a humanidade não terá sequer tempo de morrer de causas naturais. Vai morrer de tanto receber avisos sobre a própria morte.

O que mais me alarma nesse folclore digital é a facilidade com que determinadas pessoas transformam qualquer fenômeno natural em prenúncio de catástrofe planetária.

Mudanças climáticas, terremotos, furacões, alterações magnéticas e fenômenos astronômicos passam a integrar um roteiro cinematográfico de terror, quase sempre acompanhado de uma trilha sonora dramática e de um narrador que parece ter recebido, pessoalmente, as últimas instruções do Criador, seja ele quem for.

Também encontro quem assegure que as altas hierarquias espirituais estão de prontidão, com suas ferramentas cósmicas preparadas para corrigir os desatinos humanos.

Vulcões, terremotos, furacões e maremotos seriam uma espécie de departamento celestial de manutenção planetária. E, para completar o repertório, ressuscitam até a lendária Atlântida, convenientemente convocada para demonstrar que a humanidade já teria recebido uma advertência semelhante em tempos remotos.

Admitamos que é uma explicação bastante prática. Se não nos comportarmos, o departamento celestial de obras públicas manda um terremoto, um tsunami e resolve a questão. Só falta publicar o calendário de intervenções e disponibilizar um aplicativo para acompanharmos as próximas demolições planetárias.

Não ignoro, evidentemente, a gravidade das mudanças climáticas. Reconheço que o planeta atravessa ciclos naturais de transformação, mas também não fecho os olhos para o agravamento de inúmeros problemas ambientais pela ação humana.

A ciência precisa ser respeitada, os fenômenos climáticos precisam ser estudados e a sociedade precisa investir em tecnologias acessíveis, soluções sustentáveis e políticas ambientais consistentes.

O que não consigo aceitar é a substituição do conhecimento pelo terrorismo psicológico. Já assistimos a anúncios sucessivos sobre o derretimento das calotas polares, o buraco na camada de ozônio, o esgotamento do petróleo e o desaparecimento da Amazônia.

Alguns desses problemas foram enfrentados com avanços científicos, acordos internacionais e medidas concretas. Outros continuam exigindo atenção urgente. Mas parece que, para determinados pregadores digitais, a realidade nunca é suficientemente dramática. É preciso acrescentar uma dose generosa de pânico para garantir audiência.

O sensacionalismo dá cliques. O conhecimento exige estudo. E, infelizmente, nem sempre o estudo vence a disputa pela atenção das pessoas.

Mas é no capítulo da salvação da humanidade que encontro o lado mais pitoresco dessa encenação.

Como observou recentemente Wagner Borges, o cristão espera a segunda vinda de Jesus. O budista aguarda Maitreya. O hinduísta espera o próximo avatar de Vishnu.

Grupos de espiritualistas psicodélicos, por sua vez, estão de malas prontas, aguardando as naves extraterrestres que virão recolher os eleitos, deixando para trás os pecadores, os incrédulos e, provavelmente, aqueles que não conseguiram sinal de internet para receber de Ashtar Sheran o comunicado do resgate.

Como se vê, cada qual tem seu salvador de estimação. Há quem espere por um Messias, quem aguarde um mestre iluminado, quem confie nos extraterrestres e quem aposte nos intraterrenos.

Só não sei muito bem o que todos esses personagens encontrarão quando chegarem por aqui. Talvez uma humanidade ainda discutindo quem tem o Deus verdadeiro, quem possui a religião mais elevada e quem merece um lugar na primeira classe da nave espacial.

E então, que me permitam uma irreverência: será que Jesus, se resolvesse retornar hoje, encontraria condições mínimas para exercer sua missão?

Imagino o constrangimento! O homem volta pregando o amor incondicional entre os povos, a fraternidade universal, o perdão, a compaixão e o respeito à vida. Em poucos minutos, estaria sendo cobrado por representantes de diferentes grupos religiosos, acusado de contrariar interesses geopolíticos e, dependendo do território em que resolvesse desembarcar, correria o risco de ser crucificado novamente.

Na Faixa de Gaza, Jesus talvez nem conseguisse terminar o Sermão da Montanha antes de alguém confundir suas bem-aventuranças com uma provocação política. Seria a segunda crucificação do Cristo, desta vez transmitida ao vivo, com comentários, cortes para o TikTok e especialistas de plantão explicando por que o amor incondicional não funciona naquele contexto.

Que me desculpem a ironia, mas a realidade, às vezes, parece ter perdido completamente o senso de humor.

O que me incomoda, sobretudo, é essa insistência em terceirizar a responsabilidade pela salvação do mundo. Queremos que Deus conserte nossas guerras, que extraterrestres resolvam nossa ignorância, que mestres espirituais reorganizem nossa sociedade e que Jesus volte para nos ensinar de novo aquilo que, há mais de dois mil anos, fingimos não ter compreendido.

Enquanto isso, continuamos alimentando o ódio, a intolerância, a vaidade, a ganância, o preconceito e a estupidez. Depois, quando o mundo apresenta os resultados dessa combinação explosiva, corremos para o YouTube descobrir qual entidade trevosa está por trás da catástrofe.

