
O empreendedorismo feminino ganha cada vez mais espaço no Brasil, embora a presença de mulheres em posições estratégicas de liderança siga acompanhada por desafios diversos. As profissionais enfrentam desde a necessidade constante de comprovar competência até a tarefa de conciliar carreira, família e vida pessoal.
No setor de franquias, que abrange negócios de diferentes portes e segmentos, executivas comprovam que planejamento, capacidade de adaptação e desenvolvimento de pessoas são pilares fundamentais para transformar empresas, ampliar operações e consolidar carreiras de sucesso.
Levantamento realizado pelo Sebrae com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), apurada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), aponta que o Brasil registrou cerca de 10,4 milhões de mulheres no comando de negócios no quarto trimestre de 2024.
O número representa aproximadamente 34% do total de empreendedores do País. Esse mapeamento evidencia a força da participação feminina na economia e reforça a urgência de ampliar oportunidades para que mais gestoras alcancem postos de comando em grandes corporações.
Avanço no setor franchising
No segmento de franchising, esse movimento se mostra ainda mais relevante diante da complexidade de administrar redes com dezenas ou centenas de unidades, manter padrões operacionais rígidos, capacitar franqueados e mapear oportunidades de expansão. Dados da Associação Brasileira de Franchising (ABF) revelam que as mulheres já representam a maioria nas redes franqueadoras, com participação subindo de 46% para 57% entre 2015 e 2024. A ocupação de cargos de liderança nessas empresas também registrou crescimento expressivo no mesmo período, saltando de 19% para 29%.
Atuando em setores como calçados infantis, educação, lavanderias, moda circular, alimentação e piscinas, oito lideranças femininas compartilham suas trajetórias e revelam caminhos para a consolidação profissional.
Andrea Kohlrausch na Bibi

Presidente da Calçados Bibi, marca brasileira especializada em calçados infantis, Andrea Kohlrausch comanda uma estrutura que reúne mais de 1.200 colaboradores e uma rede de franquias com mais de 150 lojas distribuídas pelo Brasil, América Latina e Angola. A executiva aponta como principal desafio da liderança feminina a gestão das múltiplas responsabilidades profissionais e pessoais, sobretudo ao acumular as funções de gestora, empreendedora e mãe.
Para equilibrar as demandas sem comprometer a rotina dos dois filhos nem o desempenho da empresa, a empresária precisou aprender a delegar e organizar prioridades.
“Para dar conta dos deveres de ser presidente de uma indústria com mais de 1.200 colaboradores e uma rede de franquias com mais de 150 lojas, tive que desenvolver uma rede de apoio e, ao longo do tempo, aprendi a descentralizar algumas tarefas”, revela Andrea Kohlrausch.
A executiva também passou a encarar o autocuidado como parte essencial de uma gestão sustentável. Após momentos em que a saúde acabou ficando em segundo plano, a empresária organizou a rotina para incluir exercícios físicos diários, passando a acordar às 5h15 para se exercitar antes do início dos compromissos de trabalho.
Leandra Priante no Paraguai

Acumulando 29 anos de experiência no mercado, sendo 15 deles voltados ao franchising, Leandra Bisi Priante construiu uma trajetória sólida no setor corporativo. Multifranqueada da 5àsec, rede de lavanderias pertencente ao Grupo FROTH, com 13 operações em Belém, no Pará, a executiva assumiu recentemente a posição de Chief Executive Officer (CEO) da marca no Paraguai.
No novo posto, a gestora lidera um plano de expansão internacional que estabelece a meta de abrir pelo menos 20 unidades no país vizinho ao longo dos próximos três anos. A profissional, que também atua como conselheira, embaixadora e membro de comitês estratégicos da marca no Brasil, enxerga a mudança como um momento-chave em sua carreira.
“Com a experiência empresarial que adquiri em minha trajetória profissional, entendi que este era um passo importante de internacionalização da minha carreira e, ao mesmo tempo, uma oportunidade de contribuir para um novo ciclo da marca em um mercado com grande potencial de desenvolvimento”, afirma Leandra Bisi Priante.
A executiva destaca que a atuação no mercado internacional exige pontos fundamentais para o êxito das operações.
- Planejamento estratégico detalhado
- Rigorosa disciplina financeira
- Capacidade de adaptação às especificidades do consumidor paraguaio
Equilíbrio de Renata Morais

Com 20 anos de atuação na gestão da Rockfeller Language Center, a empreendedora Renata Morais vivencia diariamente a rotina de liderar equipes no setor educacional. A empresária compara o ato de empreender à escalada de uma montanha, atividade que exige preparo físico, equilíbrio emocional e a compreensão de que ninguém alcança o topo de forma isolada.
Praticante de montanhismo e yoga, Renata aplica os aprendizados dessas disciplinas no ambiente de trabalho para equilibrar firmeza e sensibilidade na resolução de problemas. A executiva defende que o grande objetivo do gestor não é apagar dificuldades, mas desenvolver percepção e autoconhecimento para superá-las com inteligência emocional.
Em sua visão, empreendedorismo e liderança exigem combinação entre estratégia e empatia. Para outras mulheres que buscam o próprio espaço nos negócios, a empresária reforça que a liderança é uma construção interna ancorada no equilíbrio entre razão e emoção.
Reestruturação de Ana Paula

