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OMAR X MARIA: Afrânio Soares analisa a reta final das eleições de 2026 no Brasil e no Amazonas

Afrânio Soares, presidente do Instituto Action Pesquisas e professor doutor da Ufam.

Por Juscelino Taketomi

A reta final das eleições de 2026 no Amazonas é marcada pela disputa entre Omar Aziz (PSD) e Maria do Carmo (PL) pelo Governo do Estado, pela movimentação das forças políticas e pela influência crescente da comunicação digital.

Para analisar esse cenário, o portal O Povo Amazonense ouviu o cientista político Afrânio Soares, presidente do Instituto Action Pesquisas e professor doutor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

Na entrevista, Afrânio avalia o grau de definição do eleitorado, os possíveis efeitos das 620 inserções de direito de resposta concedidas a Omar Aziz, a repercussão da visita de Flávio Bolsonaro a Manaus e as diferenças entre o comportamento eleitoral da capital e do interior.

O pesquisador também examina os cenários possíveis para o segundo turno e explica por que as últimas pesquisas devem ser interpretadas como retratos do momento em que foram realizadas. Confira a entrevista:

Portal O Povo Amazonense — Estamos chegando aos últimos dias da disputa pelo Governo do Amazonas, com Omar Aziz (PSD) e Maria do Carmo (PL) concentrando as atenções no segundo turno. Na sua avaliação, quais fatores deverão ser decisivos nesta reta final? O cenário ainda permite mudanças na intenção de voto ou o eleitorado já demonstra um grau elevado de definição?

Afrânio Soares — A disputa está na reta final. São realmente os últimos dias, as últimas balas que podem ser disparadas, e ambos os candidatos estão em pleno movimento.

Entretanto, a essa altura, temos algo próximo de 90% do eleitorado com intenção de votar em cada candidato já decidido a não mudar o voto. Os 10% restantes, que compõem o eleitorado flutuante, podem mudar? Podem, por vários motivos, inclusive em razão do chamado voto útil.

Isso ocorre quando o eleitor muda sua escolha por acreditar que determinado adversário vai ganhar e não querer, entre aspas, perder o próprio voto. É uma situação que acontece quando a intenção de votar em um candidato ainda não está suficientemente consolidada.

Portanto, as movimentações dos últimos dias podem, de alguma forma, influenciar esse eleitorado flutuante e levá-lo a rever sua decisão.

Portal OPA — A Justiça Eleitoral condenou Maria do Carmo a ceder 620 inserções de direito de resposta a Omar Aziz, sendo 230 na televisão e 390 no rádio. Qual pode ser o impacto dessa decisão sobre a estratégia de comunicação dos dois candidatos? O tempo destinado às respostas poderá alterar a percepção do eleitor, especialmente nos últimos dias da campanha?

Afrânio Soares — As 620 inserções de direito de resposta concedidas ao senador Omar Aziz permitem uma exposição maior do candidato na mídia nestes últimos dias, tanto na televisão quanto no rádio.

Existe, sim, um impacto significativo, principalmente nas inserções, e não necessariamente no programa eleitoral tradicional, aquele horário reservado à propaganda política, que tem baixa audiência.

Nas inserções, o efeito é diferente. O eleitor não precisa estar esperando pela propaganda eleitoral. Pode estar assistindo a uma novela, a uma partida de futebol ou a qualquer outra programação da televisão aberta.

No intervalo, em vez de entrar uma propaganda de supermercado ou de outro produto, aparecem as inserções dos candidatos. Com isso, o senador Omar Aziz passa a ter uma presença maior na mídia em razão desses direitos de resposta.

Se essa exposição vai alterar a percepção do eleitor, é algo que se soma ao cenário que mencionei anteriormente, relacionado aos 10% de eleitores flutuantes.

Essa presença adicional pode influenciar justamente o público que ainda está suscetível a mudar de voto.

Portal OPA — A visita do senador Flávio Bolsonaro a Manaus, na segunda-feira (19), com manifestação de apoio a Maria do Carmo na Ponta Negra, pode produzir algum efeito concreto na corrida eleitoral? Até que ponto o peso político do sobrenome Bolsonaro e a mobilização de seus apoiadores podem ampliar a adesão à candidatura do PL?

Afrânio Soares — A visita de Flávio Bolsonaro foi, realmente, um evento muito grande e bem organizado. Estima-se que 150 mil pessoas tenham estado na Ponta Negra.

O ato demonstrou a força da direita em Manaus, não há dúvida disso. Segundo as informações divulgadas pela imprensa, houve, inclusive, a participação de pessoas que vieram do interior do Estado para vivenciar essa experiência.

Com certeza, o evento fortaleceu o voto do eleitorado de direita, cuja maior parte já demonstrava intenção de votar na professora Maria do Carmo. Entretanto, também pode ter influenciado alguns indecisos que, diante da magnitude da manifestação, passaram a considerar a candidatura dela.