Talvez seja mais confortável atribuir nossas mazelas à ação de forças invisíveis do que reconhecer a participação das nossas próprias misérias morais. Afinal, é muito mais fácil imaginar uma conspiração espiritual do que admitir que o problema pode estar no sujeito que encontramos diariamente diante do espelho.

Não estou, com isso, desconsiderando a espiritualidade, a fé ou a possibilidade de existirem dimensões que escapam à nossa compreensão. Pelo contrário. Acredito que a busca espiritual precisa ser acompanhada de discernimento, conhecimento e responsabilidade.

Não podemos transformar a espiritualidade em um supermercado de medos, no qual cada canalizador oferece uma nova tragédia, cada profeta anuncia uma nova data e cada suposto mensageiro do além reivindica o monopólio das informações privilegiadas sobre o destino da humanidade.

Uma espiritualidade que produz medo, dependência, passividade e paranoia merece, no mínimo, uma boa dose de reflexão. Se determinada mensagem não estimula a lucidez, a fraternidade, o autoconhecimento e a seriedade, considero prudente examinar melhor a procedência do mensageiro. Nem toda voz que fala em nome do céu merece crédito celestial.

Defendo, antes de tudo, que precisamos recuperar a condição de protagonistas de nossa própria existência. Não podemos transferir para Deus, Jesus, extraterrestres, intraterrenos ou quaisquer hierarquias espirituais atribuições que pertencem exclusivamente a nós. Cada indivíduo precisa assumir a responsabilidade pelo próprio aperfeiçoamento moral, intelectual e espiritual. Sem falsos heroísmos. Sem dogmatismos febris.

Isso quer dizer estudar mais, pensar melhor, questionar informações, desenvolver discernimento, combater os próprios preconceitos e aprender a conviver com as diferenças. Significa compreender que a evolução espiritual não acontece por osmose, tampouco pela simples audição de mensagens supostamente canalizadas por seres de elevada frequência vibratória.

Não basta falar em evolução espiritual enquanto se alimenta a intolerância. Não adianta proclamar amor universal e cultivar ressentimentos particulares. Não adianta compartilhar mensagens de fraternidade cósmica e tratar mal o vizinho, o colega de trabalho ou o desconhecido que pensa diferente.

A iluminação espiritual não deveria ser medida pela quantidade de vídeos místicos assistidos, mas pela qualidade das atitudes praticadas.

Tenho para mim que o planeta não precisa de uma humanidade que passe os dias esperando ser resgatada. Precisa de uma humanidade que amadureça. Precisa de cidadãos intelectualmente preparados, moralmente responsáveis e espiritualmente conscientes, capazes de compreender que a preservação da vida começa muito antes das grandes conferências climáticas ou das profecias sobre o fim dos tempos.

Salvar a Terra começa por salvar a nossa própria humanidade. E isso não pressupõe esperar que uma nave desça dos céus, que um mestre apareça nas montanhas ou que alguma hierarquia espiritual acione seu arsenal de emergência.

Isso quer dizer começar pelo pequeno universo que cada um de nós administra: a consciência, o caráter, as escolhas e a maneira como tratamos os outros seres humanos e a natureza.

Não adianta querer salvar o planeta se ainda não conseguimos salvar o próprio caráter. Não adianta esperar uma nova civilização se continuamos reproduzindo os velhos vícios da atual. E não adianta aguardar a chegada de seres evoluídos quando fazemos tão pouco para merecer essa condição.

Aos profetas do apocalipse, deixo uma sugestão: diminuam um pouco o volume das trombetas celestiais. Aos canalizadores de tragédias, recomendo uma pausa para reflexão. Aos espiritualistas malucos, podem deixar as malas ao lado da porta, mas não precisam dormir vestidos com o macacão de embarque.

E aos que esperam a volta de Jesus, faço um apelo fraterno: talvez fosse melhor começar a praticar seus ensinamentos antes que ele resolva voltar. Do jeito que a humanidade está, o pobre Cristo corre o risco de ser crucificado pela terceira vez antes mesmo de conseguir explicar que veio ensinar, pela última vez, o planeta a virar o jogo do “olho por olho, dente por dente”.

Creio que o maior apocalipse não seja o desaparecimento do planeta, mas a persistência de uma humanidade tecnologicamente avançada e moralmente atrasada, capaz de enviar sondas a outros mundos, mas ainda incapaz de construir uma convivência minimamente civilizada neste.

Eis o verdadeiro trabalho de salvação: menos profecias, menos histeria, menos salvadores terceirizados e muito mais consciência, conhecimento, responsabilidade e amor.

Antes de querer salvar o planeta, cada um de nós deveria fazer uma pequena experiência revolucionária: começar salvando a si mesmo da própria ignorância.

O resto é conversa de bêbado para delegado, conversa de YouTube. Aliás, suspeito que o YouTube já deva estar com a agenda lotada para a próxima semana.

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