Ana Paula Seixas assumiu o comando da rede Mundo Verde em 2020, liderando um processo amplo de reorganização operacional e gestão da marca. Desde então, a executiva conduziu a estruturação interna da empresa, o fortalecimento das práticas de governança corporativa e o reposicionamento do negócio, impulsionando o faturamento e consolidando a presença nacional da rede com mais de 170 unidades.
Com 33 anos de carreira no franchising, acumulando passagens pelos segmentos de varejo, alimentação e educação, a executiva traz uma bagagem extensa em expansão de negócios e tomada de decisões em momentos de crise.
A profissional destaca a importância de ampliar a presença feminina em conselhos e cargos de decisão em grandes corporações, compartilhando o aprendizado de mais de três décadas de atuação em um mercado competitivo.
Desafios de Bruna Vasconi

Sócia-fundadora do Peça Rara Brechó, empreendimento nascido há 18 anos em Brasília, no Distrito Federal, Bruna Vasconi lida com o desafio de preservar a essência da marca durante o processo de expansão por franquias em âmbito nacional. Atuando no mercado de moda circular, a gestora equilibra o crescimento da rede com a atenção à família.
Mãe de quatro filhos, a executiva cita a administração do tempo e a cobrança social constante como obstáculos recorrentes para as mulheres em cargos de alto nível.
“Dentre os principais desafios de ser mulher, mãe de quatro filhos, esposa e empresária no comando de uma grande operação está a gestão de tempo. Em alguns momentos, você é cobrada e questionada. Por outro lado, vem a satisfação de manter uma cultura sólida e o acompanhamento constante para manter a consistência que a marca requer, com tantas unidades espalhadas pelo País, diferentes franqueados, gestores e peculiaridades regionais”, explica.
A empresária defende a criação de redes de apoio e conexões entre mulheres empreendedoras para fomentar a troca de experiências, o fortalecimento profissional e a busca pela independência financeira.
Luciana Melo: essência no Café Cultura

Fundadora e CEO do Café Cultura, Luciana Melo utilizou o modelo de franquias para expandir a presença da marca no mercado nacional, enfrentando o desafio de transformar a empresa em rede sem perder os valores e a qualidade originais. A executiva pontua que o processo exigiu a estruturação de processos operacionais padronizados e uma comunicação clara entre as unidades.
“Expandir o Café Cultura por meio de franquias exigiu uma nova mentalidade de gestão, construção de processos sólidos e uma comunicação eficiente para garantir que cada unidade transmitisse os valores da marca”, afirma.
Além das questões técnicas de gestão, a executiva ressalta a necessidade de superar barreiras em ambientes corporativos tradicionalmente masculinos. Para a gestora, a conquista de credibilidade ocorre por meio de entregas consistentes, inovação contínua, capacidade de adaptação, mentoria e apoio mútuo entre executivas.
“Quanto mais mulheres ocupam posições estratégicas, mais abrimos caminho para que novas gerações tenham exemplos concretos de que é possível liderar e transformar mercados”, destaca Luciana.
Trajetória de Lilian Marques

Iniciando sua trajetória profissional aos 13 anos de idade, Lilian Marques, atual diretora de Expansão da Rede iGUi, acumulou vivências em diversos setores antes de ingressar no mercado de franquias. Formada em Publicidade e Propaganda, com especializações em Marketing e Gestão Comercial, a executiva construiu parte da carreira em grandes empresas multinacionais.
Após retornar para São José do Rio Preto, no interior do estado de São Paulo, a profissional encontrou no franchising o espaço para aplicar seus conhecimentos em desenvolvimento de negócios. Atualmente, comanda as estratégias de crescimento das redes iGUi, TRATABEM e Splash, marcas de um grupo presente em mais de 50 países no setor de piscinas e serviços.
Inspirada no exemplo de sua mãe, a executiva enfrentou episódios de preconceito e a necessidade de comprovar constantemente sua capacidade técnica. Lilian elegeu o estudo contínuo, o planejamento e o foco no desenvolvimento de pessoas como os pilares de sua gestão.
Visão de Claudia Abreu

A atuação de Claudia Abreu, CEO da Royal Face, reflete a utilização da liderança feminina como motor para a transformação de desafios em oportunidades. No comando de uma das principais redes de franquias de estética do País, a executiva soma vivências em gestão estratégica, transformação digital, experiência do cliente e expansão de mercado.
A gestora ressalta a importância de conciliar o direcionamento dos negócios com o desenvolvimento pessoal e profissional, defendendo que a visão de longo prazo e a autonomia são indispensáveis para quem deseja empreender.
“Liderar é transformar potencial em resultado com propósito. Quando mais mulheres ocupam posições estratégicas, ampliamos a visão dos negócios e criamos empresas mais fortes e sustentáveis. Quero que cada vez mais mulheres se sintam preparadas para liderar e empreender, sem esperar validação externa para isso”, afirma Claudia Abreu.
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