O evento pode ter produzido algum efeito entre os eleitores que já declaravam voto no senador Omar Aziz? Talvez, mas isso depende do perfil desses eleitores. Para mudar de escolha, seria necessário que fossem mais suscetíveis à influência da direita.

Pode ter ocorrido, por exemplo, de alguém que já pretendia votar em Flávio Bolsonaro, mas ainda não havia decidido votar em Maria do Carmo, ter se sensibilizado com a manifestação e passado a apoiá-la.

Nesse caso, haveria uma redução na intenção de voto de Omar Aziz e um crescimento da candidata do PL.

Acredito que o evento possa produzir algum efeito favorável a Maria do Carmo, sobretudo em Manaus, mais do que no interior.

Portal OPA — Historicamente, a realidade política da capital e a dos municípios do interior do Amazonas apresentam diferenças importantes. Nesta reta final, Maria do Carmo ainda dispõe de espaço para crescer eleitoralmente fora de Manaus? Quais fatores podem influenciar o comportamento do eleitor do interior?

Afrânio Soares — A dinâmica eleitoral do interior é bastante diferente da capital. Nos municípios, a influência das lideranças políticas é muito importante, especialmente a dos prefeitos, sobretudo daqueles que apresentam boas avaliações junto à população.

Parintins, por exemplo, é um município que historicamente apresenta uma votação mais à esquerda. No primeiro turno, Lula e Omar Aziz receberam, segundo os dados que considero para esta análise, 60,44% dos votos.

Por isso, acredito que a população do município deverá continuar votando majoritariamente em Omar Aziz e no presidente Lula.

Em outros municípios, que não apresentam uma tendência tão alinhada à esquerda ou cujos prefeitos não estejam tão próximos do senador Omar Aziz, pode haver maior equilíbrio.

É importante destacar que, no primeiro turno, Flávio Bolsonaro obteve, em média, 34% dos votos no interior, enquanto o presidente Lula alcançou 61%.

Acredito que esse percentual represente uma espécie de teto para Maria do Carmo no interior, caso ela conseguisse converter praticamente a totalidade dos votos obtidos por Flávio Bolsonaro no primeiro turno.

Como a soma das votações de Flávio e Lula no interior ficou próxima de 100%, enquanto os demais candidatos tiveram percentuais muito baixos, considero que se estabeleceu uma referência importante para as expectativas de votação no segundo turno.

Há, porém, um fator adicional: Maria do Carmo enfrenta um candidato que conta com o apoio de quase a totalidade dos prefeitos do interior.

Essas lideranças deverão mobilizar suas bases, seu capital eleitoral e sua influência sobre os eleitores para ampliar a votação de Omar Aziz.

Por isso, acredito que o senador tenha, no mínimo, um piso próximo de 60% dos votos no interior. Considero difícil que sua votação fique abaixo desse patamar.

Portal OPA — A expansão do acesso à internet, inclusive por meio da Starlink, vem modificando as possibilidades de comunicação em comunidades distantes e áreas rurais do Amazonas. Que mudanças esse cenário provoca nas campanhas eleitorais? As redes sociais já conseguem reduzir significativamente as barreiras geográficas ou a presença física e as lideranças comunitárias continuam sendo determinantes?

Afrânio Soares — Acredito que, cada vez mais, as eleições serão pautadas pelas mídias digitais. Esse processo começou a ganhar destaque na eleição presidencial de Barack Obama, nos Estados Unidos, considerada um exemplo de campanha bem-sucedida que utilizou amplamente as redes sociais e os meios de comunicação digital disponíveis na época.

Atribuo grande parte do crescimento da direita no Brasil à capacidade de comunicação de seus representantes nas redes sociais. Deputados federais, senadores e influenciadores digitais, como Nikolas Ferreira, entre outros, tornaram-se fenômenos nessas plataformas e aproveitaram essa visibilidade para conquistar cargos importantes.

No Amazonas, cito o Capitão Alberto Neto, que começou a ganhar projeção nas redes sociais, especialmente no Facebook, ao mostrar seu cotidiano como policial militar. Essa exposição contribuiu para sua campanha bem-sucedida à Câmara dos Deputados.

Outro exemplo é o sargento Salazar, que também se destacou nas redes sociais e foi eleito deputado federal em seu primeiro mandato.

Essas ferramentas são importantes para levar a mensagem política aos lugares mais distantes. É preciso reconhecer, naturalmente, que a esquerda também utiliza as redes sociais.

Minha avaliação, porém, é que a direita demonstra maior competência no uso dessas plataformas para fins políticos. Antes da popularização das redes sociais, a esquerda tinha uma organização mais estruturada, apoiada em movimentos sociais, estudantis e outras formas de mobilização.

Com a democratização da comunicação digital, a direita passou a ocupar uma posição de destaque nesse campo.

A redução das barreiras geográficas é inegável. A própria votação alcançada por Flávio Bolsonaro no interior, onde ele não esteve presencialmente durante a campanha, demonstra o alcance que a comunicação digital pode proporcionar.

