
A expansão desenfreada da inteligência artificial esbarrou de frente na vontade do eleitorado americano durante as eleições intercalares nos Estados Unidos. Candidatos democratas que prometeram travar o avanço de novos centros de dados conquistaram vitórias marcantes na noite de terça-feira (3/11).
Estados como Texas, Geórgia e Ohio, que vinham funcionando como verdadeiros ímãs para gigantes de tecnologia interessadas em expandir suas estruturas de inteligência artificial, viram os eleitores escolherem representantes dispostos a apertar o freio e impor um controle muito mais rígido sobre o setor.
O medo da tecnologia
A mudança de postura nas urnas reflete uma preocupação crescente dentro das casas das famílias americanas.
Segundo um levantamento feito pelo Centro de Investigação Pew em 2025, mais da metade da população dos Estados Unidos sente mais medo do que entusiasmo em relação aos avanços da inteligência artificial.
Os grandes galpões de processamento de dados provocam forte rejeição na vizinhança por causa do consumo gigantesco de energia elétrica, da poluição, dos ruídos constantes e da ocupação de enormes extensões de terra.
Dados do projeto de pesquisa Data Center Watch, gerido pela empresa 10a Labs, revelam que pelo menos 45 projetos de centros de dados foram travados na segunda metade de 2026 por conta da resistência de moradores locais.
Na contramão dos apelos populares, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, defendeu publicamente a expansão dessas estruturas.
Em setembro, Donald Trump classificou a oposição aos empreendimentos e as preocupações com a segurança da inteligência artificial como “uma completa farsa”, afirmando que “os centros de dados são ótimos, tornam as pessoas ricas e tornam os estados ricos”.
No entanto, uma pesquisa da NBC feita na saída das urnas mostrou que mais de 50% dos eleitores consideraram a inteligência artificial e os centros de dados como “um fator crucial ou importante” na hora de decidir o voto.
Virada no Texas
O estado do Texas se tornou o ponto central dessa disputa política. Atraindo empresas como OpenAI, Anthropic, Oracle, Microsoft, Google, Meta e Amazon com promessas de benefícios fiscais, terrenos e energia abundante, o estado tentou liderar essa corrida tecnológica.
Em setembro, o governador republicano Greg Abbott afirmou que transformaria o Texas no “epicentro” da inteligência artificial.
Contudo, Greg Abbott recuou do plano inicial e decidiu suspender a emissão de licenças para novos centros de dados até a conclusão de uma auditoria completa. A mudança drástica ocorreu após sua adversária política, a democrata Gina Hinojosa, ganhar espaço ao prometer travar temporariamente todas as novas construções até a criação de salvaguardas legais. Nem mesmo os investimentos bilionários conseguiram conter a insatisfação popular.
O empresário Elon Musk, que canalizou US$ 474 milhões (€ 420 milhões) para os republicanos nessas eleições e constrói o “Colossus”, um enorme conjunto de centros de dados em Memphis, reagiu na rede social X afirmando que “centros de dados no espaço estão a parecer bastante apelativos neste momento”.
O recado em Ohio
No estado de Ohio, a resposta da população contra a instalação indiscriminada dessas usinas digitais foi ainda mais contundente. Ao todo, 15 municípios aprovaram proibições diretas ou impuseram restrições severas para conter o avanço dos projetos na região.
A decisão dos eleitores coloca em risco investimentos bilionários que já estavam previstos para o estado.
- A empresa Meta planejava investir US$ 1 bilhão (€ 890 milhões) na construção de um centro de dados em Ohio.
- A gigante Amazon Web Services tinha previsto gastar US$ 2 bilhões (€ 1,78 bilhão) em novos empreendimentos no estado.
O resultado das urnas deixa claro que a promessa de enriquecimento rápido trazida pelas gigantes da tecnologia já não consegue atropelar o sossego, o meio ambiente e a qualidade de vida das comunidades locais.
Fonte: https://pt.euronews.com/2026/11/04/estados-unidos-travam-centros-de-dados-de-ia-nas-intercalares