As redes sociais já estão desempenhando um papel decisivo e deverão ter uma influência ainda maior nas próximas eleições.

Um candidato a qualquer cargo que não trabalhe adequadamente sua presença digital estará em desvantagem, muitas vezes difícil de superar.

Portal OPA — Estamos diante de uma mudança estrutural no modelo de campanha política? Grandes comícios, carreatas e reuniões presenciais estão perdendo força diante do alcance das redes sociais, dos vídeos curtos e da comunicação direta pelo celular? No Amazonas, qual modelo tende a produzir maior capacidade de mobilização e convencimento?

Afrânio Soares — Os comícios continuam existindo, são legítimos e também geram conteúdo para as redes sociais.

Quando um candidato consegue reunir uma grande multidão, produz uma imagem que impressiona e acaba gerando repercussão nas plataformas digitais e na própria imprensa.

As transmissões ao vivo, porém, continuarão sendo cada vez mais utilizadas. Não acredito que elas necessariamente acabem com os comícios, mas certamente ampliarão sua presença nas estratégias de campanha.

Portal OPA — Considerando o tempo restante de campanha, a decisão judicial sobre o direito de resposta, a visita de Flávio Bolsonaro e o alcance crescente das redes sociais, quais variáveis merecem maior atenção nos próximos dias? Sem antecipar um resultado, que indicadores podem ajudar a compreender a evolução da disputa entre Omar Aziz e Maria do Carmo até a votação de domingo próximo?

Afrânio Soares — Se trabalharmos com cenários, podemos considerar a possibilidade de Maria do Carmo vencer a eleição. Ela tem chances, sim.

Em uma hipótese que poderíamos associar à regra de Pareto, eu estimaria em 20% a probabilidade de vitória dela, desde que conseguisse atrair entre 80% e 90% dos eleitores que, no primeiro turno, votaram nos demais candidatos, tanto na capital quanto no interior.

Nesse cenário, Maria do Carmo poderia vencer por uma diferença de aproximadamente 50 mil a 70 mil votos, algo em torno de dois a três pontos percentuais.

Entretanto, as maiores chances, na minha avaliação, são do senador Omar Aziz, porque ele conta com uma posição mais favorável no interior.

Além disso, segundo as últimas pesquisas, a disputa permanece equilibrada em Manaus. Maria do Carmo não apresenta uma vantagem muito expressiva na capital e, em alguns levantamentos, aparece em situação de empate com Omar Aziz.

Para que a candidata consiga reverter o cenário, seria necessário um crescimento expressivo nos últimos dias. Os levantamentos internos que acompanho não indicam essa mudança até o momento, mas não descarto a possibilidade de que ela aconteça.

Manaus costuma reservar surpresas para a reta final. Se esse eventual crescimento será suficiente para provocar uma virada, é difícil afirmar.

Quanto à disputa presidencial no Amazonas, imagino que Flávio Bolsonaro obtenha uma vantagem confortável em Manaus, enquanto Lula tenha uma vantagem igualmente confortável no interior.

Esse equilíbrio entre capital e municípios poderá determinar o resultado final no Estado.

Acredito que o vencedor da disputa estadual possa conquistar a eleição por uma diferença de apenas um ou dois pontos percentuais. No primeiro turno, a diferença entre os dois principais candidatos ficou em torno de três pontos e meio.

Também considero que os eleitores dos demais candidatos tendam a se alinhar mais a Flávio Bolsonaro do que a Lula, embora essa transferência não deva ocorrer integralmente.

Se essa distribuição ficar em torno de 60% para um lado e 40% para o outro, poderá proporcionar alguma vantagem a Lula no resultado estadual, mas, na minha avaliação, essa diferença não deverá ultrapassar um ou dois pontos percentuais.

As pesquisas precisam ser interpretadas com cuidado. Elas representam um retrato do momento em que foram realizadas.

Quando um levantamento é divulgado, geralmente reflete entrevistas feitas nos três, quatro ou cinco dias anteriores à publicação. Por isso, pesquisas divulgadas na véspera da eleição podem ajudar a identificar tendências de crescimento ou queda dos candidatos.

Devemos observar os levantamentos previstos para os últimos dias, entre eles os atribuídos à Quaest, à Pontual e ao PoderData, conforme o calendário de divulgação.

Se alguma pesquisa captar uma tendência de crescimento de um dos candidatos, seja na disputa pelo governo, seja na presidencial, esse movimento poderá continuar até o domingo, embora não exista garantia de que isso aconteça.

A pesquisa de boca de urna também merece atenção. Diferentemente dos levantamentos de intenção de voto, ela consulta o eleitor depois de votar e procura registrar a escolha efetivamente realizada.

Nesse caso, as possibilidades são o voto nominal em um candidato, o voto em branco ou o voto nulo.

Depois, a apuração oficial permitirá acompanhar a evolução dos resultados. As primeiras tendências podem aparecer relativamente cedo, mas é necessário aguardar os dados oficiais para conhecer o resultado definitivo.

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